Crônica de Natal,

Sozinha, terminando um livro num ritmo que não costuma ser o meu

A escritora paulistana lembra um Natal atípico cercada de poesia, café e silêncio

19dez2025

meus natais nunca foram do tipo casa cheia. muitos deles passei de pijama, assistindo ao show do Roberto Carlos na tevê. venho de uma família que diminuiu com as mortes dos meus avós e assim nos tornamos apenas a semente da fruta, pai

mãe

 irmã e

       eu.

         além disso, conhecemos os prazeres do Sono, especialmente numa noite iluminada de Natal. dormir

         sem culpa

         enquanto a maioria festeja

é um desvio que nos orgulha, e a Vida, que adora uma desobediência, dá um jeito de nos recompensar com sonhos que borram a lógica do mundo, justamente na noite em que a cidade está mais propícia para ouvir os poucos que dormem, e se for pensar, a Cidade faz o papel de família estendida, é o verdadeiro ouvido dos desejos, uma espécie de Deus urbano, ou como dizem nas lojas, um Papai Noel.

         o que peço nessas noites

         (desde a infância)

         é ser artista. por favor, Cidade, eu quero ser

         artista.

         vocês podem imaginar, portanto, que não foi das maiores quedas

         o Natal de 2024, que passei sozinha.

         as ceias dos outros anos

         me prepararam para estar ali sem autocomplacência.

Mesa de Aline Bei na época do Natal de 2024 (Acervo pessoal)

         o que me aconteceu não foi uma tragédia, mas um prazo para entregar Uma delicada coleção de ausências, que por sinal ainda não tinha esse título, mas eu o buscava, um tanto mística, no chuveiro.

         o que me aconteceu foi que em meados de dezembro, depois de uma reunião com as minhas editoras, soube que teria que entregar o livro impreterivelmente em janeiro.

         preciso ficar

         sozinha, eu disse aos meus compromissos.

         protegida por esse mantra, entrei no espaço de vidro do apartamento onde moro, para reescrever o texto num ritmo que não costuma ser o meu — velocidade, poesia, café, silêncio —, e quando levantei o rosto da folha, com os olhos escurecidos pela angústia de não encontrar

         um sinônimo,

         percebi que a Cidade foi generosa, provou ter ouvidos

         (invisíveis apenas aos que não sabem dormir sem culpa numa noite de Natal).

Quem escreveu esse texto

Aline Bei