Menir, monumento megalítico da Pré-história. Fotografia de Jordi Burch

Deslembramentos,

a ilha: vozes para voos rasantes

longe soa o apito de partida; mais que a gente que parte é a gente que fica — entre festa, alarido e contemplação

23set2025 | Edição #98

*

venho dizer destas ruas que o sol aperta
e as sombras e os panos e as tranças nas meninas que passam — crianças que olham o mar com a simplicidade das pedras, aqui onde todas as varandas penduram ausências de gentes por regressar.

*

aqui

os pássaros voam parados, suspensos e próximos, dando sombra às árvores e graça ao céu azul. vejo telhados sobre as pedras e pedras sobre a ilha,

mas o chão

respira uma frescura humana, os panos vestem as pessoas e as pessoas buscam negócios de regateio. chega um barco cheio de palavras caladas. há só o som das árvores e das gentes. mais tarde a noite dará voz às sombras, as sombras serão calmaria e escuridão. as árvores beijarão os pássaros. os dedos hão de alcançar mansidão.

não vejo canoas, sinto apenas a sua dança, um poema molhado no sal das águas

era de tarde ainda e um cabrito declamava o seu mé poético. talvez em seu voo sonoro ele cantasse a ilha, talvez buscasse pontes para o outro lado de todas as águas. dentro (?) do cabrito uma rã despertou e ele — lento, tardio — esvaiu-se nos caminhos do vento, entregando predestinações a quem soubesse escutá-lo. sinto-o ir, mas o vento não.

*

longe soa o apito de partida; mais que a gente que parte é a gente que fica — entre festa, alarido e contemplação. quem vai olha para a terra, quem fica tem saudade do mar. o apito de partida é o sinal de chegada àqueles que decidiram ficar.

*

“é de tarde ainda e tão quase noite já”, dizem os pássaros. no céu não voam lágrimas de despedida.

é chegada a lua; as árvores adormeceram. sinto no resto desta tarde um arfar de madeiras. não vejo canoas, sinto apenas a sua dança, um embalar de braços e ondulações, uma cantoria de remos,

um poema molhado no sal das águas.

*

quero a lua sobre a mesa — junto ao peixe, ao molho, ao arroz que devolve à minha refeição o branco do luar. quero a lua nas tripas da madeira, quero conchas rumando ao meu quarto vazio, quero lençóis plenos de uma maresia fresca — para que a noite resulte e, depois dela, nas frestas do meu lençol, a madrugada possa

vir sorrateira

aprisionar-se em mim.

quero um pirilampo em sereno apagamento: vozes para voos rasantes. ou uma luz negra que, sem acordar, acabasse por adormecer.

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “a ilha: vozes para voos rasantes”

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