Literatura brasileira, Os Melhores Livros de 2025,
Vida seca
Marilene Felinto traça, mais uma vez, linhas incendiárias de um acerto de contas com o passado escravocrata do Brasil
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100A protagonista de Corsária proíbe que a chamem pelo nome. “Sem nome, isolada e vítima. Seu Ninguém! (Proibido pronunciar meu nome de vítima!)” Se isto fosse uma história…, como escreve tantas vezes Marilene Felinto neste romance que se lê de um fôlego só. Mas não é. “É apenas a terrível realidade”, nas secas palavras da autora.
Narrado em primeira pessoa, o romance tem na voz da protagonista o seu maior trunfo. Ela busca fazer “uma investigação a meu modo, eu que sou semiárida, beligerante e corsária”. Os três adjetivos vão acompanhá-la ao longo da narrativa:
“Corsária” por causa de fatos verídicos ocorridos no mar, que meu pai sempre nos contou e que, em última instância, no fundo da minha inconsciência, influenciaram minha vida e esta decisão de estar aqui hoje, neste fim de mundo chamado Três Estradas. “Semiárida” porque somos originários da dureza deste alto sertão e porque, assim, portanto, me criaram, realista e estoica. “Beligerante”, sim, como cachalote ferida e, por isso mesmo, feroz — minha mente, minha cachola de baleia, é cheia de tanta coisa que teria a mesma grandeza desconforme da cabeça das cachalotes, elas que também têm dentes como eu.
A missão é obter uma indenização para sua mãe e seu pai, vítimas de um “crime de biografia”, como ela chama o roubo do sobrenome europeu a que eles tinham direito. Sua mãe, menina negra adotada por um pastor holandês de sobrenome Lichthart. Seu pai, filho de uma senhora Van Waerdenburch com um trabalhador negro da fazenda no interior de Pernambuco.
A protagonista sem nome busca “a verdade dos fatos, especialmente daqueles ocultados de nós, custe o que custar”. Sua indignação com o tratamento dispensado à mãe — criada “como se fosse da família”, mas na verdade mantida na perversidade de uma relação análoga à escravidão — e ao pai — nunca reconhecido como filho legítimo de uma integrante da elite local — é um motor que a levará sempre adiante.
A protagonista sem nome busca ‘a verdade dos fatos, especialmente daqueles ocultados de nós’
Isso significa enfrentar não apenas os descendentes das duas abastadas famílias, mas também os próprios pais, que não desejam revisitar um passado de humilhação e sofrimento.
Mais Lidas
Ao falar do pai e recordar uma existência prensada “entre a dívida e a fome”, atravessando “a vida intermitente como os rios do semiárido, uma hora com, outra sem, na secura, no chão duro do país hostil”, Felinto evoca um Cristiano que rima com o Fabiano de Vidas secas. A prosa árida de uma protagonista agreste também lembra Paulo Honório, protagonista de São Bernardo, deGraciliano Ramos. Mas Corsária também se lê como uma espécie de duplo do seu primeiro romance, As mulheres de Tijucopapo, publicado originalmente em 1982 e reeditado em 2021 pela Ubu.
Já naquele livro pioneiro, vencedor do Jabuti na categoria Literatura Adulta (Autor Revelação), a autora narrava, por meio da jornada de uma mulher negra e nordestina, uma existência atravessada pelo passado escravocrata do Brasil. Rísia, a protagonista nomeada naquele romance, abandonava São Paulo e voltava a Pernambuco, desta vez rumo a Tijucopapo, localidade inspirada na mítica Tejucopapo, que no século 17 foi palco de um levante feminista contra os colonizadores europeus.
Enquanto o traumático ano de 1964 funciona como um marco temporal importante do primeiro romance, época do golpe civil-militar que destroçou qualquer possibilidade de inclusão social e também de um episódio familiar marcante para Rísia, em Corsária esse marco se desloca ainda mais para o passado. Trata-se de 1935, quando o governo de Getúlio Vargas esmaga a Intentona Comunista. Diz a protagonista:
No ano mesmo em que você nasceu, 1935, mamãe, houve uma grande revolta, uma intentona, uma coluna enorme de gente marchando país afora pedindo justiça pela condição de penúria em que vocês cresceram, nas funduras daquele sertão, e em que vocês viveriam ainda por muito tempo, espremidos entre a dívida e a fome.
Intentona particular
Sem obter respostas do pai ou da mãe, que ignoram a batalha da filha contra o passado, resta à narradora se debater com o leitor.
Não sei se ela me entendeu, nem o que achou das bases do meu socialismo utópico, desse meu manifesto individual, solitário e ridículo para alguns. Que me chamem de subversiva, controvertida, pouco me importa. Ora, dane-se este mundo a quem não devo nada, danem-se os outros, que eles é que me devem.
Ela chama sua busca de “minha intentona particular”. E é na originalidade de uma voz que se assume particular e incendiária que Felinto constrói um romance singular em meio às várias tentativas registradas na literatura brasileira contemporânea de projetar indivíduos e temáticas até pouco tempo atrás marginalizados no cânone.
Do particular ao universal, a empreitada da beligerante corsária ecoa a história de um país:
Estou buscando também em arquivos e literatura de época algum parente ou aparentado meu que porventura tenha lutado nas revoluções do século retrasado. Seria um bisavô? Em qual intentona? Em que século passado? Sim, ora, porque houve revoluções! Houve insurgências populares em toda a miserável década de 1930. E antes, em décadas anteriores, não houve também convulsões sociais, cangaço, justiçamento? Revoluções malogradas, é verdade. Mas quem, da minha parte, do meu antigo sangue, se revoltou, se rebelou como eu? Quem?
Vingança
No prefácio à primeira edição de As mulheres de Tijucopapo, a filósofa Marilena Chaui anotava que a luta de Rísia era “conquistar o direito à palavra e à vida”. De certa forma, esta continua sendo a luta de Lena — da qual conhecemos, veja só, o apelido, mas não o nome. Mas ela não está interessada em um memorialismo a que chama de tristonho e insistente. Não pretende escrever
uma ficção que reinventasse do nada a vida de minha mãe, que criasse e lavrasse registros e certidões hoje inalcançáveis, e que providenciasse para ela o que seria seu de direito, um novíssimo testamento que corrigisse a defeituosa crônica de nossa vida, a genealogia da nossa deformação.
A narradora pretende, isto sim, falar o que não se quer ouvir, “uma bricolagem infernal”, a vingança da corsária “como os bichos que assaltam, valendo-se do elemento surpresa de uma dor que lhes infligiram mas que não os matou de fato”. Nesse caldo profundamente humano em que se misturam sentimentos de amor e ódio, afeto e bílis, a protagonista de Corsária atravessará uma jornada de custos pessoais ainda maiores do que aqueles pagos por Rísia em As mulheres de Tijucopapo. Mas sua batalha por justiça, sua vingança corsária, não se encerra na última página.
A “herdeira incerta e não sabida” do início do romance se converte em “herdeira certa”.
Todos agora sabem de mim, de meu pai e de minha mãe. E àqueles que pediram minha cabeça […], aos réus destes crimes sórdidos, a quem acuso com todas as provas levantadas, a eles a minha vingança, ainda que sem método, ainda que a torto e a direito. A eles, as barras do meu tribunal.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Vida seca”
Porque você leu Literatura brasileira | Os Melhores Livros de 2025
Demasiado humana
Em A parede, a austríaca Marlen Haushofer oferece uma alternativa feminista e ecológica para a distopia
DEZEMBRO, 2025
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
