Crônica de Natal,

Um Carnaval medieval

O escritor e editor pernambucano lembra um típico Natal em família

19dez2025

Tem o novo disco do Rei. Ainda que ele não grave mais tanto. Toca na vitrola “Lady Laura”. Meu amigo de fé. Das horas incertas o mais certo. Aquele ininterrupto inferno santo. Tem rum. Mesmo que a bebida seja quente para um passado escaldante. Minha mãe gostava de beber Campari. Porque tem uma cor bonita e é bebida doce. Vôte! 

Tem sempiternamente a visita da tia amarga. Porque o ano foi péssimo. Diz que está mole e aposentada e não comprou nada de roupa nova para os netinhos. Dezenas de crianças tontas pela casa da minha infância escalando o sofá feinho.

Tem maldade e tristeza. Eu querendo dar um sumiço no Papai Noel. Por isso que ele nunca vem no pedaço. Ele adivinha os meus planos maus. Eu, de fato, nunca quis ser um bom menino, ir pro céu o escambau. 

Tem maionese. Frango desfiado. Manjedoura e manjar. Coca-Cola de dois litros. Alguém que chora escondido. Meu irmão que se embebeda arrependido. Sadia é o peru, não a família. Tem a Missa do Galo. O papa fica melhor de bico calado. 

O Natal é tipo um Carnaval medieval. O bom velhinho fantasiado. Barba postiça, gorro de assassino americano. As máscaras adultas pesadas de sonho. Pobrezinho de mim! Todo ano é assim. Do nada me vem a mesma história contada. Essas lembranças, que tocam sino em meu juízo, endiabradas. 

Noite feliz quando acaba.

Quem escreveu esse texto

Marcelino Freire

Escritor, é autor de Contos negreiros (Record).