Literatura, Os Melhores Livros de 2025,
Demasiado humana
Em A parede, a austríaca Marlen Haushofer oferece uma alternativa feminista e ecológica para a distopia
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Uma mulher de quarenta anos, viúva e mãe de dois filhos, viaja de férias com a prima Luise para os Alpes austríacos. O marido de Luise, Hugo, tem uma cabana nas montanhas, no limite do bosque. Na primeira noite, o casal resolve descer ao vilarejo para jantar, deixando-a sozinha. Ela prepara um risoto e come acompanhada de Lince, o amigável cão de caça. Na manhã seguinte, acorda com o silêncio. Hugo e Luise não retornaram. Com o dia iluminado pelo sol suave da primavera alpina, resolve então averiguar o que se passou. Lince dispara na frente e, de repente, no meio da trilha para o vilarejo, cai, contorcendo-se de dor — focinho sangrando como se houvesse batido violentamente em algo invisível. No minuto seguinte, ela se choca com o nada. Batendo com o punho, sente “como um vidro de janela”. Caminha por sua extensão para localizar onde termina a barreira, que simplesmente não termina. Entre ela e o mundo, ergueu-se “a parede”.
Publicado originalmente em 1963, A parede, da austríaca Marlen Haushofer, ganhou neste ano novas edições em vários países. A atualidade da obra é brutal. Trata-se de um romance distópico e essencialmente feminista, escrito numa dramática esquina da humanidade. Foi concebido durante a construção do Muro de Berlim, pico da Guerra Fria e das ameaças nucleares assombrando o mundo com a perspectiva de aniquilamento. A Guerra do Vietnã, a mais rock’n’roll das guerras, indignava a juventude, e os protestos pela paz, mobilizando milhões ao redor do planeta, representavam o espírito de contestação do absurdo. Com a humanidade novamente à beira do abismo, entre guerras cruéis e ameaças climáticas, o romance de Haushofer ressoa como rota de fuga. A autora construiu um “clássico cult do isolamento extremo”, como bem definiu a revista The New Yorker.
O relato é seco, quase objetivo, e nos conduz suavemente pela experiência filosófica de apenas existir. Ao longo da narrativa, a mulher da cabana — ela não diz o próprio nome — se liberta física e psicologicamente da vida contemporânea, deixando para trás tudo que um dia a definiu: a viúva, a mãe, a mulher madura. Os dias são consumidos por tarefas de sobrevivência, como estocar lenha, ordenhar a vaca, empilhar o feno, caçar ou plantar e colher batatas e feijão. De companhia, além de Lince, uma gata e uma vaca, que ela chama de Bella. Com os animais, forma uma família harmônica e amorosa. Na narrativa de Haushofer, o isolamento não funciona como retiro. O exílio não se encerra quando a protagonista emerge do outro lado, pronta para seguir em frente. O isolamento assume a condição de fim.
A mulher da cabana começa a escrever o relato para espantar o medo do crepúsculo — e para afugentar o medo do dia em que se transformará num bicho da montanha. Ninguém lerá as páginas, ela acredita, pois não há mais ninguém no mundo. Ao inspecionar a parede, pôde ver os mortos do outro lado, como se tivessem sido congelados em estranhas posições. “Hoje, dia cinco de novembro, começo o meu relato”, anota: “Deixarei tudo registrado com a maior precisão possível. Mas nem sei se hoje é mesmo o dia cinco de novembro”. Curiosamente, antes da parede, ela havia contemplado o suicídio. Agora não existe mais o desespero, somente os obstáculos da adaptação. Até o corpo vai se adequando com o passar das páginas. Os cabelos cacheados, bem cortados e bem cuidados, e os quadris arredondados dão lugar a uma figura magra, de longos cabelos, fisicamente forte: “Eu podia simplesmente esquecer que era uma mulher”.
Com a humanidade entre guerras e ameaças climáticas, o romance ressoa como rota de fuga
A perspectiva feminista de Haushofer encontra-se justamente aí, na escolha — ou escolhas — mesmo que errada. Antes da parede, a mulher da cabana não tivera a chance de se “moldar conscientemente”. Era uma “mulher atormentada e sobrecarregada”, de “inteligência mediana”. A construção da família tinha sido consequência da ordem estabelecida. Conforme foi treinada, na família estaria a realização. Em vez disso, ficou viúva jovem, com dois filhos, que se tornaram “dois semiadultos bastante desagradáveis”. No alto da montanha, pela primeira vez, via-se livre da “performance de gênero”. Inicialmente, mantinha antigos hábitos, como pentear o cabelo ou dar corda no relógio. Logo, entretanto, percebe a imbecilidade de tudo. “Às vezes fico impressionada com o quanto antes era importante não me atrasar cinco minutos.”
Cacofonia
A parede é também uma narrativa ecológica. Em certo sentido, faz lembrar outro título ecológico visceralmente feminista: Sobre os ossos dos mortos, da polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura de 2018. A relação da mulher da cabana com os animais molda sua maneira de pensar e existir no mundo. Ao mesmo tempo, torna-se “dona e prisioneira” deles, “a chefe de nossa curiosa família”. Para alimentar todos, caça — coisa que lhe fere a alma, pois odeia matar bichos — e ordenha Bella, que está prenha. Por sua vez, para produzir o leite, Bella tem que comer, o que faz a mulher gastar dias ceifando e colhendo feno. É preciso armazenar grande quantidade para atravessar o inverno. No pouco tempo que lhe resta, contempla o vale: “Eu desejava poder sentar ali para sempre, no calor, na luz; o cachorro a meus pés e o pássaro girando acima”.
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