Dente de Ouro, 2023. Óleo sobre 4 telas e sobre placas de alumínio (Divulgação)

Arte,

Coleção de imagens

Com textos breves e sem análises conclusivas, ‘álbum visual’ de Sérgio Sister dá autonomia para o leitor chegar a suas próprias interpretações

05fev2026 | Edição #103

A arte nos livros de arte é uma coleção de imagens substitutas”, escreve o crítico norte-americano Harold Rosenberg em um ensaio sobre o aumento de publicações do gênero. Para ele, por mais que essas imagens não sejam suficientes, elas possuem enorme vantagem em relação aos objetos que representam, já que aparecem em um contexto de conhecimento e permitem que o leitor não apenas “veja” as obras de determinado artista, como as contextualize com a ajuda de cronologia, listas e bibliografia — um ganho intelectual que não acontece no contato direto com as obras.

Mas, ainda que o argumento de Rosenberg corresponda à maioria dos livros sobre arte, ele não se aplica a Sérgio Sister, publicação da Edusp com uma seleção de trabalhos do pintor paulistano. Ali, diferentemente da experiência que se tem no contato com um estudo monográfico, um catálogo raisonné ou de exposição — que costumam vir acompanhados de análises aprofundadas em torno de artistas e obras —, é provável que o leitor sem informações prévias termine a leitura com a sensação de que seu conhecimento sobre o artista não se ampliou.

Não dá para dizer, no entanto, que o livro não cumpre algo que promete: na introdução, Sister apresenta o exemplar como um “álbum visual” e o define como objeto impresso que pode ser manuseado, página por página, como uma coleção que dá ritmo e legibilidade às ideias visuais. A ênfase está nas imagens, e é preciso recorrer a outras fontes para saber como Sister se tornou um dos principais nomes da abstração com sua pesquisa em torno do espaço, da materialidade e da cor.

Obra da série ‘Pinturas entre Frestas e Cavidades’, de Sérgio Sister (Divulgação)

No livro, além da introdução de pouco mais de uma página escrita pelo artista, há apenas uma minibiografia reservada à última página. São três parágrafos para mencionar o início do aprendizado e as primeiras exposições; a carreira como jornalista profissional (de 1966 a 2010); a militância política, que resultou em dezenove meses de prisão durante a ditadura militar; e os principais museus cujo acervo é composto por seus trabalhos.

Com textos brevíssimos de Felipe Scovino, Laura Vinci e Josée Bienvenu centrados na análise de alguns trabalhos, o espaço para a trajetória de Sister é limitado — tanto no que se refere ao percurso individual quanto em relação ao lugar que a produção ocupa em um espectro mais amplo. No último ensaio, Bienvenu até menciona as raízes na “abstração e nas permutações do ready-made”, assim como a herança “do minimalismo americano dos anos 1960, da arte povera europeia e do movimento neoconcreto brasileiro”, mas essas referências são insuficientes para determinar a importância do artista na história da arte.

O artista define o livro como um conjunto que dá ritmo e legibilidade às ideias visuais

Pensado a partir dos trabalhos exibidos entre 2023 e 2024 em duas exposições — na galeria Nara Roesler, em São Paulo, e na Bienvenu Steinberg & J, em Nova York —, com o acréscimo de uma seleção de obras produzidas em papel, o livro destaca peças mais recentes de séries desenvolvidas desde os anos 90, como as Ripas, as Caixas e os Pontaletes, nomeadas em referência ao suporte em que são realizadas. Elas trazem a memória de sua origem, mas aparecem inseridas em um novo jogo, que explora as relações entre as cores e o espaço.

Dentro do conjunto abordado, está também o que Sister chama de “pinturas com ligações” — grupos de duas, três ou quatro telas em que as unidades, feitas de forma independente, são conectadas por uma lâmina de metal pintada ou em sua coloração industrial. É uma produção que Scovino interpreta, em seu ensaio, como parte de um pensamento plástico ligado às linguagens construtivistas, com peças que requerem uma construção modular, mas possuem autonomia. Em sua percepção, as frestas são, muitas vezes, escondidas e é preciso “abrir” a pintura para encontrar “a energia que pulsa”. Enquanto ele enxerga o caráter alegórico das fendas, Laura Vinci recusa essa abordagem e defende que a cavidade, na obra de Sister, pertence ao mundo real e não se refere a nenhuma outra coisa que não ela mesma.

Pontalete 16, 2013. Óleo sobre alumínio entelado e alumínio natural – 8 peças (Divulgação)

Se Rosenberg discorre sobre o fato de que a pintura se tornou palavra e, diante da tela, esperamos sempre pelo texto que a decifre, gerando uma dificuldade crescente de separar a obra dos significados de ordem literária e teórica, o livro de Sister tem como ponto forte justamente aquilo que lhe falta. O espaço reduzido para a análise e a decisão de incluir comentários sem conclusões fechadas colocam o leitor em uma posição de destaque, conferindo autonomia para que chegue às próprias interpretações.

E, por mais que “as imagens substitutas” não forneçam uma noção precisa sobre a escala, a materialidade, o desgate e a cor dos trabalhos originais, o tratamento que elas ganham no livro permite perceber uma série de detalhes, como o diálogo entre as obras no ambiente expositivo, as sombras que o volume dos objetos projeta, o gesto nas pinceladas que se fazem visíveis e as variações tonais, que Sister atinge recorrendo a pigmentos metálicos ou cera de abelha — uma das maneiras encontradas para alcançar a luz e a opacidade.

Verdes Claros Ligados por Cobre, 2023. Óleo sobre 2 telas e placa de cobre (Divulgação)

Apresentar fotografias sequenciais das mesmas obras, vistas de ângulos diferentes, foi uma escolha acertada para que o leitor possa captar detalhes escondidos, como acontece ao vivo: as obras de Sister se revelam de formas variadas quando o espectador se coloca em movimento.

Sofá

Em seus escritos, Paul Klee diz que, assim como leva tempo para o ponto se tornar uma linha e a linha, um plano, é preciso tempo para que o espectador aprecie a arte. Klee cita o fenomenólogo Ludwig Feuerbach e acrescenta que, para compreender um quadro, é necessário ter uma cadeira — as pernas descansam e não interferem no fluxo do pensamento.

Por mais que a publicação de Sérgio Sister coloque o leitor em um papel ativo, a particularidade do livro como objeto que se tem em mãos para folhear em ritmo próprio (no conforto do sofá) é uma oportunidade para captar as nuances que passam despercebidas no museu, onde as telas costumam ser contempladas por poucos segundos.

Quem escreveu esse texto

Nina Rahe

É jornalista e doutora em História, Crítica e Teoria da Arte pela ECA-USP.

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Coleção de imagens”

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