Literatura infantojuvenil,
A música como ponte
Ao som de um violino tocado por uma garota com dons sobrenaturais, Jon Fosse traduz seu universo literário onírico para o público jovem
01out2025 • Atualizado em: 30set2025 | Edição #98A Companhia das Letrinhas traz ao Brasil o primeiro livro infantil de Jon Fosse traduzido para o português. A pequena violinista, do Nobel de Literatura de 2023, revela a mesma sensibilidade poética que marca a produção do escritor norueguês, agora direcionada ao público jovem. Originalmente publicada em 2009, a narrativa conta com ilustrações e colagens de Øyvind Torseter e tradução de Guilherme da Silva Braga, oferecendo aos leitores a oportunidade de conhecer uma faceta menos explorada do autor.
Reconhecido mundialmente por sua prosa minimalista, que tenta dar voz ao inefável e transcendente da existência humana, Jon Fosse dedicou parte de sua produção à literatura infantojuvenil. Escreveu uma dezena de livros para jovens, concentrando essa produção entre as décadas de 80 e 2000. A pequena violinista é a sua mais recente criação nesse campo, explorando temas centrais que permeiam sua sensibilidade: a música como linguagem universal, a infância como território de descobertas profundas e a melancolia como tonalidade emocional das experiências humanas mais genuínas.
A protagonista possui um dom sobrenatural peculiar: consegue enxergar pessoas e lugares através de sua mão. Quando descobre que seu pai está perdido numa ilha após um naufrágio, parte numa jornada solitária para resgatá-lo, acompanhada somente por seu instrumento e sua clarividência. O violino transcende a função de instrumento musical, tornando-se companheiro inseparável e aliado mágico durante a travessia repleta de desafios. É através da música que se torna possível enfrentar pântanos, precipícios, montanhas e águas revoltas — tudo muda ao som das primeiras notas.
As habilidades da menina conectam-se aos intercâmbios entre vivos e mortos na obra do autor
A solidão infantil permeia a narrativa, manifestando-se na ausência paterna e na jornada solitária pelos obstáculos naturais. A música não é só um refúgio, mas um fio condutor, uma força transformadora, que ecoa a trajetória artística de Fosse. O autor começou seu percurso nas artes com a música: “Comecei a escrever no início da adolescência, e naquela época eu tocava muito violão, tanto guitarra elétrica — numa banda — quanto violão clássico”, disse em entrevista ao Booker Prize. “Mas de repente parei de tocar e comecei a escrever, e ao escrever de alguma forma tentava recriar o clima ou a atmosfera criada ao tocar música.”
O violino surge como elemento central também em outras obras de Fosse. Na Trilogia, traduzida por Guilherme da Silva Braga e publicada em 2024 pela Companhia das Letras, Asle é uma violinista que perpetua uma tradição familiar, já que pai e avô também foram violinistas. Essa recorrência revela que a música funciona como linguagem universal na poética fosseana, além de estabelecer um diálogo mais amplo em sua obra, como por exemplo em Manhã e noite, romance adaptado à ópera e recém-publicado pela editora Zain em tradução de Leonardo Pinto Silva.
Transcendência
A jornada da garota de A pequena violinista para resgatar o pai espelha as travessias existenciais características do universo literário de Fosse. Seus personagens habitualmente ocupam
espaços liminares — entre vida e morte, palavra e silêncio, conexão e isolamento. As habilidades clarividentes da menina conectam-se aos frequentes intercâmbios entre vivos e mortos em toda a obra do autor, explorando a relação entre o material e o espiritual, sugerindo formas de transcendência além das realidades mundanas.
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O cenário insular remete à terra natal de Fosse, Vestlandet, topografia recorrente em sua escrita, assim como o motivo da personagem que observa o mar. A narrativa mantém o traço rítmico inconfundível do autor, com repetições que conduzem o leitor a um estado de vigília onírica, marca registrada de sua escrita.
A pequena violinista extrapola as convenções do que é literatura infantil, oferecendo-se como narrativa universal para crianças e adultos. Reconhecem-se os mesmos temas encontrados no teatro e na ficção adulta do autor, numa tradução de linguagem que explora suas obsessões centrais e amplia o campo de leitores. O livro confirma a capacidade ímpar de Fosse em tocar questões universais com simplicidade e profundidade poética.
Um leitmotiv atravessa toda a produção de Jon Fosse — desde os primeiros romances até a Heptalogia premiada com o Nobel, cuja tradução brasileira de Leonardo Pinto Silva chega neste ano pela editora Fósforo. A pequena violinista ressoa a mesma frequência, confirmando que as grandes questões humanas encontram eco em corações de diferentes idades.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “A música como ponte”
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