A autora equatoriana María Fernanda Ampuero (Acervo pessoal)

Perspectiva amefricana,

As vísceras abertas da América Latina

María Fernanda Ampuero traça um mapa de feridas patriarcais e mostra que nosso corpo é testemunho de um continente ainda sangrando

28ago2025 | Edição #97

Visceral, de María Fernanda Ampuero, não é um visitante discreto. É daqueles livros que arrombam os olhos e penetram o cérebro, atravessando sinapses como uma lâmina afiada e permanecendo não apenas nas ideias, mas no sangue, mesmo depois que terminamos a última página. Não é para se ler impunemente. Ao fechar o livro, a vida já não seguiu igual. Como se Ampuero se fincasse definitiva e tivesse desarmado minhas defesas mais antigas e me obrigado a sentir com intensidade a geografia da dor e da violência que moldou meu corpo desde criança até os dias atuais — e que, sem dúvida, molda nosso corpo feminino latino-americano.

Numa entrevista, Toni Morrison estimulou que escrevêssemos o livro que gostaríamos de ler: “Se há um livro que você quer ler, mas ainda não foi escrito, então escreva-o”. Essa sugestão me acompanhou por anos como uma urgência na boca do estômago, até encontrar esses textos autobiográficos que podem ser lidos como crônicas. Visceral é o livro que eu queria escrever. Não porque eu possa ou saiba fazê-lo, mas porque realiza aquilo que imaginei como literatura necessária.

O escrito se alimenta do nervo exposto, da carne mais vulnerabilizada, daquilo que raramente sobrevive à assepsia do discurso literário e que, naquelas páginas, é mantido vivo, pulsando, mesmo quando a ferida supura. “Útero”, por exemplo, me levou às lágrimas. Depois de começar a ler esse texto, precisei afastar o livro por alguns dias para retomar a leitura. Não queria vê-lo até que percebi que a repulsa era uma negativa pelo espelho.

Gorda

Em “Gorda”, a leitura transcorreu como um roteiro da minha própria vida. Ampuero expõe a crueldade da gordofobia com uma honestidade cortante, revelando como corpos são transformados em territórios de escárnio e violência simbólica. Me lembrei das dietas desde os meus doze anos, ainda que minha genética não penda para a magreza, dado que todos na família de meu pai têm físico corpulento. Ouvia o tempo todo que tinha o “rosto tão bonito” e que bastava emagrecer para minha vida se transformar e tudo melhorar.

Como Ampuero, passei pelo mesmo roteiro de thriller com médico e métodos duvidosos. O que venderam à minha mãe foi que as “bolinhas” eram feitas sob medida. Tive que por meses me deslocar, aos quinze anos, do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, para Taboão da Serra. Na primeira consulta, um batalhão de exames para, quinze dias depois, receber o pote de plástico repleto de bolinhas que inibiriam minha fome. Todos os dias. Manhã e noite. E, quando interrompi o “tratamento” porque não aguentava mais me sentir fora de mim — e ganhei todos os quilos perdidos e mais um pouco —, fiquei por meses escutando que não tinha força de vontade e que era um caso perdido. Em “Gorda”, Ampuero desmonta a máscara social do “cuidado” para mostrar o ódio e o desprezo pelo corpo gordo disfarçado de preocupação. Esse foi meu encontro mais profundo com ela.

Cada conto-crônica é um corte — encontramos memórias como cicatrizes, fome, abuso, violência

Ao ler Ampuero, não caminhamos pelo terreno seguro de narrativas confortáveis. Cada conto-crônica é uma queda, um corte. O visceral não é metafórico, porque encontramos vísceras e corpos mutilados e memórias como cicatrizes, fome, abuso, violência doméstica e sexual, abandono, amor, sexo, tudo exposto de forma brutal e intensa. Há uma experiência encarnada de quem conhece o peso e o cheiro dessas violências, como se houvesse entre a narradora e a leitora um pacto silencioso de que, naquelas páginas, não se encontrará entretenimento nem acolhimento, mas desconforto e sobrevivência.

O livro é como um mapa de feridas patriarcais históricas, que troca a macro-história da mineração e saque de riquezas naturais latino-americanas pelas micro-histórias de extração incessante de sangue e dignidade de meninas e mulheres. Ampuero expõe as vísceras da América Latina não apenas para mostrar o que nos fizeram, mas para nos obrigar a encarar o que nos fazem todos os dias. Não há passado e presente separados, porque colonialismo, patriarcado e violência estatal continuam vivos, como uma infecção que nunca cessa.

O impacto da leitura não está apenas no conteúdo, mas também na forma. A tradução de Silvia Massimini Felix é brilhante em manter precisão e provocação. As frases curtas, as imagens quase insuportáveis, a atenção aos detalhes, tudo cria uma sensação de claustrofobia e intimidade.

Realismo concreto

A literatura latino-americana já foi marcada pelo realismo mágico, pela grandiosidade das metáforas, pela construção de mitos, mas Visceral é o oposto. Há realismo concreto, sem milagres, em que a violência não vem de monstros fabulosos, mas de homens comuns, famílias comuns, vizinhos comuns. Não há para onde fugir. No final, me deixou com uma certeza incômoda de que não basta ler, é preciso também carregar essas histórias para fora da página, deixar que elas contaminem nossa percepção do mundo, que nos obriguem a agir, falar, interromper ciclos de violência. O livro não oferece redenção, mas consciência. E talvez seja disso que precisamos.

Ampuero escreveu o que eu queria escrever porque compreendeu que a literatura não precisa, e não deve, se afastar da vida para existir. Pelo contrário, se embebe dela, do que é mais cru e difícil. E, ao fazer isso, nos lembra que nosso corpo e nossas memórias são também arquivos históricos, testemunhos de um continente que continua exposto e sangrando, ainda que vejamos sinais de reivindicação, enfim, soberana.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “As vísceras abertas da América Latina”

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