“Tree Tunnel, August”, 2005 (Richard Schmidt/Divulgação)

Arte,

O mais pop dos pintores

Obra de David Hockney é analisada em livro que mostra como o artista incorporou ao seu trabalho marcos da literatura, do cinema e da música

08jan2026 • Atualizado em: 30jan2026 | Edição #102

Há cerca de vinte anos, o pintor inglês David Hockney revelou ao jornalista Martin Gayford sua visão sobre o poder das imagens: “As pessoas ficam excitadas com esculturas e pinturas; quebram, beijam, choram diante delas, são acalmadas por elas, são incitadas a se revoltar, viajam para vê-las”. É impossível não pensar na apinhada Fontana di Trevi, em Roma, ou na sala lotada da Mona Lisa, no Louvre, como exemplos de euforia. 

Entre abril e agosto de 2025, a Fundação Louis Vuitton, em Paris, abrigou a maior exposição da carreira do pintor, com mais de quatrocentas obras, que teve filas quilométricas de visitantes. Em paralelo à mostra, foi lançado o volume David Hockney, que reúne ensaios críticos sobre todas as fases do artista escritos por profissionais do mundo das letras e das artes, como Norman Rosenthal, Simon Schama e Suzanne Pagé.

O livro mostra como Pablo Picasso (1881-1973) e Claude Monet (1840-1926) foram decisivos para o repertório estético do artista inglês — e confirma a tese de Hockney sobre o magnetismo de certos trabalhos. Durante uma visita ao Musée de l’Orangerie, em Paris, ele ficou maravilhado ao notar como a luz do entardecer alterava o azul das plantas na representação de um lago de Giverny. A variação da cor em relação ao espaço e ao tempo é um tema fundamental nas discussões sobre a sua obra. De teses mais ou menos rebuscadas, o que fica é uma ode à primavera, ao silêncio, à tradição pictórica.

Considerado um popstar da pintura, Hockney aposta no sublime para retratar um mundo em constante metamorfose. Conforme o historiador da arte Will Gompertz, o artista “confia demais em si para se preocupar com modinhas”. Sempre esteve na vanguarda, questionando dogmas do cânone ocidental e transitando por diversas plataformas desde o início da carreira.

O livro mostra como Picasso e Monet foram decisivos para o repertório estético de Hockney

Sua figura foi celebrada primeiro pela qualidade pictórica, depois por suas atitudes. Em 2011, revelou ter se recusado a pintar o retrato da rainha Elizabeth II. Preferiu se dedicar aos estudos e a popularizar a história da arte por meio de livros e séries documentais para televisão, como Secret Knowledge, exibida pela bbc. Reinventando-se ano após ano, seu universo pictórico está em constante expansão. “Seu mundo é um eterno Saint-Tropez, com tudo iluminado por uma explosão de cores brilhantes”, escreveu Gompertz.

“Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)”, 1972 (Art Gallery of New South Wales/Jenni Carter/Divulgação)

A paleta mais vibrante pode ser apreciada nas famosas “pinturas de janela” — algumas reunidas em My Window (Taschen, 2022) — e nas paisagens captadas in loco no campo e nas florestas da Normandia. Imerso na natureza, o artista consegue registrar as alterações climáticas da paisagem. É possível estabelecer uma conexão direta com o universo de Monet e suas repetidas cenas frugais: um mesmo lugar retratado diversas vezes, em diferentes momentos do dia e da noite. Observador perspicaz, Hockney recria cenas nas quais a delicadeza triunfa.

Camaleônico

Desenhista desde a juventude, ele buscou distanciar-se de academicismos, dogmas ou crenças para criar uma ligação intensa com o ambiente. Seu compromisso sempre foi captar o espírito do tempo. Os estudos e a representação das paisagens do norte da Inglaterra foram cruciais no período como aluno de belas-artes, mas seu espírito plural o levou a se mudar para os Estados Unidos em 1964, onde, devido à rápida ascensão profissional, conviveu com pintores, atores, cantores, fotógrafos e escritores. Esse intercâmbio cultural foi fundamental em seus anos de formação. 

Camaleônico, Hockney reinventou-se inúmeras vezes ao longo da extensa trajetória. Transitou do realismo à abstração, experimentando novos formatos — dos tradicionais óleo e acrílico sobre tela à pintura digital, nos anos 2000. Também foi pioneiro ao usar a tecnologia como aliada em seu ateliê, desde o fax até o tablet. 

“Por muitos anos, Hockney utilizou a fotografia e todas as novas mídias assim que surgiram. Por isso, quando o iPhone e o iPad apareceram, ele os incorporou como uma nova forma de desenhar e pintar. Agora, o impacto que essas ferramentas têm sobre ele é ainda mais visível quando usa tinta e pincel, inspirando-se em certos traços, linhas curvas e pequenas formas que descobriu com meios digitais”, relata o curador da Fundação Louis Vuitton, François Michaud, em entrevista à Quatro Cinco Um.

Em David Hockney, os textos exploram pela primeira vez trabalhos menos conhecidos. Quadros como O segundo casamento (1963) revelam a evolução do pintor em busca da consolidação de um estilo. Nessa obra, que flerta com figuras de Francis Bacon (1909-1992), a tela adapta-se a um tipo de composição figurativa muito característico de sua produção.

“J-P Gonçalves de Lima, 11th, 12th, 13th July 2013” (Richard Schmidt/Divulgação)

A questão da “caixa” renascentista, na qual uma cena se desenrola, é abordada, observa Michaud. “Como podemos nos sentir parte da cena? Estar dentro do mundo criado pelo pintor. ‘Cubos’ semelhantes existem em algumas obras de Bacon, mas David Hockney quer que entremos na cena, enquanto Bacon nos mantém separados dela.” Ao longo das décadas, Hockney brincou com as noções de espaço e perspectiva, como ao testar uma técnica de perspectiva inversa em Kerby (After Hogarth) Useful Knowledge (1975), baseado em uma gravura de William Hogarth (1697-1764) descoberta durante a apresentação de uma ópera de Igor Stravinsky (1882-1971).

É notória a influência da ópera em suas composições. Desde a década de 70, o pintor criou figurações e cenários para espetáculos clássicos, como Tristão e Isolda, de Richard Wagner (1813-1883). No livro, os cenários ganham protagonismo. Além do registro de peças icônicas, fotos, desenhos, documentos e reproduções revelam os bastidores do processo criativo.

Mosaico

A literatura, o cinema, a música e os estudos teóricos constituíram a sólida formação de Hockney. A bagagem cultural moldou a carreira a partir do momento em que ele passou a olhar também para dentro. Do rock and roll às óperas alemãs, do cinema experimental aos clássicos de Billy Wilder (1906-2002), da história da arte à literatura contemporânea, sempre teve obsessão em construir um mosaico de boas referências. 

Leitor compulsivo, aborda temas como afeto e homossexualidade com olhar profundo e curioso. Escritores como Oscar Wilde (1854-1900), W. H. Auden (1907-1973) e William Blake (1757-1827) integram sua base intelectual. Mas seu compatriota e contemporâneo Christopher Isherwood (1904-1986) foi uma das influências mais poderosas por retratar a solidão nos recantos ensolarados de uma América glamorosa, com suas piscinas e seus corpos livres.

Pintura realizada no iPad, 2020 (Divulgação)

Autor de Um homem só e Adeus a Berlim, Isherwood conviveu com Hockney em Los Angeles, onde passou seus últimos anos. Da amizade nasceu o retrato mais icônico do escritor, ao lado do companheiro, o ator Don Bachardy, realizado em 1968. Outros ícones queer figuram em sua galeria de retratos, de famosos a anônimos. Nessa série, impressiona como ele imortaliza com dignidade as imperfeições estéticas de cada um.

Leitor compulsivo, o pintor aborda com profundidade temas como afeto e homossexualidade

Dialogando com as obras, o texto mostra como momentos épicos da literatura foram o ponto de partida para o artista reinventar seu mundo, como ao recriar a cena bíblica do Sermão da Montanha. Hockney apresenta as transformações do belo e aposta no inesperado. É plural e democrático: retrata desde os profissionais de enfermagem que o trataram durante uma internação até o cantor Harry Styles. Em grande parte, são seus amigos os protagonistas de quadros divertidos, além de seus cães basset hound.

A obra de Hockney beneficia-se da sua versatilidade e do ânimo para dialogar com o presente, sem abandonar referências do passado, observa Michaud. “Diálogo é uma palavra-chave para David Hockney. Para ele, o passado e a arte do seu tempo devem dialogar continuamente. Recusando a ideia de tábula rasa da cena artística de sua juventude, ele acredita que é preciso trabalhar a partir dos antigos mestres.”

Quem escreveu esse texto

Matheus Lopes Quirino

É jornalista. Foi editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.

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