Dining Room, 1913, de Pere Torné Esquius. Óleo sobre tela (Reprodução)

Onde Queremos Viver,

As últimas fotografias

A circunstância de ter sido esvaziada permitiu-nos ver a casa como apenas meus avós a viram

21out2025 | Edição #99

Fotografei a casa dos meus avós meses depois de terem morrido, semanas antes de ela ser vendida. Era uma casa que não estava destinada a ser vista vazia. Apenas tinha estado assim cerca de 35 anos antes, quando a compraram e a mobilaram.

Senti-me diante de uma pessoa despida, caminhando por ela sem o seu consentimento. As salas revelaram­-se não como as conhecia, porém mais amplas, mentirosas. Ouvi o eco da minha voz no quarto que havia sido meu, quando não era suposto ter ouvido nada.

As fotografias são fiéis ao que vi e, no entanto, são uma falsificação. Mostram o móvel da sala ainda por desmontar — única peça restante —, caixilhos de alumínio negro em janelas de correr. A varanda, de onde ninguém tirou os mesmos vasos de há duas décadas, à altura em que a minha avó se passou a enganar nos nossos nomes quando connosco conversava: Lucinda, não, desculpa, Lucília, não, desculpa, ai, sim, Djaimilia.

As imagens respeitam a luz da cozinha, coada por uma varanda pintada de um salmão acastanhado, enlameado, sujo pelo tempo. Os móveis da cozinha — de pinho nunca envernizado de novo —, a caixa negra da despensa refractando a luz que vem do hall onde, sentados a uma pequena mesa, se faziam as chamadas telefónicas no grande telefone fixo negro conferindo os números numa agenda preenchida à mão pela minha avó e por ela corrigida. O corredor dos quartos abrindo-se para misteriosas portas entreabertas nos quais a alcatifa de 1985 deu lugar a um soalho flutuante — adjectivo indicado para o que sinto ao escrever estas palavras.

Apesar de fiéis, as imagens são mentirosas e não merecem senão ser rasuradas e corrompidas — como Robert Frank rasurou os negativos em The Lines of My Hand (1972), a sua autobiografia fotográfica, tatuando neles, numa caligrafia que sangra, estar farto de despedidas.

As imagens mostram os seus sonhos, vistos do passado e depois mastigados pelo futuro

Elas demonstram, na minha vida, a total falência das imagens e, por conseguinte, da memória e do seu enredo. Nada dizem do que foi vivido na casa dos meus avós, nem do que a casa ainda comportava no limbo em que a visitei nesse dia, já sem mobília, sem gente. Inclementes, excluem-me sem misericórdia desse lugar que talvez nunca tenha existido, o lugar de uma longa reforma, das doenças e das alegrias fugazes da velhice.

A casa vazia foi, contudo, a casa que encantou os meus avós quando a compraram. Tê-la-ão achado espaçosa, auspiciosa. Terão feito planos sobre como a haveriam de mobilar, como haveriam de ser felizes nela. A circunstância de, no fim, ter sido esvaziada permitiu-nos vê-la como apenas eles a viram e partilhar um pouco dessa visão do que era, então, o futuro.

As fotografias mostram os seus sonhos — vistos do passado e depois mastigados pelo futuro —, as curvas, os declives, as depressões, os revezes, os vapores de eucalipto que escureceram as paredes, e nos envelheceram e mataram aquele tempo. As quatro assoalhadas onde passariam o resto da vida, quando a morte era ainda uma miragem. Visto agora, no momento em que a elas regresso, o futuro apenas se deixa ver quando fomos derrotados — e talvez seja sempre assim. Talvez paguemos sempre a nossa ousadia e a nossa presciência com a derrota.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa, publicou Esse cabelo, A visão das plantas e O que é ser uma escritora negra hoje (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “As últimas fotografias”

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