Carnaval,
Conjugando o verbo ‘resistir’
Autor de mais de quarenta livros e doze álbuns, Nei Lopes transformou sua vida e obra num instrumento de combate ao racismo
01fev2026 • Atualizado em: 02fev2026 | Edição #102Quais seriam as probabilidades de um menino nascido no subúrbio carioca no início da década de 40, décimo terceiro filho de uma família negra, tornar–se um sambista importante, com inúmeras composições gravadas? Bastante altas. Sobretudo se essa família lhe propiciasse um ambiente musical, como era o caso, com frequência, em famílias afrodescendentes.
Por outro lado, quais seriam as probabilidades de que o tal garoto suburbano viesse a se tornar advogado, pesquisador e escritor com dezenas de livros publicados, e a ostentar o título de doutor honoris causa por quatro importantes universidades do país? Poucas, muito poucas.
Pois bem, um cara chamado Nei Braz Lopes, nascido no bairro do Irajá em 1942, conseguiu se enquadrar nos dois perfis. Se hoje Irajá é um núcleo urbano movimentado, nessa época era uma área rural, com trechos de mata cerrada e carros de boi circulando. É claro que o ambiente familiar foi propício: por ser o filho mais novo de uma extensa fila, teve melhores condições de estudar sem precisar contribuir para o orçamento doméstico. A família valorizava o estudo, e o garoto era inteligente e aplicado, conseguindo sempre boas colocações nas provas de seleção para escolas conceituadas. E gratuitas, é claro.
Além disso, quando ele tinha apenas quinze anos, os pais, irmãos e amigos fundaram o Grêmio Recreativo Pau Ferro, espaço em que a diversidade cultural era a tônica e que Nei considera sua primeira experiência de socialização: “Lá fui diretor–secretário, aquele cara que redige as atas e cuida da burocracia, ator de teatrinho, cantor e bailarino, no show dos domingos, escrevi e ensaiei pecinhas teatrais, desenhei e tive as primeiras namoradas. Foi meu campo de provas”, conta na biografia Nei Lopes, de Oswaldo Faustino (Selo Negro, 2009).
O contato com o movimento negro o despertou para a luta pela conquista de direitos
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Ainda que revelasse um forte pendor artístico — além de fazer versos e compor, escrevia peças teatrais, cantava, desenhava bem e dançava —, o jovem optou pela carreira jurídica. Ao ingressar na Faculdade Nacional de Direito, nos anos de grande efervescência política que antecederam o golpe militar de 1964, muita coisa mudou na sua maneira de ver o mundo: o movimento literário motivou a publicação de poemas na antologia Novos poetas (1963), mas foi a militância política que o levou ao Centro Popular de Cultura, à atuação em teatro e ao despertar para a questão racial e para a militância no movimento negro. Era muita coisa nova em sua vida ao mesmo tempo.
Até então, no ambiente familiar, pelo fato de a maioria da família ter a pele mais clara do que se convencionou chamar de negro, Nei se autodefinia como “mulatinho” e admite que em sua casa o assunto era evitado como tabu. O contato com o novo ambiente o despertou para a importância dessa tomada de consciência como primeiro passo para a luta pela conquista de direitos.
Foi também nesse momento que nasceu a sedução pela escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que em 1963 conquistou seu primeiro título, num projeto que privilegiava a narrativa da cultura afrodescendente, deixando para trás anos de loas à cultura branca oficial. Não é mera coincidência que o despertar da consciência social e racial e a paixão por uma escola de samba tenham ocorrido ao mesmo tempo. O jovem começava a unir as pontas de sua vida, de tudo que compunha seu universo de referências.
Unindo pontas
Na ala de compositores da escola, a partir da década de 70, Nei travou conhecimento com sambistas e firmou parcerias que lhe deram acesso ao mercado fonográfico. Começou a ter contato com aqueles que viriam a ser seus parceiros ao longo da vida e a conhecer de perto o universo do samba carioca. Eram dois mundos bem diferentes, o da música e o da atuação profissional. Para nossa sorte, a arte venceu.
“Apesar de todo o meu sucesso na profissão, decidi deixá-la. Foi uma opção refletida, e que me encaminhou para as atividades artísticas que eu já ia levando paralelamente”, relembrou ele em seu depoimento no precioso livro Fala, crioulo (Record, 1982), de Haroldo Costa. “Eu já tinha feito teatro, mexia com poesia, e a advocacia era uma atividade sufocante para mim, pelo formalismo a que ela me obrigava, pelo embranquecimento para o qual ela me empurrava.”
Não foi apenas o Salgueiro a lhe dar essa consciência. Um dos fatores decisivos para a virada de chave foi sem dúvida sua aproximação da escola de samba Quilombo, que surgiu em 1975, fundada por um grupo de sambistas liderados por Antônio Candeia Filho, preocupados com as rápidas transformações por que as escolas de samba vinham passando, impostas pela invasão de elementos estranhos às suas comunidades e pela exposição à mídia. Quilombo pretendia ser “um núcleo de resistência de sambistas e do povo em geral contra a colonização cultural”, segundo o próprio Nei, que, mesmo não tendo sido fundador, participou ativamente da escola.
Os ataques da comunidade letrada só cessaram quando o filólogo Antônio Houaiss defendeu Nei publicamente
É também dessa época, mais precisamente de 1977, em meio à conscientização de sua identidade negra, sua aproximação ao candomblé, estreitando ainda mais sua relação com a cultura negra.
Após a rica experiência comunitária vivida no Quilombo, que infelizmente perdeu força com a morte do líder Candeia, em 1979, tornou-se difícil a permanência em escola de samba de molde mais comercial. Uma desavença o afastou da ala de compositores do Salgueiro e, por influência do amigo Luiz Carlos da Vila, aproximou-se da Unidos de Vila Isabel, onde nova decepção o aguardava: os enredos que sugeria e desenvolvia não garantiam à escola boas colocações. Fica patente que o envolvimento com o samba, no Quilombo, era mais profundo, relacionado a pautas de que as escolas de samba naquele momento estavam afastadas.
O Carnaval como manifestação artística é de grande importância no cenário cultural brasileiro e, em especial, carioca. As escolas de samba, desde sua origem, no final da década de 20, são formas de convivência e sobrevivência das comunidades negras recém-saídas da escravidão, sem políticas públicas que garantam sua inclusão na sociedade. Foi no Quilombo de Candeia que Nei Lopes assimilou a necessidade de lutar para que esse caráter identitário não se perdesse. O modelo então vigente, no Salgueiro, na Vila Isabel ou em qualquer outra escola, não lhe interessava mais.
Novo rumo
O início da década de 80 pode ser visto como um ponto de inflexão em sua vida e sua carreira. Uma tragédia familiar, a morte do filho de quatro anos, imprimiu novo rumo à vida de Nei. Recluso, começou a intensificar as leituras e pesquisas. Sua atenção não se voltava apenas aos livros, mas também às obras de referência. O ano de 1981 marcou o início da atividade de escritor, com a publicação de O samba, na realidade… (Codecri), com o expressivo subtítulo A utopia da ascensão social do sambista. Em apenas 84 páginas, traça um corajoso retrato das deturpações e dos equívocos que ameaçavam a riqueza do universo das escolas de samba. A publicação teve grande repercussão por revelar a disposição do autor em abordar a contribuição da negritude para nossa cultura.
Paralelamente à luta pelos direitos autorais e à atuação em cargos públicos em que colaborou com amigos como Abdias do Nascimento e Joel Rufino, Nei construiu uma obra sólida, com a publicação de mais de quarenta livros e de doze álbuns de composições com diversos parceiros. A canção popular é reconhecida em nossos dias como elemento de relevância na formação da identidade de uma nação. Em nosso país, “se apresenta como veículo de exteriorização das camadas subalternas na afirmação de suas identidades”, como afirma Cosme Elias, no seu O samba do Irajá e de outros subúrbios: um estudo da obra de Nei Lopes (Pallas, 2005). No caso de Nei, sua música é a crônica do subúrbio carioca, ao descrever cotidianos que retratam um mundo particular dentro do universo maior da cidade.
Mas a importância de sua obra, em livro ou disco, reside no fato de poder ser encarada e analisada como um instrumento de combate ao racismo. Numa sociedade tristemente — ou tragicamente — marcada pelo racismo estrutural, não basta não ser racista. Não foi por mero capricho que Nei Lopes, ao ser agraciado em 1998 com a Medalha Pedro Ernesto, conferida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, exigiu que a solenidade de entrega fosse no Clube Renascença, fundado em 1951 pela comunidade negra, a quem as portas dos clubes de lazer existentes eram fechadas. Ainda hoje o Renascença é um símbolo de resistência.
A reação de parte da comunidade acadêmica ao fato de um sambista negro se pretender autor de obras de referência pode ser facilmente identificada: racismo, nosso velho conhecido. Nei é autor de utilíssimos dicionários e enciclopédias que lhe custaram anos de pesquisas inovadoras e representam importante contribuição, em especial à influência de línguas africanas no português do Brasil. Os ataques que recebeu da comunidade letrada só cessaram quando o filólogo Antônio Houaiss se manifestou publicamente em reconhecimento à colaboração de Nei para a pesquisa lexicográfica brasileira.
Poucos intelectuais brasileiros conseguem manter uma produção tão abundante e relevante quanto a desse sambista do Irajá, o “mulatinho” que se tornou negro com muito orgulho. Parte dessa trajetória deve ser contada pelo próprio protagonista na autobiografia O “robusto menino” Nei: doces lembranças, eternas saudades, que deve ser lançada este ano como parte da série editorial Decanos da Arte Popular. Sem pose, Nei continua a cantar, dançar, ler, escrever e devolver ao povo — sua constante inspiração — tudo aquilo que sua enorme capacidade de trabalho produz. Como os versos do samba “Nosso nome, resistência”, em parceria com Zé Luiz e Sereno:
Olha nosso povo aí
Conjugando no presente
O verbo resistir.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Conjugando o verbo 'resistir'”
