Rembrandt como pastor com cajado e flauta, de Govert Flinck (c. 1636) (Divulgação)

Arte,

Perfeição sobrenatural

Benjamin Moser escreve sobre a Era de Ouro dos pintores da Holanda em busca de um país do qual só restam fragmentos

02jul2026

Depois de se destacar como autor das biografias de Clarice Lispector e Susan Sontag, Benjamin Moser se volta para os pintores do país onde ele vive há mais de duas décadas. Em O mundo de ponta-cabeça: encontros com os mestres holandeses, Moser aborda os mestres da chamada Era de Ouro (c. 1588-1672) a partir da perspectiva de imigrante dos Estados Unidos radicado na Holanda. Embora trate de nomes maiores, como Rembrandt, Vermeer e Frans Hals, o melhor do livro está nos capítulos dedicados a artistas menos conhecidos, como Hendrick Avercamp e Adriaen Coorte.

Foi somente na segunda metade do século 19 que a história da arte do período foi organizada em torno daquele que hoje é considerado seu nome principal: Rembrandt. E a sombra — ou luz — de Rembrandt paira sobre toda a primeira parte do livro. Nela, Moser mostra que, depois da canonização do artista, quase todos os pintores passaram a ter seu valor medido na comparação com o dele.

O escritor Benjamin Moser (Philippe Quaisse/Divulgação)

Uns podiam ter estilo mais próximo de Rembrandt, caso de seu contemporâneo Jan Lievens ou de alguns de seus discípulos. Outros seguidores foram vistos pela história como opostos ao mestre, a exemplo de Ferdinand Bol ou Govert Flinck. Não porque as pinturas não tivessem grande qualidade, mas porque suas vidas estavam longe do ideal do artista romântico, a que Rembrandt correspondeu em seus anos finais.

Ainda que ele tenha feito muito sucesso na juventude, a versão de Rembrandt celebrada na posteridade foi a do artista velho e empobrecido, cuja pintura de fatura espessa e pouca definição chegou a ser comparada a excremento por um contemporâneo. Bol e Flinck morreram ricos e cobertos de glórias; não tiveram a trajetória de decadência que tornou Rembrandt tão atraente para os românticos do século 19. Hoje são considerados menores e figuram como personagens secundários de uma história na qual já foram protagonistas.

Moser faz dos estudiosos dos artistas personagens mais interessantes que os próprios artistas

Embora Moser deixe claro que qualquer busca pela essência de um artista está fadada ao fracasso, esquece-se disso quando analisa as pinturas de Vermeer. Fica desapontado, por exemplo, com as obras que o artista fez na juventude por não encontrar nelas a pureza de estilo que ele demonstrou ser impossível de sustentar quando analisou a relação de Bol e Flinck com Rembrandt. 

O autor também se decepciona com o simbolismo e com a qualidade narrativa de alguns dos quadros — como A alegoria da fé católica —, como se buscasse em Vermeer uma pureza formal moderna, que pouco faria sentido para o pintor. Mas Moser parece reconhecer os limites da sua abordagem quando diz, por exemplo, que alguns quadros “pareciam errados” e que “gostamos de nossos Vermeer sem mensagens”. A “perfeição sobrenatural” buscada é tão fabricada quanto a subjetividade moderna projetada pelos românticos do século 19 nas obras tardias de Rembrandt.

A existência de quaisquer Vermeer “errados” mostra que a história resiste às tentativas de enquadrá-la em um esquema mental preconcebido. São os historiadores que a escrevem a partir dos indícios disponíveis, como fica claro no capítulo sobre Hendrick Avercamp. Nele, o livro chega a seu momento mais original, menos por causa de Avercamp do que por causa da arquivista de província Clara Welcker, que recebeu a nobre missão de escrever uma biografia sobre o pintor no começo do século 20.

Lacunas

Moser mostra como Welcker preencheu lacunas deixadas pelos poucos documentos de que dispunha a partir de sua experiência. Assim como Avercamp, ela era surda e, ao escrever sobre ele, parece estar falando tanto sobre si própria quanto sobre as paisagens cobertas de neve por cujas representações o pintor é conhecido. De qualquer modo, depois de ter lido o capítulo, fica difícil pensar nos quadros sem pensar na história dela. 

Algo parecido acontece no capítulo sobre Adriaen Coorte, extraordinário pintor de naturezas-mortas, cuja história passa pelo professor escolar Laurens-Jan Bol. A descoberta das pinturas de Coorte se confunde com o percurso de Jan Bol, que vasculhou o país em busca de obras do artista, enxergado por ele como seu “filho adotivo”. Graças à sua pesquisa diligente, o professor termina consagrado como diretor do Museu de Dordrecht e principal referência na obra de Coorte.

Gideon’s sacrifice, de Ferdinand Bol (1640) (Divulgação)

Clara Welcker e Laurens-Jan Bol medeiam nossa relação com os artistas, escrevendo sua história com mais ou menos rigor. Embora o segundo pareça tratar a história da arte de um jeito mais profissional que a primeira, as razões que o guiam são semelhantes, assim como acontece, ouso dizer, a historiadores consagrados, como Kenneth Clark ou Germain Bazin. Ao atravessar a muralha de erudição desses autores, talvez seja possível encontrar motivos não muito diferentes dos da arquivista ou do professor.

Moser transforma Welcker e Jan Bol em personagens mais interessantes do que os próprios artistas. No caso de Welcker, por exemplo, apresenta-a como alguém de

cabelo preso num coque prático, as lentes embaçadas pelas quais ela escruta alguma garatuja indecifrável. Imaginamos décadas naquele arquivo, naquela cidadezinha sonolenta: solteira, sem filhos, com pouca gente para partilhar seus interesses por história e literatura. 

Com os dois personagens, o texto convida a refletir sobre a escrita da história da arte sem recorrer a um repertório acadêmico denso ou a conceitos predefinidos. Pelo contrário, um dos momentos mais fracos do livro é quando Moser analisa as pinturas de Jan Steen a partir de conceitos elaborados por Susan Sontag, sobre quem escreveu uma biografia premiada com o Pulitzer. 

Todos os capítulos parecem permeados pela busca do autor por uma Holanda da qual só restaram fragmentos. Isso fica bem claro no capítulo sobre Frans Hals: chegamos a ele por meio de alguns parcos documentos que registram suas extremas dificuldades materiais. Em um deles, obtemos a informação de que Hals foi processado por não pagar uma entrega de manteiga e queijo; em outro, processado por não pagar o sapateiro; em ainda outro, o açougueiro. 

Todos os capítulos do livro estão permeados pela busca do autor por um país de fragmentos

Não que Hals fosse um caloteiro contumaz, mas a realidade material precária em que viviam as pessoas das então ricas Províncias Unidas dos Países Baixos seria inimaginável para um holandês de hoje. Também há algo de fragmentário nas pinturas que Hals fez na velhice, como os retratos de grupo dos regentes do asilo que o artista pintou em seus últimos dias, nos quais as “fissuras de pinceladas solitárias” resistem a uma forma bem definida.

Os textos que compõem os capítulos foram escritos por Moser desde que chegou à Holanda, quando ainda pensava em se tornar um escritor. Assim como sua escrita amadureceu, sua visão do país deixou de ser comparável a uma pintura de Vermeer e passou a se aproximar de um quadro de Pieter de Hooch, como ele assinala. Não que um quadro de De Hooch seja pouco, mas é certamente menos “perfeito” do que uma pintura de Vermeer. 

Escrever sobre os mestres holandeses parece ser a maneira que o autor encontrou de olhar o país para além de como aparece quase sempre nos noticiários: uma terra de tolerância, onde todos são felizes em suas bicicletas — uma imagem tão verdadeira quanto os canteiros de flores no Keukenhof. Moser se aproxima da pintura holandesa como quem busca brechas para uma Holanda diferente daquela que, vista do alto, parece uma maquete para quem pousa no aeroporto de Amsterdã. 

Quem escreveu esse texto

Felipe Martinez

Felipe Martinez é professor visitante na Universidade de Leuven, na Bélgica e autor de O escolar de Vincent van Gogh (Edusp).

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