Trechos,
De Joan para John
Publicação póstuma de diário de Joan Didion gera polêmica por revelar detalhes íntimos da vida da escritora, como sua relação complexa com a filha adotada; leia um trecho
25ago2025 • Atualizado em: 26ago2025No vigésimo aniversário do premiado O ano do pensamento mágico, no qual a escritora e jornalista Joan Didion (1934-2021) relata as consequências dolorosas da morte de seu marido, John Gregory Dunne, chega às livrarias pela HarperCollins Para John, diário com anotações da autora endereçadas a ele.
Descobertas no escritório da jornalista após a morte dela, as anotações trazem detalhes de 45 das mais de cinquenta sessões que Didion teve com um psiquiatra entre 1999 e 2002. Em maio deste ano, antes de Para John sair em português com tradução de Marina Vargas, o colunista Paulo Roberto Pires escreveu sobre o livro na Quatro Cinco Um.
Em meio a reflexões sobre o próprio trabalho e legado, Didion narra ao marido questões íntimas sobre ansiedade, culpa e adoção, além da saúde mental da filha Quintana, que lidava com depressão e alcoolismo e com quem a escritora norte-americana tinha um relacionamento complexo — retratado em seu último livro publicado em vida, Noites azuis (2011), e em um trecho das notas a seguir.
Trecho de ‘Para John’
28 de junho de 2000
Comentei que, depois da nossa conversa na semana passada, me ocorreu que a questão que abordamos — de fazer um balanço da própria vida, questionar o valor dela, o legado que vamos deixar — provavelmente ocupou meus pensamentos o ano todo. Que a situação com Quintana só havia evidenciado — e agravado — uma preocupação mais ampla relacionada ao trabalho, ao sentido das coisas etc. Que, na verdade, essa mesma questão havia precipitado o que provavelmente se configurava como uma crise existencial.
“Sem dúvida”, disse ele.
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Respondi que entendia tudo isso, mas que ainda assim não sabia o que fazer, como lidar com a questão. Disse que a situação de Quintana parecia boa no momento. Que ela havia respondido muito positivamente ao especialista em dependência química, que se identificava com o grupo no qual ele a havia colocado e que o achava muito útil. E disse que dava para ver a diferença. Ela estava com uma aparência melhor, é claro, porque não estava bebendo, mas também estava mais lúcida. Até se permitiu ficar feliz — e isso no fundo me preocupava — por conta de um jantar com alguém. Acrescentei que era a primeira vez que a víamos assim em bastante tempo — e que tínhamos medo, é claro, de que tudo, ou ela, desmoronasse.
“Você pode ver as coisas dessa forma, mas há outra maneira de encarar essa situação. Claramente, ela está fazendo progressos, está se permitindo ter esperança, se conectar com alguém além dela mesma. O simples fato de estar se expondo à possibilidade de uma decepção já mostra um grande progresso. Houve uma época — bem recente, inclusive — em que ela não teria se arriscado.”
Mas e se não der certo?, perguntei.
“É bem possível que não dê”, disse ele. “É a vida. Ela está aprendendo a vivê-la. Você pode ajudar compartilhando a alegria dela enquanto durar — se mantendo otimista. Seu otimismo pode ter um efeito real sobre ela. Ela pode usá-lo. Isso pode deixá-la mais esperançosa e dar a ela recursos para lidar com os próprios períodos depressivos. Você não precisa ficar sempre preocupada com o próximo problema. O fato de estar alerta não vai fazer com que o problema desapareça. Ele vai continuar lá. Você tem medo de não estar preparada para o problema se não o antecipar, mas vai estar. A adrenalina entra em ação. Você age. E, enquanto isso, terá sido feliz. O que fortalece você para enfrentar os problemas — e também fortalece ela.”
Eu disse que, depois de uma vida inteira me preocupando com problemas futuros — ou, como sempre pensei, ficando de olho no que poderia vir —, não via como poderia parar agora.
“As pessoas são capazes de mudar. Eu cresci em uma família como a sua, tinha depressão, também estava sempre preocupado com os problemas e o que poderia vir. Muitos psiquiatras são atraídos por essa especialidade porque eles próprios sofrem de depressão. É por isso que a taxa de suicídio entre psiquiatras é quatro vezes maior do que em outras profissões. Então eu sei — por experiência própria — que a mudança é possível. A depressão é um hábito mental. E hábitos podem ser mudados.”
Falei, com relação ao efeito desse hábito mental em Quintana, que, nesta semana, mencionamos a ela que ambos estávamos deprimidos. Isso pareceu ser uma fonte de preocupação considerável para ela, até que deixamos claro que tinha a ver com um problema específico de trabalho. O que não era totalmente verdade, mas não contamos isso a ela.
“O importante é que vocês não a deixaram pensar que tinha algo a ver com ela. Do que se tratava?”
Respondi que tinha a ver com trabalho, mas mais do que um trabalho específico. Tinha a ver com o momento da vida em que estamos, a vontade de pegarmos mais trabalhos que valessem a pena e menos que não valessem. Expliquei que, por muitos anos, conseguimos trabalhar em filmes — muitos dos quais chegaram a ser produzidos — e ainda ter tempo de fazer o que realmente queríamos. Mas isso vinha se tornando cada vez mais difícil. Em parte devido à lógica econômica da indústria cinematográfica — filmes cada vez mais caros, mais tempo de desenvolvimento, mais reescrita etc. Um único projeto podia ocupar anos da nossa vida e, ainda assim, nunca sair do papel.
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