O escritor e roteirista paulistano Chico Mattoso (Renato Parada/Divulgação)

Literatura brasileira,

Os tais pedacinhos

Ao narrar o particular, romance delicado de Chico Mattoso conta a história de todos nós e a de um Brasil que se recusa a crescer

26ago2025 • Atualizado em: 11set2025 | Edição #97

“O mundo é feito de pêndulos”, percebe Rodrigo logo no início de O hipopótamo, “de coisas que estalam e ciciam e cortam o tempo em milhares de pedacinhos, como espadas de samurais.”
Desde a abertura do romance, o garoto aparece tateando os espaços que percorre. Sente-se incomodado com as sobrancelhas que herdou do bisavô e tenta raspá-las. A mãe o surpreende, interrompe a operação e restam da cena um esparadrapo que cobre a área depilada e o choro de ambos: desiguais no ritmo, na intensidade, no impacto provocado pelo ato pueril.

O novo romance de Chico Mattoso, autor dos ótimos Longe de Ramiro (Editora 34, 2007) e Nunca vai embora (Companhia das Letras, 2011), conta a história do crescimento de Rodrigo. Nos seus dez ou doze anos de idade, o protagonista vive imerso na fabulação infantil, imagina-se com superpoderes, identifica habilidades que já tem — desenhar robôs, resolver equações de primeiro grau, alargar as narinas. A maior de todas: silenciar as vozes alheias, isolar-se num mundo próprio.

Quando tenta eliminar as sobrancelhas e neutralizar a herança genética, o menino ainda não intui todos os passos que terá de cumprir, nem que o tempo não é uno ou fixo. Muito menos que o passado espreita o presente, deixa marcas mais sólidas do que as que ficam na pele. Outros choros da mãe virão, e também mais desconfortos do garoto com traços herdados.

A trama oscila por quase um ano entre duas cidades e dois tempos. São Paulo, onde Rodrigo mora; e Porto Alegre, terra original dos pais e da casa dos avós. O presente do enredo é o final da década de 1980 e início da de 90; mas são os anos 70 que aos poucos passam a ditar o ritmo, a estalar e ciciar e cortar o tempo da narrativa. Foram os anos da ditadura militar, mas Rodrigo não sabe.

O país do protagonista vivia uma relação ambígua com o autoritarismo da ditadura recém-encerrada

No presente contínuo da sua vida, é um garoto silencioso, cujos pais, sem nome na história, falam línguas distintas, estão separados como “dois continentes isolados por um oceano” desde um tempo “morto e extinto” que não parece afetá-lo. Resta-lhe aplicar os diferentes códigos que aprendeu na relação com eles, existir nos universos separados das duas casas paulistanas, frequentar a escola e sondar certos mistérios domésticos: em que momento a mãe dorme? De onde vem a obsessão dela por eliminar manchas, sua fragilidade, as erupções das lágrimas seguidas de desculpas? Como lidar com os medos, a princípio concretos e depois abstratos, como o pavor que o atormenta à noite na cama?

Vez ou outra, o passado até irrompe na vida de Rodrigo, trazido por fotos ou comentários de pessoas próximas, mas ele logo o descarta. Interessa-lhe mais o ritmo das batidas da bola, dos ruídos no quarto vizinho, do metrônomo de que ouviu falar na escola. Só que a constância ritmada do presente é interrompida por um episódio estranho num supermercado de Porto Alegre, em pleno Natal. É a cena que fecha a primeira parte do romance e move as duas seguintes.

Ainda criança, Rodrigo pode não ter clareza, mas a cena fica impressa na sua cabeça e, embora o significado lhe escape, subverte seu cotidiano, altera a percepção da vida. É na cidade, até então seu refúgio de férias, que o passado dos pais ressurge e o enigma do tempo se revela. O garoto reconhece a complexidade e a profundidade das dores que atravessam décadas, irresolvidas: marcas mais resistentes do que as sobrancelhas que, nessa altura, já voltaram a crescer.

Pêndulos

O país de Rodrigo vivia nos anos 90 uma relação ambígua e instável com o autoritarismo da ditadura recém-encerrada. Vive ainda hoje: às vezes, nos sentimos reconciliados e acreditamos que superamos o horror; outras vezes, olhamos perplexos ao redor e nos damos conta de que há passados que teimam em não passar e nos assombram mais do que os monstros da imaginação infantil. Sem ter experimentado nada disso, o garoto começa a intuir que, para indivíduos e sociedades, o tempo é poroso, tem camadas, e elas se embaralham. Também seus pais, ele nota, têm uma história, também neles se acotovelam memórias e traumas.

Então Rodrigo cresce. Como a consciência da mudança é lenta e demora a surgir, ele resiste um pouco, vive aos sobressaltos, e se pergunta: “que espécie de provação é esta?”. Movido por impulsos, redefine os vínculos na escola, combina reações infantis com atos maduros. Compreende aos poucos a impressão fugidia deixada pelo episódio do Natal e reage a ela. A mudança do personagem se espelha no romance: variam os tempos verbais, aparecem registros materiais do passado, acelera-se a trama.

Ao conectar os mundos antes estanques em que vivia, Rodrigo descobre que Porto Alegre e o passado não persistem apenas no sotaque que a mãe readquire quando volta para lá e nas fotos na parede do antigo quarto do pai. São Paulo não é o presente absoluto e blindado de um menino desinteressado do mundo adulto. Sua metamorfose enreda as pessoas que o cercam, e elas — igualmente inconscientes da renovação que as atinge, mas arrancadas dos seus lugares consolidados — também passam a se mover. Nenhum crescimento, afinal, é individual, nenhum amadurecimento se confina numa pessoa só. Nem o acerto de contas com o passado é isolado: transtorna o presente, redimensiona a percepção de si mesmo.

No umbral da vida adulta, Rodrigo percebe que o pêndulo desregulou: os pedacinhos do tempo não são iguais entre si e as afinidades entre eles são continuamente reeleitas. A espada de samurai ficou para trás junto com a infância, o que parecia coeso agora pode ser desmontado. No tempo redescoberto, encontra um lugar para si mesmo e talvez venha a encontrar, no que antes era vazio, na espinha presa à garganta, sua expressão, sua voz. Talvez rompa seu silêncio, até porque não consegue mais silenciar a si mesmo nem o mundo que o rodeia.

Em menos de cem páginas, o delicado romance de Mattoso conta a história provisória de Rodrigo. Ao narrar o particular, conta também a história de todos nós, que um dia fomos crianças e subitamente crescemos — e a história de um país que talvez ainda precise crescer.

Quem escreveu esse texto

Julio Pimentel Pinto

Professor de história da USP, é autor de A pista & a razão: uma história fragmentária da narrativa policial (Peixe-elétrico Ensaios).

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Os tais pedacinhos”

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