O autor haitiano Jean D’Amérique (Edouard Caupeil/Divulgação)

Poesia,

Uma terceira língua interrompida

Jean D’Amérique ergue, das ruínas haitianas, uma gramática rítmica e inventiva, mas sem escapar totalmente do panfletarismo

01nov2025 | Edição #99

No Haiti, segundo Dany Laferrière, o escritor mais célebre do país, a vida deve ser justificada publicando ao menos um livro de poemas. A frase, pronunciada em seu discurso de posse na Academia Francesa, em 2015, ecoa como uma verdade ancestral que o poeta Jean D’Amérique, de 31 anos, leva a sério — e tenta radicalizar.

O jovem haitiano chega ao Brasil com três livros: um romance (o premiado Sol descosturado, de 2021); uma seleção de duas peças de teatro (A catedral dos porcos, de 2020, e Ópera Poeira, de 2022); e uma reunião de dois poemas longos (o bem recebido Rapsódia vermelha, de 2021, e sua criação mais recente, Algum país em meu prantos, de 2023). Em comum, todos são marcados pela oralidade poética: poderiam muito bem ser recitados no palco ou ditados ao redor de uma fogueira.

A decisão de privilegiar versos que podem ser cantados não é casual. No país caribenho, onde o analfabetismo em 2011 atingia mais de 50% da população, muitos dos saberes e das histórias da cultura do país são transmitidos por voz. D’Amérique faz jus à tradição. Seus eus líricos são donos de um conhecimento que ultrapassa a ideia ocidental de racionalidade. O mundo para eles, sugere o autor, foi cindido pela ideia de progresso. Resta-lhes recriar, na forma de poemas, o terreno onde pisam.

Destroços

Em Algum país em meus prantos, fragmentos narram uma tragédia íntima que brota da crise humanitária no Haiti nos anos 2000. O protagonista é um menino que se descobre poeta em uma terra devastada. Seu destino parece traçado desde o nascimento, quando os vizinhos lamentam sua chegada com o coro de “mais uma boca”. Mas o menino sobrevive à miséria. Vaga pela ilha e canta as mazelas que testemunha: a “carniça que baila”, as “moscas palatáveis”, o “arsenal de ossos” e também, no seu avesso, as tripas, as entranhas e o “sangue brotando espesso à flor das têmporas”.

Sem o corpo devidamente formado, o menino se expressa por meio de pequenos blocos de texto isolados, sem pontos-finais, que refletem na forma o que é anunciado no conteúdo: um terreno destroçado, instável, sem respiro ou definição.

O resultado é um texto inventivo e de pouca mobilidade. O truncamento, porém, não é falha, é projeto deliberado: D’Amérique persegue uma linguagem construída entre o crioulo haitiano (kreyòl ayisyen) e o francês. Busca uma terceira língua que dê conta do indizível. Constrói um léxico que as línguas estabelecidas não conseguem apreender.

Entre o crioulo e o francês, D’Amérique busca um terceiro idioma que dê conta do indizível

O poeta escreve na língua dos colonizadores, mas a retorce: inclui neologismos, recombina sentidos, cria hibridismos. O recurso se evidencia nas palavras hifenizadas, como “azul-vazio”, “horas-cadáveres”, “garrafa-túmulo”, junções que soam como soldas forçadas, como se houvesse, na soma de termos incongruentes, um valor negativo. O efeito é o de uma língua vacilante, estilhaçada, em que os verbos parecem ausentes ou deslocados. 

Uma escrita imigrante, mas que nunca se assenta — ou, como o próprio autor insinua em A catedral dos porcos, uma escrita entrecortada, balbuciante: “nunca saberia nomear tudo/ meu canto sai dos trilhos/ minha estrela gagueja”.

Os tradutores Henrique Provinzano — que já havia vertido para o português uma ótima e inédita seleção de poetas haitianos contemporâneos pela editora Demônio Negro — e Thiago Mattos não procuram domesticar os textos, mas manter sua estranheza e opacidade. Emulam também, de forma admirável, o ritmo dos versos poéticos do autor, seu principal eixo de criação. (D’Amérique é também compositor de discos que dialogam com o rap e o trap.)

Em Algum país em meus prantos, a cadência é de tom elevado e monocórdico. O poeta dramatiza o buraco social com alegorias de teor benjaminiano, de luto e escombros, com uma embocadura teatral que, muitas vezes, leva ao limite a dramaticidade do texto. Há pouca modulação na voz poética. O discurso, sempre trágico e político, soa como uma lamúria altiva e exausta. Passa longe de um canto natural, o que evidencia a escrita do haitiano como um artifício. Sua oratória falseada sugere que certas experiências traumáticas resistem à expressão direta — exigem, antes, uma linguagem que se confesse inadequada para dar conta do que pretende comunicar.

A complicação é que a incomunicabilidade e o efeito nauseante da paisagem haitiana, de tão repetidos com a mesma voz, acabam perdendo força. Há, no saldo, uma dessensibilização que, intencionalmente ou não, retém a pungência dos versos. O que sobra, muitas vezes, é mero comentário social. 

Terreno raso

Embora tenha sido originalmente publicado dois anos antes, o segundo livro de poemas contido no volume, Rapsódia vermelha, serve como contraponto à asfixia do primeiro. Conta a formação de uma menina por meio de duas vozes: a primeira, sóbria e externa, serve como uma rubrica, uma marcação teatral que acompanha os atos da jovem; já a outra emerge do próprio diálogo interno da personagem. 

Dessa segunda voz, surgem os trechos da obra que se abrem à beleza. O eu lírico ganha em complexidade: em vez de uma postura intransigente e mortificada, a poeta canta a esperança e a liberdade, mas também desconfia das ideias de harmonia e pátria. É uma poesia que não se limita a diagnosticar a violência colonial, mas que tenta imaginar formas de transcendê-la, como se pode ler nos versos “montada em minha juventude/ cavalgo desembestada/ rumo ao imenso”. 

O texto, no entanto, se empobrece do meio para o fim quando a rapsódia se assume como “cereja de julho ou comunista”, numa fusão entre erotismo e comentário social que pode soar mais como slogan do que como literatura ou crítica efetiva. 

O efeito nauseante da paisagem haitiana, de tão repetido com a mesma voz, acaba perdendo força

D’Amérique constrói uma linguagem que celebra o prazer como ato político — “liberdade me rodeia/ fabrico joias/ que me penetram” —, mas a retórica da libertação sexual como revolução carrega um romantismo superficial que o próprio autor parece abraçar sem ironia. Falta uma tensão que seja mais desconfiada de termos desgastados, como “resistência” , “travessia”, “rizoma”, “não-fêmea”, “o terceiro mundo de mim-mesma”.

Em alguns trechos, a terceira língua acaba se esvaziando ao ser contaminada por expressões acadêmicas da moda cujos significantes não deixam espaço para ambiguidades e reinterpretações. A chave de leitura é dada de bandeja ao leitor, sem abertura ao mistério. Por que não inventar uma universidade própria?

O maniqueísmo da literatura contemporânea tem servido como uma arte da vingança que até pode render bons livros quando o autor duvida do que e sobretudo de como diz. O problema é quando o escritor parece estetizar um discurso pasteurizado de correções. D’Amérique não chega a ir de todo para esse lado, mas com frequência molha os pés nesse terreno raso. 

Seria bom para o jovem poeta que não levasse tão a sério uma literatura de certezas, afinal todo ser humano, do beato ao ditador, acredita estar do lado certo da História. A radicalização poética talvez esteja nas dúvidas.

Especial Atlântico Negro Francófono

Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Pavarin

Mestre em literatura brasileira pela USP e jornalista, é autor de O maquinário fantasma (Urutau).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Uma terceira língua interrompida”