Desfile da Portela em 1975 com o enredo “Macunaíma, herói de nossa gente” (Reprodução)

Carnaval,

Um caso de amor não correspondido

Pouco presentes na ficção e na poesia, as escolas de samba por quase cem anos têm reverenciado a literatura

01fev2026 • Atualizado em: 02fev2026 | Edição #102

Terça-feira, oito da noite, os termômetros marcam 35 graus em Madureira, tradicional bairro do subúrbio carioca. Uma multidão vestida de verde e branco ocupa a Estrada do Portela. Tudo pronto para o último ensaio de rua do Império Serrano antes da virada do ano. Eis que chega a escritora Conceição Evaristo. No carro de som, o puxador dá a letra: “Sou eu, a Flor do Mulungu/ Brilham os olhos d’água!/ Orayeyê! É de Mamãe Oxum!”. Conceição se junta ao coro geral. Rodopia, arrisca alguns passos. É ela a Flor do Mulungu, o centro do enredo-homenagem proposto pela escola.

O Império desfila no sábado, 14 de fevereiro. Dois dias depois, outra escritora será destaque na avenida. Com o enredo “Carolina Maria de Jesus”, a Unidos da Tijuca presta tributo à autora de Quarto de despejo. Sua vida e sua obra, entrelaçadas, passarão pela Marquês de Sapucaí como símbolo do poder revolucionário da palavra e, em paralelo, testemunho de um Brasil ainda preso às engrenagens da escravidão.

Duas autoras negras, dois enredos que propõem um reposicionamento do cânone a partir do Carnaval. E, para além disso, reiteram um antigo amor das escolas de samba pela literatura.

Amor não correspondido, vale dizer. O universo das escolas é assunto praticamente ignorado pelos escritores brasileiros. Afora exceções ilustres — como Aníbal Machado, no conto “A morte da porta-estandarte”; Nei Lopes, com o romance A lua triste descamba; Alberto Mussa, no recente A extraordinária Zona Norte —, é como se o desfile e suas circunstâncias não pudessem ser inscritos no respeitável rol dos temas literários.

A literatura aparece nos enredos desde que passou a haver uma comunhão entre o tema escolhido e o samba

No entanto, a literatura aparece nos enredos desde que passou a haver uma comunhão entre o mote escolhido e o samba que conduz a passagem da escola, há quase um século. Nos primeiros anos dos desfiles, não se exigia essa conexão. Os versos das letras podiam abordar uma desilusão amorosa enquanto o espetáculo visual se desenrolava, por exemplo, em torno do “Carnaval moderno”. Um desses sambas, o da Mangueira em 1933, citava Castro Alves, Olavo Bilac e Gonçalves Dias. O enredo, contudo, era “Uma segunda-feira do Bonfim, na Ribeira”. Ausência total de vínculo. Em 1939, com “Teste ao samba”, a Portela foi pioneira ao relacionar música e tema. Mudou a história dos desfiles.

No mesmo ano, a Vizinha Faladeira conceberia aquele que pode ser considerado o primeiro enredo literário. “Branca de Neve e os sete anões” teve como inspiração o filme de sucesso lançado por Walt Disney em 1937, mas ressoava o conto de fadas originário da tradição oral alemã e compilado pelos Irmãos Grimm. Curiosamente, a escola acabou desclassificada do concurso. O regulamento estabelecia que não seriam permitidas “histórias internacionais em sonhos ou imaginação”. Na justificativa da organização, a Vizinha teria se valido de uma “lenda”.

Saudações

Oito anos se passaram até que outro enredo voltasse as atenções para a literatura. Recém-fundado, o Império Serrano estreou na avenida com “Homenagem a Antônio Castro Alves”. “Salve este vulto varonil/ Amado poeta do nosso Brasil/ Foi a Bahia quem nos deu/ Sua poesia o mundo jamais esqueceu”, diziam os versos do samba, com as hipérboles e o tom apologético característicos da época. A escola acabou campeã.

O tributo a Castro Alves é exemplar dos primeiros enredos literários, quase sempre um inventário elogioso a autores consagrados. Como a saudação da Mangueira, em 1952, a Gonçalves Dias. O samba parafraseava seus mais célebres versos: “Nosso céu tem mais estrelas/ De belezas deslumbrantes/ Nossas matas têm mais cores/ Tão belas e verdejantes/ Nossas flores têm mais vida”. 

A “Canção do exílio” voltaria com a própria Mangueira seis anos depois. Dessa vez, o enredo se centrava no texto em si, aludindo à saudade da pátria de “campinas verdejantes e flores multicores” para onde o poeta espera um dia retornar. 

A ideia de evocar determinado escrito, e não toda a obra, havia sido testada nos anos anteriores. Em 1954, o Império Serrano passou com “O guarani”, mencionando os personagens, o autor José de Alencar e até o maestro Carlos Gomes, criador da ópera baseada no livro. O romance viraria enredo também na Beija-Flor. Já o Salgueiro partiu do poema “O navio negreiro”, de Castro Alves, para desenvolver o desfile de 1957. No ano seguinte, com “Exaltação a Bárbara Heliodora”, o mesmo Império Serrano foi precursor ao homenagear uma escritora mulher.

Desfile da Mangueira em 1967 com o enredo “O mundo encantado de Monteiro Lobato” (Reprodução)

Essa alternância entre enredos biográficos e livrescos continuaria ao longo da década de 60. Um caso emblemático é o da Portela em 1966. Com o enredo “Memórias de um sargento de milícias”, homônimo ao livro de Manuel Antônio de Almeida, a escola levou à avenida o protagonista Leonardo e personagens como Maria Hortaliça e Major Vidigal. O samba-enredo, o único composto por Paulinho da Viola em toda a vida, se iniciava tal qual o livro — “Era no tempo do rei” — e, com incríveis 45 versos, narrava toda a trama do romance, fugindo do modelo laudatório.

Ainda nos anos 60, a mesma Portela passaria com “O tronco do ipê”, sobre o livro de José de Alencar, e a Unidos de São Carlos (hoje, Estácio de Sá) viria com “Gabriela, cravo e canela”, homenagem ao romance de Jorge Amado. Mas os temas biográficos seguiam firmes. “A vida poética de Olavo Bilac” foi apresentada pela Imperatriz Leopoldinense e “O mundo encantado de Monteiro Lobato” ganhou as cores da Mangueira. Esse desfile, de 1967, marca o primeiro enredo sobre a literatura infantil brasileira.

Versos

A Imperatriz inauguraria outro modelo de enredo literário com “Brasil, flor amorosa de três raças”. O desfile foi concebido a partir dos versos de um poema. “E em nostalgias e paixões consistes,/ Lasciva dor, beijo de três saudades,/ Flor amorosa de três raças tristes”, diz a estrofe final de “Música brasileira”. Recortado, o terceto de Olavo Bilac serviu de esteio a uma exaltação à mistura étnica brasileira.

Esses distintos vieses se mantiveram nos anos 70, quando os temas literários se multiplicaram. No campo das abordagens biográficas, tivemos a Mangueira com “Imagens poéticas de Jorge de Lima”, o Salgueiro com “Eneida, amor e fantasia” e o Paraíso do Tuiuti com “José de Alencar, o patriarca da literatura” e “Louvor a Cecília Meireles”. 

Desfile da Salgueiro em 1973 com o enredo “Eneida, amor e fantasia” (Reprodução)

Entre os enredos baseados em obras, a Mocidade Independente de Padre Miguel se valeu de O meu pé de laranja-lima, de José Mauro de Vasconcelos; e a Imperatriz compôs “Martim Cererê”, em referência ao livro de Cassiano Ricardo. A Portela trouxe “Pasárgada, o amigo do rei”, invocando Manuel Bandeira, e “Macunaíma, herói de nossa gente”, tributo ao romance de Mário de Andrade. Tivemos a Lins Imperial com “Dona Flor e seus dois maridos”, mais uma menção a um romance de Jorge Amado; a Vila Isabel, que se inspirou em Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima; e a Imperatriz, que cantou “A morte da porta-estandarte”, em justíssima deferência ao conto carnavalesco de Aníbal Machado.

A rica temporada traria ainda o enredo da Em Cima da Hora sobre Os sertões, cuja sinopse tinha caráter didático: “Quando Euclides da Cunha afirmou ser o sertanejo acima de tudo um forte, quis dizer que o brasileiro era acima de tudo um forte, apesar de todas as adversidades naturais a um país em formação”, afirmava o texto, que rendeu um samba apontado, com razão, entre os melhores de todos os tempos. 

“Marcado pela própria natureza/ O Nordeste do meu Brasil/ Oh, solitário sertão/ De sofrimento e solidão/ A terra é seca/ Mal se pode cultivar/ Morrem as plantas e foge o ar/ A vida é triste nesse lugar”, cantaram os componentes em meio ao desastre que foi o desfile. Com carros quebrados e sob imenso temporal, a escola terminou rebaixada.

Cordel

Foi na década de 70 que começaram a despontar também enredos sobre gêneros ou movimentos literários. A São Carlos saudou as heroínas dos romances brasileiros. Já a Imperatriz e a Em Cima da Hora homenagearam a literatura de cordel, povoando o desfile com figuras como o boi mandingueiro, o Padre Cícero e o Zé Pereira. O tema reapareceria com o Salgueiro em 2012 e, mais de dez anos depois, na Imperatriz, que transformou em enredo dois cordéis sobre a morte de Lampião. 

Nos anos 80, a mesma toada. Inspirada por um poema de Carlos Drummond de Andrade, a Vila Isabel apresentou “Sonho de um sonho”. Reverenciou também os membros da Academia Brasileira de Letras, com “Os imortais”. O desfile reuniu alguns deles, como Jorge Amado, que atravessou a Sapucaí sassaricando sobre um dos carros alegóricos, enquanto no chão desfilavam personagens de Machado de Assis e Euclides da Cunha. “Jandaia canta na Jurema/ Um arco-íris borda o véu de Iracema”, dizia o refrão do samba, citando José de Alencar. A ABL voltaria à Sapucaí com a Estácio, e Drummond viraria enredo por inteiro na Mangueira, que proclamava levar “para os braços do povo/ esse poeta genial”.

Durante duas décadas, os enredos literários minguaram: foi a época dos desfiles patrocinados

Lima Barreto, então esquecido, mereceu as honras da Unidos da Tijuca. A escola denunciou sua marginalização com versos que tocavam sem rodeios no preconceito racial: “Mesmo sendo excelente escritor/ Inocente, Barreto não sabia/ Que o talento banhado pela cor/ Não pisava o chão da Academia”.

Até o fim da década, passariam pela avenida Viva o povo brasileiro — com direito à presença de João Ubaldo Ribeiro —, no Império da Tijuca; Tenda dos milagres, de Jorge Amado, na Lins Imperial; e o poema “E agora, José?”, de Drummond, na Tupi de Braz de Pina. O elenco de enredos biográficos ganhou os nomes de Stanislaw Ponte Preta e Gregório de Matos, com a Acadêmicos de Santa Cruz.

Já na quase virada para os anos 90, o Império Serrano fugiu do óbvio no tributo a Jorge Amado. O enredo promovia um encontro de seus personagens na Tenda dos Milagres. Jubiabá, os pastores da noite, Tieta, Dona Flor, Quincas Berro D’Água e Teresa Batista, que, cansada de guerra, rogava as mágoas em uma roda de samba. “Olha que papo maneiro/ Entre os velhos marinheiros/ E os novos capitães”, dizia o hino da escola, que Amado cantou, animadíssimo, ao lado da mulher e também escritora Zélia Gattai.

Enredo CEP

Nas duas décadas seguintes, os enredos literários minguaram. Isso se explica pela questão dos patrocínios. Foi a época em que surgiu a expressão “enredo CEP” para especificar os desfiles custeados por governos de diferentes cidades, em troca de propaganda. O subsídio não se resumia a municípios. Muitas empresas entraram no jogo, a ponto de termos uma ode da Porto da Pedra ao iogurte. Estudioso do carnaval, o historiador Luiz Antonio Simas lembra sempre a comissão de frente da escola, que passou fantasiada de “Lactobacilos da folia”.

Ainda que de forma esporádica, no entanto, a literatura se fez presente. Em 92, a Estácio venceu seu primeiro carnaval com “Pauliceia desvairada, 70 anos de Modernismo no Brasil”. O refrão do samba — “Me dê, me dá, me dá, me dê/ Onde você for eu vou com você” — ecoava o poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade. A mesma Semana de Arte Moderna havia sido lembrada, quase vinte anos antes, pela Imperatriz.

Esse período foi marcado também por um singular enredo da Beija-Flor. “Alice no Brasil das maravilhas”, de 1991, propunha uma releitura tupiniquim do clássico de Lewis Carroll. Ao perseguir o coelho, Alice caía em um abismo chamado Brasil. Era uma história vertiginosa, por meio da qual a escola falava de nossos históricos problemas sociais. Em chave menos delirante, a Renascer de Jacarepaguá apresentaria “A divina comédia brasileira”, adaptação da obra de Dante Alighieri para a realidade política nacional.

Desfile da Beija-Flor em 1991 com o enredo “Alice no Brasil das maravilhas” (Reprodução)

A língua portuguesa foi tema da Imperatriz e da Mangueira, a Mocidade juntou Machado de Assis e Guimarães Rosa, o Tuiuti festejou Vinicius de Moraes e a Imperatriz destacou as fábulas infantis, misturando Monteiro Lobato e Hans Christian Andersen. No Império Serrano, um animadíssimo Ariano Suassuna teve uma coroação simbólica como imperador da Pedra do Reino.

A conjuntura começa a mudar em meados dos anos 2010, com a crise e a consequente escassez de patrocínios. Os enredos voltam a ser autorais. A literatura, então, retoma o lugar de destaque. O Império Serrano homenageia João do Rio, Manoel de Barros e Vinicius, que vira enredo igualmente na União da Ilha. A Tradição reverencia Ziraldo. A Imperatriz exalta Jorge Amado e imagina uma “peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu”. A Unidos do Viradouro traz o Nelson Rodrigues cronista. Já a Beija-Flor celebra o Marquês de Sapucaí — ele, que deu nome à passarela do samba, era também poeta.

Fora da ótica biográfica, vemos Dom Quixote na Ilha e na Mocidade e Iracema na Beija-Flor. Com “Histórias sem fim”, o Salgueiro imagina o Sambódromo como uma página em branco que vai virar livro. E os livros continuam virando enredo. Em 2024, a Porto da Pedra traz o Lunário perpétuo, almanaque de grande circulação no Nordeste atribuído ao espanhol Jerónimo Cortés (c. 1555-1615); a Grande Rio se inspira no romance Meu destino é ser onça, de Alberto Mussa, e a Portela desfila com Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

Assim como Evaristo no Império Serrano, Gonçalves abraçou com entusiasmo o projeto da Azul e Branca. Foi aos ensaios, visitou o barracão. Na festa de sua recente posse na ABL, a bateria botou o povo para dançar. Se a história confirma a longa relação entre agremiações e livros, passamos a ver, nos últimos anos, uma proximidade maior também dos autores. Nomes clássicos continuam a aparecer nas listas de enredos, mas novas vozes começaram a brotar. Uma literatura mais diversa, mais preta, mais feminina. Atentas aos ventos que sopram, as escolas de samba são também um retrato do seu tempo.

Quem escreveu esse texto

Marcelo Moutinho

Escritor e jornalista, é autor de A lua na caixa d’água e O último dia da infância, publicados pela Malê.

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Um caso de amor não correspondido”