Literatura,
As mentiras que você contou para mim
Em romance autobiográfico, Domenico Starnone faz seu acerto de contas mais íntimo com as lembranças de infância e o pai mitômano
05dez2025Publicado originalmente no ano 2000, na Itália, Via Gemito é o sexto livro de Domenico Starnone a chegar ao Brasil — e um marco na carreira do escritor. Vencedor dos prêmios Strega, Campiello e Napoli, o romance entrelaça memória e autoficção e contém outros núcleos narrativos que serão explorados em obras posteriores do autor, como Laços e Línguas, lançadas no Brasil em 2017 e 2024, ambas pela Todavia com tradução de Maurício Santana Dias.
Em Via Gemito, publicado poucos anos depois da morte de seu pai, Starnone encara seu acerto de contas mais íntimo. A partir de lembranças do final da Segunda Guerra Mundial até o pós-guerra, tenta escrever e inscrever um pai fabuloso: personagem e pessoa cuja vida é marcada pela alternância entre o fabular e a violência, entre frustrações e sonhos. Descortina-se aí uma narrativa dupla que inclui um esforço metanarrativo — por um lado, observamos o narrador dizer das suas limitações e frustrações ao narrar a história do pai, e, por outro, temos um relato invadido pela voz daquele pai.
A memória em si é objeto da indagação de Starnone, com todas suas imperfeições, traições e vacilos. A partir de três episódios que dividem em três partes o romance (o pavão, o menino que despeja água e a dançarina), narram-se uma vida e as personagens que nela orbitam partindo de episódios-chave, que funcionam como elaborações sobre momentos proustianos, revelações súbitas que organizam o todo.
Reconstrução
Embora Via Gemito se constitua como tentativa de reconstrução biográfica do pai do autor, atravessando suas memórias de infância ao reconstruir quem foi Federico, ou Federì, é fundamental ressaltar o quanto também é narrada a história de uma personagem silenciada, Rosa, ou Rusiné (a mãe do autor, esposa de Federì), a quem o romance é dedicado. A reconstrução da vida do pai e a intrusão de sua voz nos relatos se dão porque “dele me lembro tudo […] ele me encheu a cabeça com suas palavras, seus pensamentos”, e aí está o paradoxo.
Mesmo reconhecendo que deve ter recebido muitas palavras e gestos maternos, o narrador admite: “de minha mãe não guardo uma única palavra, nenhum pensamento”. E confessa que o pai, “com sua habitual energia, lhe impôs um andamento que apagou sua entoação”. Assim também vamos entrando na história de Rusiné, a mãe silenciada e falecida precocemente.
Federì é um ferroviário napolitano com a certeza inabalável de possuir um destino grandioso como pintor, mas a família numerosa, a pobreza e as frustrações o transformam num furacão de violência verbal e física.
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O filho Mimì (nome da personagem que ressurgirá anos mais tarde em Línguas), narrador deste romance, cresceu na via Gemito, próximo ao bairro do Vomero, numa casa que cheirava a tinta e a terebintina, onde os quadros eram deslocados da cama ao chão todas as noites. Décadas mais tarde, já escritor, tenta reconstruir pela palavra esse pai que “acreditava que suas palavras eram capazes de refazer os fatos segundo desejos ou remorsos” e que romanceava continuamente a própria existência.
Na Nápoles operária do pós-guerra, uma tensão borra os limites entre ressentimento e amor
Entre a Nápoles operária do pós-guerra e a impossibilidade de separar memória e ficção, pai e filho se enfrentam, se espelham e se separam através da arte: o pintor fracassado diante do escritor que o transforma em personagem, numa tensão que borra os limites entre ressentimento e amor, entre retratar e trair. Tanto na Itália (com edição da Einaudi) como nos EUA (onde saiu pela Europa Editions), a capa do romance estampa um quadro de Federico Starnone, contribuindo ainda mais para esmaecer as fronteiras entre ficção e realidade.
Via Gemito se debate com sua própria impossibilidade de narrar: como escrever sobre um pai que romanceou continuamente a própria existência? O livro nasce dessa impossibilidade: décadas depois da infância em Nápoles, Mimì volta à cidade tentando escrever sobre o pai Federì, mas cada recomeço é atravessado por novas versões, por lembranças contraditórias e pela suspeita de que a própria memória é uma soma de mal-entendidos: “como a memória é pérfida, toda lembrança é já o primeiro estágio de uma mentira”.
A história contada por Starnone nos apresenta uma voz narradora que acomoda também a voz do pai, do avô e de muitos outros homens da Nápoles do pós-guerra, criando uma polifonia vertiginosa. Nesse sentido, Starnone é um escritor que mantém uma relação forte com escritoras italianas de uma geração anterior à sua: basta pensar nas narrativas de Elsa Morante e Natalia Ginzburg que, mesmo ao tecer ficções que ocorriam entre o fim da guerra e o pós-guerra, fugiram da tendência literária daquela época, o neorrealismo.
Há alguma herança desses procedimentos na escrita de Starnone em Via Gemito: o passado, procurado no presente, muitas vezes simplesmente invade o agora pelos tropeços da memória, fazendo o trauma ressurgir. Um tecido narrativo que vai agregando os traumas da guerra, narrados de forma meticulosa, aos traumas pessoais do Mimì criança, testemunha da fúria paterna.
Dialeto
Outra característica já conhecida pelos leitores de Starnone é o surgimento brusco, abrupto e às vezes ultrajante do dialeto napolitano, que vai assim contaminando a sintaxe do filho com as obscenidades do pai. Há momentos em que não se sabe mais quem está falando: se é Mimì adulto relembrando, se é o menino amedrontado observando o pai ou se é Federì ditando sua própria lenda. Mimì tenta descobrir qual é esse primeiro arranhão que a linguagem paterna inaugurou em sua vida, mas também está consciente de que é “totalmente insensato tentar chegar [lá]”.
Starnone joga com as fronteiras porosas entre ficção, memória e autobiografia: quanto mais o narrador tenta recuperar a figura apagada da mãe, mais a presença ensurdecedora do pai invade a página. A tentativa de escrever vira o tema do livro, é metaliteratura como exorcismo, onde a escrita replica o gesto impossível de Federì ao pintar: capturar uma presença que sempre escapa. E é nesse esforço que o filho se aproxima do pai.
As variações linguísticas e o espaço ocupado pelo dialeto na escrita de Starnone são algo central e metafórico: num encontro em que é entrevistado pelo também escritor Paolo di Paolo e pela linguista Valeria della Valle para a Accademia della Crusca, ente que regula a língua italiana, o autor napolitano fala dessas palavras e expressões que são “puro som”. Quase como um sentido que não pode ser expresso de outra forma, remetendo à sua própria formação na infância, quando o contato com a língua italiana só ocorreu com a entrada na escola fundamental — até então, vivia embebido no mundo do dialeto.
A apresentação desses dois mundos vividos pelo autor é sempre bem estruturada em seus romances, mas talvez seja em Vita Gemito que se percebe a verdadeira entrada, com os dois pés bem plantados, em seu projeto literário pessoal, em busca daquilo que Franz Kafka, autor muito caro a Starnone, descreve numa carta a Oskar Pollak em novembro de 1903: “Um livro deve ser o machado que quebra o mar de gelo dentro de nós”.
Precursor
Via Gemito é o romance da virada na trajetória de Starnone: ex-professor e jornalista, ele já tinha um público cativo como articulista do jornal Il Manifesto, porém seus relatos das dinâmicas escolares tendiam para uma vertente cômica. O humor nunca é abandonado por completo, mas é com esse romance que o autor deu a si mesmo a missão de se separar daquilo que até então havia lhe conferido tanto sucesso.
Federì surge aos olhos do narrador como o precursor de uma multidão de vocações criativas que não conseguem alcançar a realização a que aspiram, um mal de que sofrem outras personagens de Starnone. Carrega em si uma quantidade desproporcional de energia artística, é um pintor atormentado por seu caráter indômito e pelo sofrimento que descarrega sobre a família. Mas esse homem que tanto decepcionou e confundiu o narrador é o mesmo que o amou e protegeu.
Numa conversa com a escritora e jornalista Annalena Benini em 2017, o escritor diz: “Todos nós temos um único sofrimento para contar, uma única alegria, um sofrimento-mãe, uma alegria-mãe, e giramos em torno disso, mas com histórias diferentes, invenções e desafios técnicos sempre novos”. Com a chegada de Via Gemito ao Brasil, os leitores desta margem do oceano terão acesso às matrizes que nortearam a produção desse autor tão singular e profícuo.
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