O cartunista Jaguar (ABI/Reprodução)

Memória,

Morre Jaguar, um dos fundadores do ‘Pasquim’, aos 93 anos

Preso durante a ditadura militar por debochar do autoritarismo, cartunista mudou a imprensa brasileira com linguagem satírica e afiada

25ago2025

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, morreu no último domingo (24), aos 93 anos. Linha de frente do antigo jornal O Pasquim, o cartunista carioca estava internado no hospital Copa D’or, no Rio de Janeiro, com infecção respiratória, que evoluiu com complicações renais. Ele está sendo velado nesta segunda (25), na capela celestial do crematório Memorial do Carmo, na zona norte do Rio. 

Jaguar foi um dos fundadores de O Pasquim em plena vigência do AI-5, o Ato Institucional que mergulhou o país na fase mais dura da ditadura. Nascido nos anos de chumbo, o jornal vigorou até o período de redemocratização, contando com colaboradores como Millôr Fernandes, Henfil, Ziraldo e Paulo Francis, e fechou as portas em 1991. 

Contracultura na imprensa

Entre os diversos conteúdos que O Pasquim produziu provocando os militares, uma charge de Jaguar que ironizava o quadro Independência ou morte fez o cartunista ficar três meses na prisão em 1970. Parodiando a pintura de Pedro Américo, ele criou uma nova versão do grito de liberdade e escreveu em um balão a frase: “Eu quero mocotó!!”. 

“O Pasquim mudou a imprensa”, como escreveu Fernando Luna em sua coluna Autobibliografia, na Quatro Cinco Um. O jornalista escolheu As grandes entrevistas do Pasquim, que resgata entrevistas feitas por Jaguar e os outros pasquineiros, como um dos títulos de sua formação. Carregadas de deboche e críticas ao cenário político, as conversas eram vanguardistas na medida em que firmavam o humor ácido como um instrumento de crítica na imprensa brasileira. 

O livro mostra que até a forma como o jornalista conduzia as entrevistas exalava contracultura. “Jaguar resumiu seu antimanual de redação: ‘A gente chegava, tomava umas biritas com o entrevistado (quando o entrevistado não bebia, a gente bebia por ele), ligava o gravador e depois mandava alguém datilografar o resultado do papo’”, escreveu Luna.

Jaguar também deu à luz o mascote oficial do jornal, o ratinho Sig, cujo nome fazia referência ao psicanalista Sigmund Freud. A princípio, o personagem foi desenhado para uma campanha publicitária da cerveja Skol, que fez surgir a tirinha Chopnics — uma soma da palavra “chopp” com o movimento “beatniks”.

Outros veículos também fizeram parte da trajetória do ilustrador carioca, como as revistas Manchete, onde começou sua carreira, Senhor, Civilização Brasileira e Pif-Paf; além dos jornais A Última Hora, Tribuna da Imprensa, O Dia e a TV Globo, onde fez animações para as vinhetas da emissora. 

Jaguar nos livros

Símbolo da contracultura na imprensa, o trabalho de Jaguar também ganhou as prateleiras de livrarias. Antes mesmo de fundar O Pasquim, o cartunista publicou seu primeiro Átila, você é bárbaro, em 1968. Na publicação, combate, por meio de textos e desenhos, os sintomas mórbidos da sociedade, como os preconceitos, o autoritarismo e a ignorância. A última edição do livro é da editora Sesi-SP, lançada em 2014.

Jaguar só foi retomar a escrita de livros na virada do século, quando lançou em 2000 Ipanema: se não me falha a memória, em que revisita alguns cantos do Rio de Janeiro. Em 2008, a coletânea Ninguém é perfeito, que até então só havia sido publicada na Argentina em 1973, chegou ao Brasil, e foi reeditada pela Agir em 2019, com prefácio de Mafalda — em um dos últimos desenhos do cartunista Quino. O livro reúne os cartuns feitos na época do Pasquim, trazendo os famosos personagens Gastão, o vomitador, e Boris, o homem-tronco. Jaguar ainda ilustrou os livros Primo Altamirando e elas, de Stanislaw Ponte Preta (2008), e Roupa nova do arco da velha (2014), ambos publicados pela Agir.