Crônica de Natal,

Balões e bolos glaceados, luzinhas piscantes, árvores bregas

O escritor carioca radicado em Porto Alegre descreve alguns Natais típicos em família

19dez2025

Por muito tempo detestei comemorar meus aniversários. Mesmo ainda menino, achava um tanto grotesco e sem sentido aquele cenário feito de balões, bolos glaceados, garfinhos de plásticos e decorações de desenhos animados. Na vida adulta, quando tomei as rédeas do que fazer nessa data e comecei a passá-la longe dos parentes que eu não queria ver por perto, mas em bares e com amigos, comecei a achar uma certa graça. Há os que argumentam que é preciso celebrar a vida. Então sempre recordo de Alice no País das Maravilhas, em que, talvez, o mais importante são os desaniversários, e então podemos celebrar nosso nascimento em qualquer dia.

Com o Natal ocorre algo parecido, momento em que trocamos os balões e bolos glaceados por enfeites brilhosos, luzinhas piscantes, árvores bregas cheias de bolinhas vermelhas, bonequinhos de neve contrastando com a realidade de um país tropical de 40 graus em dezembro. Uma noite feliz, uma TV irritante ligada ininterruptamente na sala, passando um especial chatérrimo de Natal, com músicas pop chatérrimas, e os parentes em silêncio olhando para a tela e fazendo algum comentário vazio. Depois de algumas cervejas começam a se acusar de coisas que quase sempre envolvem dinheiro. Cenas lamentáveis de bebedeiras que só parentes sabem fazer tão bem.

Ano após ano, as ceias natalinas foram se tornando repetitivas e melancólicas para mim, e assim, igual a tantos adultos, travei uma verdadeira luta para conseguir me recusar a passar o Natal na casa dos meus pais, pois não queria ver novamente a mesa farta, com frutas secas, rabanadas, farofa, chester, refrigerante, fios de ovos, panetone, e mais farofa introduzida por algum orifício da ave, pudim de leite, champanhe. Essa mesa farta não era possível em minha infância, o que me deixava mais triste.

Tudo isso em nome do aniversariante Jesus, que talvez não tenha imaginado um aniversário assim, que há mais de dois mil anos é celebrado nas casas e depois, com a modernidade, nos shoppings e camelódromos das cidades. Um aniversário que obriga todas as pessoas a irem para algum lugar nessa noite tão especial, a tal ponto que, se alguém resolver passá-la sozinho, será condenado para todo o sempre a viver só.

Decoração natalina de Jeferson Tenório (Acervo pessoal)

Tornei-me pai aos 33 anos e me vi obrigado a entrar no ciclo e reproduzir com meu filho a estética e o ambiente de aniversários e natais que eu tanto detestava. De repente, fui empurrado para uma loja de decoração, comprando coisas de isopor, papel celofane e velinhas coloridas.

Quando meu primeiro filho completou dez anos, resolveu escrever uma cartinha para o coelhinho da Páscoa. Na verdade, foi um ultimato dizendo o seguinte: “Coelhinho, vou esperar você aparecer até as três horas da tarde, porque você sempre disse que vem deixar os ovinhos aqui, mas eu nunca te vi. Se você não aparecer, não vou mais acreditar que você existe. Assinado: João.” 

Ao ler aquele bilhete, sem que meu filho soubesse, tive orgulho daquele rompante, mas logo em seguida enchi meus olhos d’água porque entendi que ele estava perdendo a inocência. Naquele mesmo dia, encontrei na Folhinha [suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo], por acaso, uma entrevista feita por Gregorio Duvivier com o próprio coelhinho da Páscoa. Era uma conversa tão bem escrita e verdadeira que convenceu João de que o coelho existia. Me comovi com a inocência preservada.

Recentemente me tornei pai mais uma vez. Tenho um bebê de quase um ano. Eu e minha companheira, Taiane, montamos uma árvore com todos aqueles apetrechos chamativos. Então, quando ligamos as luzes, vi no rosto de meu filho um olhar de espanto e alegria de quem vê as coisas pela primeira vez. Fui vencido pela pieguice e admiti que o Natal não é tão ruim assim. E que, para continuar a ver aquele sorriso, teria de passar por cima do meu mau humor natalino, porque no fim das contas não é exatamente o Natal que me importa, mas resgatar um pouco de minha própria ingenuidade nos olhos dos meus filhos.

Quem escreveu esse texto

Jeferson Tenório

É autor de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020).