Literatura,
No território do indizível
Em Triste tigre, Neige Sinno faz um relato brutal sobre os abusos que sofreu enquanto se pergunta o que significa escrever sobre isso
28jul2025 • Atualizado em: 19ago2025 | Edição #97Triste tigre parte de duas premissas incontestes e de uma conclusão que mais propõe questões do que as fecha. As premissas: ainda criança, na década de 80, Neige Sinno foi estuprada durante anos por seu padrasto, numa região rural dos Alpes franceses; adulta, Sinno mora no México com marido e filha e é escritora. A conclusão natural é que Sinno pode, ou até deve, escrever sobre sua experiência. Mas talvez isso seja uma falácia.
Missão, oportunidade, superação, tentativa de entendimento: o que significa escrever uma história como essa? É a pergunta que a autora tenta responder enquanto constrói seu relato. O livro autobiográfico, lançado em 2023 na França, é, sim, sobre o abuso e suas consequências, mas é, sobretudo, um tremendo ensaio a respeito de como contá-lo.
Um obstáculo determinante se revela desde a primeira seção, que leva o título “Retrato do meu estuprador” porque, “para mim também, no fundo o mais interessante parece ser aquilo que se passa na cabeça do carrasco”. Ela arrisca uma descrição objetiva: ele é uma pessoa cheia de vida, animada. É um homem de vinte e poucos anos, carismático, autoritário, que esquia, escala… etc. etc. “Bom, vou parar por aqui. Eu tentei”, lemos algumas páginas adiante.
Sinno recomeça. A seção agora se chama “O retrato, portanto”, e é composta por elementos mais dispersos: mãos grandes, humor que vai da doçura à violência, carícias rudes, pés peludos. A justaposição dos dois “retratos” faz o leitor questionar a veracidade das descrições, tema que vai perturbar a narrativa ao longo das quase trezentas páginas. O que é o real numa experiência assim?
O livro recusa, porém, a ideia óbvia e improdutiva de que, ao se transmutar o vivido em linguagem, entra-se no terreno da ficção. Sinno, de fato, inverte a fórmula: para ela, era quando estava sendo abusada que, por um mecanismo de dissociação, habitava um espaço de inexistência. A escrita é um meio de cravar o alfinete do real no vivido, mantê-lo sob algum controle.
As dificuldades da autora em narrar são de outras ordens. Por exemplo: como converter a si própria em protagonista de uma história criada e encenada por seu algoz? Até a trilha sonora, ela escreve, havia sido escolhida pelo padrasto: os hits de Johnny Hallyday, astro do rock francês, tocavam no rádio da família e “tocam” também ao longo de Triste tigre, compondo a figura do “machão sofredor” em uma “sinfonia de autocomiseração”.
O livro é sobre o estupro, mas é sobretudo um tremendo ensaio a respeito de como contá-lo
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Essas imagens são importantes para Sinno evocar o padrasto, sobretudo no que diz respeito ao tema que mais a obceca: o fascínio provocado pela mera crueldade, a impossibilidade de acessar o que leva um homem a estuprar uma menininha de oito ou nove, dez, onze anos. É ele um demiurgo, um ser mitológico ou um sujeito medíocre? E de qual deles seria melhor ser a vítima?
Por quê?
Sinno tem razão ao afirmar que todos imaginamos (erroneamente?) conseguir nos pôr no lugar da vítima, mas que poucos levam até o fim o exercício de se colocar na cabeça de um abusador: este atrai por sua abjeção absoluta, a mesma que nos afasta assim que chegamos perto demais. Uma transgressão como a de seu estuprador é um “objeto de medo e de fascinação”, como escreveu Julia Kristeva em Pouvoirs de l’horreur [Poderes do horror, sem tradução no Brasil]. “É abjeto: sujo, podre. E eu, […] se desejo com ele esse abraço fraterno e mortal onde perco meus limites, encontro-me reduzida à mesma abjeção.”
Para Kristeva, a literatura reivindica precisamente esse “poder sagrado do horror”, a fim de se oferecer, no uso subversivo que faz da linguagem, como uma “elaboração, uma descarga e um esvaziamento da abjeção”: podemos, na experiência literária, nos aproximar sem nos afundar no indizível. É o que se dá, por exemplo, na leitura de Lolita, romance de Vladimir Nabokov que Sinno celebra e cuja leitura permite, segundo ela, entrar na cabeça de quem pratica o mal e viver um “turbilhão de sensações e pensamentos [que] é um antídoto fantástico para o tédio do mundo moderno”.
Essa literatura apela à Sinno leitora, mas não é a que a escritora pretende fazer. Diferentemente, Triste tigre quer e produz, na própria forma, a dureza dos estupros a que Sinno foi submetida, bem como suas consequências. Não há desvio ou catarse. Sua escrita remete mais a uma análise literária em close reading da própria vida do que a um romance. Fica mais difícil estabelecer a fronteira entre aproximação e imersão no abjeto.
O porquê do livro é revirado ao longo das páginas. Há muitos motivos para evitar escrevê-lo: não virar uma especialista em estupro nem fazer um livro temático; poder se dedicar a outro assunto; evitar que alguém possa espiar sua história à procura das cenas sórdidas. É difícil também escrever na medida em que isso significa dar uma nova existência para seu agressor.
A insistência na escrita é, então, uma “revolta desvairada”, na qual se quer pegar “o touro a unha” e “entupi-lo de palavras e raciocínios até ele desmoronar”. É sintomático o uso de uma alegoria: a linguagem metafórica remete ao esvaziamento possível do abjeto, ainda que esse esvaziamento se dê pelo acúmulo, ou o “entupimento”, isto é, o esforço de enunciar de novo e de novo aquilo que no silêncio parecia irreal.
Fantasmas
O livro se divide em duas partes, “Retratos” e “Fantasmas”, supostamente reservadas ao passado e ao agora. Na prática, a escrita é repetitiva, circular, em uma disposição mimética do trauma e de seus efeitos. Ideias, palavras, eventos ecoam e são explorados até o limite — e aqui vale destacar a tradução para o português de Mariana Delfini, que manteve o humor furioso e a impressão de solidão absoluta dessa voz obsessiva.
Sinno mobiliza também documentos de arquivo, peças do julgamento do padrasto, recortes de jornal. Seguimos o relato e seu making of: o ensaio reflexivo e os abismos, trechos de canções e a descrição de fotografias cuja publicação não foi autorizada. Há uma tomada radical de responsabilidade daquilo que se constrói nas páginas.
A autora conta, no final do livro, que um editor que recebeu uma primeira versão a recusou porque sua editora só publicava ficção. Ele deve estar arrependido: Triste tigre não para de acumular prêmios, como os franceses Le Monde e Femina. Eu mesma li pela primeira vez a obra por causa do meu orientando Vinícius Bozzo, que a escolheu como objeto de pesquisa depois de fazer parte do júri do prêmio Choix Gouncourt — iniciativa do prêmio francês em parceria com universidades brasileiras, que elegeram o relato de Sinno como o melhor livro de 2024.
Ao confrontar a rejeição inicial, a autora pondera acerca da suposta posição inferior do testemunho em “uma hierarquia dos modos de expressão em relação ao trauma” — uma postura que ela entende como de “elitismo cultural”, mas que reconhece ser também uma forma de autoproteção. Fora da ficção, admite ela no livro, “tenho medo de receber apenas convites para programas de rádio sobre incesto”.
Sabemos que a estratégia da (auto)ficcionalização — ou da conversão artificiosa da autobiografia em romance — de fato é empregada para dar legitimidade a muitas publicações. Com seu livro como um todo, Sinno questiona, com razão, se é necessária essa chancela taxonômica para a validação. “Por que só a ficção poderia se aventurar no território do indizível?”, ela questiona em uma passagem.
Sua recusa em escrever ficção parece, porém, ter mais razões do que a defesa do valor do testemunho. Em uma seção, ela imagina sua vida sendo contada como um melodrama hollywoodiano, arquétipo caricato da ficcionalização, composto por descrição de contexto familiar, trauma, denúncia, prisão, superação, paz. Segundo ela, o happy end é impossível: ao se narrar um abuso, o ponto-final só se dá porque é preciso encerrar o relato. Não há, de fato, nenhum final, feliz ou não. Não há sentido, e sem um sentido, não há romance. Já a autobiografia, escreve, “é uma porta de entrada para um universo de galerias complicadas, das quais não se sairá nunca”.
A escrita é repetitiva, circular como o trauma. Ideias, palavras, eventos ecoam e vão até o limite
Por que escrever o relato de uma série de estupros?, Sinno se pergunta ao longo do livro, e no final dele dá uma resposta — frágil, imprecisa, mas bonita, severa e suficiente. Não a transcrevo. Fica faltando também um sumário dos acontecimentos narrados, omissão que se deve à impressão de que haveria algo de desonesto em parafrasear os relatos de Sinno. Seria obscena, do ponto de vista ético, a glosa dos eventos, e obsceno seria também, agora esteticamente, dissolver a brutalidade de Tigre triste em um texto analítico como este.
A brutalidade é parte fundamental da experiência do abuso, e essa experiência — a autora deixa bem claro — nunca se encerra, embora se reconfigure no livro. Em certo momento, Sinno escreve que não deseja que ele tenha muitos leitores, porque isso seria um triunfo do tema e não da escrita. Provavelmente está certa; ainda assim, espero que sua história e a forma que dá a ela sejam lidas, do modo como as concebeu: indissociáveis.
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025.
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