Literatura,
Os perigos da imaginação
Distopia de escritora-livreira árabe mostra como os livros são uma grande ameaça aos regimes totalitários
14jan2026 • Atualizado em: 16jan2026“Certa manhã, ao acordar preenchido de palavras dos outros, o Censor de Livros se deu conta de que havia se transformado num leitor.”
Com essa frase, Bothayna Al-Essa inicia A biblioteca do Censor de Livros. Traduzida direto do árabe por Jemima Alves, a narrativa distópica é ambientada em tempo e espaço não definidos, reforçando o caráter universal da premissa — infelizmente, cada vez mais atual, como temos visto em episódios de censura a livros no Brasil, Argentina, China, Estados Unidos, Hungria, Turquia e outros países por parte de governantes autoritários.
Bothayna Al-Essa sabe do que está falando. Nascida no Kuwait — pequena nação árabe localizada no Golfo Pérsico e detentora de um dos maiores PIBs per capita (o país possui a quinta maior reserva de petróleo do mundo), a escritora é proprietária de uma livraria de rua na capital, a Takween, que também funciona como casa editorial.
A autora-livreira foi uma das vozes mais ativas pelo fim da censura existente no Kuwait entre 2014 e 2020, quando quase 5 mil livros foram proibidos, incluindo clássicos como Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, e O corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. Na verdade, ainda existe um livro proibido no país, de autoria da própria Al-Essa: Lost in Meccah (Perdido em Meca, sem tradução no Brasil), história de um menino kuwaitiano de sete anos que desaparece durante a sagrada peregrinação a Meca, na Arábia Saudita.
Autodestruição
Al-Essa se tornou livreira em 2016, não em uma empreitada comercial, mas numa “jornada romantizada de autodestruição, à qual sobrevivi por razões que ainda não entendi totalmente”, definiu em texto publicado no site Literary Hub.
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Frequentemente, censores visitavam a Takween e verificavam se o estabelecimento vendia livros proibidos por um comitê formado por doze pessoas, que censurava publicações com temas que envolviam o governo, Deus e sexo.
Al-Essa chegou a ser abordada durante uma feira literária, mas por razões não oficiais. Uma censora pediu uma cópia de um livro proibido por ela mesma, pois havia gostado dele e queria guardar um exemplar. O que tinha lido era propriedade da biblioteca do governo e, em algum momento, seria queimado junto com milhares de outros livros censurados.
Em sua livraria, Al-Essa recebia visita de censores que buscavam livros proibidos pelo governo
Fazendo dessas experiências uma matéria-prima, a escritora criou seu protagonista, o Censor de Livros. Encantado com Zorba, o grego, romance publicado em 1946 pelo escritor Níkos Kazantzákis, o Censor se vê seduzido pelas palavras impressas e passa a conviver com os personagens que precisa banir. Sua situação se complica quando conhece o velho Secretário do Departamento, que guarda a biblioteca de livros proibidos do chefe da seção, e passa a ter acesso aos volumes. A partir daí, o Censor de Livros se deixa levar por clássicos como Alice no País das Maravilhas, Pinóquio, 1984, Laranja mecânica e o incortonável Fahrenheit 451.
Na realidade do romance, ler por prazer títulos censurados é considerado um crime grave e o Censor se torna um Câncer — nome dado a quem contrabandeia livros proibidos, que são queimados todos os anos no Eid da Purificação (eid, em árabe, significa “festival” ou “feriado”). Em paralelo, o protagonista teme pelo futuro da filha de cinco anos, detentora de uma imaginação fértil, algo visto como perigoso pelo governo.
Siga o coelho
Finalista do National Book Award de 2024 e vencedor do Prêmio Sharjah de Criatividade Árabe de 2021 na categoria romance, A biblioteca do Censor de Livros é uma carta de amor à literatura e ao poder da imaginação. É também um primo árabe de A polícia da memória, romance da escritora japonesa Yoko Ogawa, publicado originalmente em 1994 e outra ode à criação de mundos.
Como a narrativa de Al-Essa faz referência a várias obras, um dos maiores prazeres da leitura é identificar quais personagens e histórias, não só da literatura dita ocidental, mas também da árabe, aparecem. Uma referência evidente é Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, devido aos inúmeros coelhos (inclusive na capa da edição brasileira) que surgem no prédio onde trabalham os censores. Quem escolhe seguir os animais cai no buraco da imaginação e em seus múltiplos significados — um contraponto ao trabalho do censor, que é orientado a se manter na superfície da linguagem:
Cuidado para não se deixar levar pelo significado. Você sabe o que acontece com aqueles que se envolvem com o significado? São acometidos por uma loucura permanente e nunca mais recuperam a capacidade de ver.
Para driblar a censura, a autora trocou ‘Allah’ por termos que significam ‘divindade’
Assim alerta o Primeiro Censor ao protagonista, novato no serviço. A advertência acena nitidamente para o título original, em árabe, que poderia ser traduzido como “guardião do mundo da superfície”. Como explicou Al-Essa em entrevista ao canal no YouTube da Fundação Jan Michalski, instituição suíça voltada à literatura, o Censor só se preocupa com o significado literal das palavras, não com as possíveis interpretações — ao contrário dos leitores.
Fora da ficção, escritores buscam formas de burlar a literalidade. Foi assim que Al-Essa conseguiu publicar seu livro no Kuwait em 2019: mudando palavras e brincando com o vocabulário.
Na mesma entrevista, Al-Essa fala sobre a palavra “Allah”, “Deus” em árabe. No país islâmico em que reside, a palavra faz parte de um contexto sagrado, que deve ser preservado. Por isso, sua aparição deixa em estado de alerta os censores, que proíbem obras que não seguem por completo a doutrina religiosa oficial. Para driblar a censura, a escritora evitou usar o termo, optando por outros que significam “divindade”, e valeu-se de palavras do árabe antigo que remetem a partes do corpo para não fazer referência direta ao sexo. “Uma das razões pelas quais eu quis escrever esse livro era criticar a censura e conseguir me safar disso”, explicou a autora.
Babel
Outra referência que assombra o romance, ainda que não seja textualmente mencionada, é “A biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges. A certa altura, o Censor de Livros encontra o Estranho, guia que o levará à maior biblioteca do mundo, onde ficam guardados os livros proibidos, em uma espécie de limbo, até serem queimados. No conto de Borges, a biblioteca de Babel não integra o mundo físico, mas o reino da imaginação, e em seus livros coexistem todas as possibilidades.
Na narrativa de Al-Essa, o Censor de Livros se transforma no Guardião da Biblioteca, ou Guardião do Labirinto, o lugar formado pelos livros que ele deseja salvar. A possibilidade de as histórias seguirem existindo — e a possibilidade da imaginação — toma forma na Pequena, a filha do Censor. As histórias contadas e vividas por ela, que remontam a O mágico de Oz e Caixinhos Dourados, são histórias que nunca chegou a ler nem ouvir — mas isso não faz diferença.
Todas as narrativas que existem, que já existiram e que existirão estão em nós e no mundo, à espera de serem descobertas. Em sua inocência infantil, a Pequena capta isso bem. Da mesma forma, A biblioteca do Censor de Livros nos lembra que, por mais que se tente sufocar a imaginação, ela encontrará um caminho muito além da superfície.
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