Dining Room, 1913, de Pere Torné Esquius. Óleo sobre tela (Reprodução)

Onde Queremos Viver,

No elevador

A cada manhã, a vida afastava os irmãos: a despedida era uma comédia diária

21out2025 | Edição #99

No apartamento da frente viviam dois rapazitos, duas criaturinhas sérias. Ruços, sardentos e enfezados, um mais pequeno, em tamanho e idade, e mais reservado que o outro, para não dizer antipático. Poderiam ser órfãos dickensianos: acreditar-me-iam se vos dissesse que o mais velho tomava conta do mais novo vendendo jornais na Quinta Avenida. Mas não viviam sozinhos. Tinham pai, mãe e um border collie.

O pai era um escocês de baixa estatura cujo animal correspondente seria um hamster de camisa e calções de futebol, e com quem nos cruzávamos no elevador. Um hamster grisalho e afável que trocava connosco cortesias meteorológicas. À mãe — uma ruiva mal-encarada, inchada, azeda, de olheiras e cabelo deslavado — só a víamos a deitar fora o lixo. Não significa que o seu animal correspondente seria o racoon, apenas que tinha a sociabilidade equivalente, decerto por ter a seu cargo três pequenos escoceses e um border collie. Talvez fosse muda — até que se fez ouvir no corredor, certa noite, ao sair para passear o cão. Tão inesperado foi que fizemos silêncio. Compreendemos, com sincera surpresa, que não era escocesa de sotaque. O cão é que parecia não ter muitos anos pela frente e viria a ser, para os rapazes, a primeira grande tristeza das suas pequenas vidas.

Poderiam ser órfãos dickensianos, mas não viviam sozinhos: tinham pai, mãe e um cão

O irmão mais velho apresentou-se a nós numa das primeiras viagens de elevador como um crescido. Ao longo de treze andares, contou-nos tudo a seu respeito com extrema seriedade e polidez. Enquanto o pai lhe dizia para não expor aos estranhos todos os factos da sua vida, o caçula pôs cara séria e, quando nos metemos com ele, virou o rosto. O collie fixava as botas dos vizinhos, de cabeça inclinada, com uma nostalgia que não sabia explicar. Lembrava um David Bowie castrado.

Mais tarde, adormeciam uns por cima dos outros no sofá, de barrigas à mostra e com brinquedos espalhados pelo chão da sala. Às tantas, carregavam-se uns aos outros pelo cachaço até à cama, não se sabe bem como. E o cão enrolava-se nas pernas do pequeno, que se enrolava nos sonhos do irmão. A cada manhã, a vida afastava­-os. A despedida era uma comédia diária. O mais novo ficava em casa. Mal se fechava a porta, o vínculo inefável que os ligava durante o sono esticava-se como uma corda elástica. O mais velho arrastava-se na direcção do elevador e sussurrava: “bye…”; o outro, colado à porta, respondia: “bye…”; e assim sucessivamente, enquanto um esperava pelo elevador e o outro pela réplica, e o volume ia subindo: “byyye!”, “BYYYYYE!” — e os sussurros transformavam-se em exclamações e as exclamações, em guinchos, cada vez mais roucos e absurdos: uma competição entre duas cornetas escocesas e um cão que gania, enfurecendo a vizinhança. Eu, de pijama, sorria. O elevador chegava e a despedida continuava entre risinhos.

Pode ser que, ao longo do dia, onde estivessem, bocejasse num dos garotos a memória da voz fraterna. Agora que se passaram anos, tudo porém se esqueceu. “Adeus” já não quer dizer “estou aqui”. Recordação alegre que me visita sem querer; tropeço nela num caderno antigo. Parece que me lembra alguma coisa; escrevo sobre isso. E, à medida que uma frase se afasta da outra, uma vai chamando pela outra, como irmãos que se adoravam e que só se telefonam no Natal.

Quem escreveu esse texto

Humberto Brito

É escritor, ensaísta e fotógrafo

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “No elevador”

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