Angola, Sul. Fotografia de Jordi Burch

Deslembramentos,

triste Cina, a dela

as estórias em angola sobrevivem à escrita e circulam na memória colectiva como fantasmas sem sono — e sobretudo sem paz

01fev2026 | Edição #102

(…) no outro dia quase voltei ao norte do meu país

para ir encontrar (se ainda por ali andar) Cina, personagem da vida real que me promete contar partes da sua vida e do seu sonho, para que eu possa, se assim for possível, fazer um livro que junta as coisas da vida dela

com coisas que andei a ouvir de um grande amigo que até já partiu e, passados anos, viria eu a entender que eram duas metades da mesma incrível e saborosa tangerina: uma estória tão inacreditável que, se eu não tiver cuidado, hei de cometer o erro de a não saber contar como se conta na boa literatura.

e é mais ou menos isso, tirando as partes (chatas) de detalhe que me põem em territórios de hesitação na escrita da tal a cuja estória, adiada, mas sempre inadiável.

*

anos mais tarde, eu viria mesmo a conhecer a mãe desta senhora que vive (?) no norte do meu país, e a frase certeira que ouvi certa manhã — na berma de um restaurante —, fez-me pausar e fingir que tinha coisa para fazer ali para (voltar a) escutar esta incrível frase:

“triste Cina, a minha”. a dela, portanto. da mãe. 

ao dizer “minha”, aquela mãe fez, com toda a naturalidade, o que fazem as mães: chamar de “sua” a filha. só horas mais tarde me apercebi do que dois dias depois vim a confirmar por questionamento e resposta a bons informadores: aquela senhora é a mãe de Cina.

terá ficado meio desaparafusada, pensa–se, e murmura a mesma frase como se fosse um relógio de cuco ao dar horas erradas: “triste Cina, a minha”.

*

(abrir parêntesis)

não só luanda mas também benguela, huíla e namibe já me haviam apresentado personagens “específicos”, para dizer o mínimo.

gente pronta para inaugurar livros e peças de teatro. estórias de vida que se riem antes de ser contadas e se voltam a rir depois de as contarmos: as estórias em angola sobrevivem à escrita e circulam na memória colectiva como fantasmas sem sono — e sobretudo sem paz; até que alguém as escreva e as apazigue numa dimensão artística que lhes possa igualar em ritmo, dimensão e intensidade.

ao dizer ‘minha’, aquela mãe fez o que fazem as mães: chamar de ‘sua’ a filha

mas tal não me tinha acontecido com cabinda. terra da minha bisavó guilhermina. e da mãe dela. e do pai dela. e ainda não seria por via familiar que a narração se daria. mas sim pelo ritmo contado do camarada onalima. cabinda, anos 80. a mãe dela e (talvez) a triste Cina. uma estória cheia de pequenos milagres que tentarei desdobrar.

um dia. quando for a hora. e as chuvas permitirem.

(fechar parêntesis)

*

conheci Cina muitos anos depois da mãe dela, obviamente. e também muitos anos depois de ela ter conhecido o camarada onalima. todas estas frases poderiam ter sido abreviadas para: conheci Cina já demasiado muito tarde. mas pode ser que ainda haja algum tempo.

(dito assim, e arrumado como dispus, piscamos brevemente o olho ao tempo, sacudindo dos olhos as marcas de ternura que também o tempo deixa.)

o que vim hoje fazer neste texto é inscrever na minha memória colectiva personagens de uma estória que só mais tarde virei a escrever. oxalá ainda possa encontrar viva, em cabinda, a mãe de Cina. o marido dela, também.

e o filho deles com o nome do padrinho. todos ainda em cabinda, e não com muita vontade de me contar o que aconteceu naquele potente fim de semana de um certo dia 1 de abril.

mas eis que os olhos das crianças abrem as portas do sagrado que pode e quer contar. será o próprio afilhado do onalima que vai docemente perguntar as coisas que a brevidade certeira da sua idade ajuda a lapidar e afinar. eu farei as perguntas de quem já sabe algumas coisas. ele fará as perguntas de quem não sabe nada sobre a vida antes da vida dele.

o perguntório fluirá. Cina dirá, para surpresa minha: eu nunca fui triste

a mãe há-de sorrir, provocadora, na minha direcção, repetindo com a mesma consistente e literária doçura: triste Cina, a minha.

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “triste Cina, a dela”

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