Perspectiva amefricana,
Desejo e delírio com nome próprio
Com delicadeza e fúria, Astrid Roemer narra as tensões étnico-raciais e a herança colonial do Suriname por meio de uma anti-heroína que ousa desejar
24jul2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #96Astrid Roemer, escritora surinamesa-holandesa convidada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), é uma autora de recusa e desestabilização. Sua prosa não se curva à ordem, questionando o canônico e a narrativa tradicional. Autora de romances, peças e poesia desde os anos 70, Roemer acaba de estrear no Brasil com Sobre a loucura de uma mulher, narrativa que carregarei para sempre. Talvez por ser um livro que não apenas se lê, mas que provoca.
Publicado originalmente na Holanda, em 1982, o romance acompanha Noenka, anti-heroína que se move entre lembranças fragmentadas, cartas, laudos psiquiátricos e processos judiciais. A história não se apresenta e Roemer não se interessa em contextualizar nada. É como se nos conduzisse em uma batalha, na qual as contranarrativas são o próprio corpo do romance de maneira ambígua, um tanto caótica para leitores não acostumados com tamanho experimentalismo, mas que, mesmo assim, é lírico e político, sem panfletarismo.
Ainda que sem contexto, o livro não requer explicação. Não há interesse por parte da autora em qualquer redenção. A escrita de Roemer me remeteu à de Toni Morrison e à de Jamaica Kincaid. Da primeira, a pulsação espiralar, o questionamento do tempo; da segunda, a brutalidade poética, o fluxo de consciência. Mas a surinamesa vai além ao romper até mesmo com a estrutura narrativa esperada.
A escrita da autora remete à pulsão espiralar de Toni Morrison e à brutalidade poética de Jamaica Kincaid
Mulher negra e professora, Noenka é diagnosticada como instável por sua busca incessante pela liberdade, pelo direito de poder ser o que quiser. Ela se recusa a permanecer em um casamento por convenção social com Louis, um homem negro, num relacionamento permeado por conflito e possessividade. E se coloca em oposição ao seu entorno ao desejar a separação para viver a única relação de respeito que teve com Gabrielle, uma mulher branca. Essas tensões étnico-raciais, vivas no Suriname contemporâneo por uma herança colonial, perpassam de forma pendular — ora sutis, ora explícitas — o livro. A protagonista se inscreve em um campo interditado, que é o das mulheres negras que ousam desejar. Com esse gesto, simples e imperdoável, se inicia a construção da loucura de Noenka.
A internação, ainda que absolvida, faz com que a protagonista componha um rol de mulheres interrompidas por desobediência civil e punidas clinicamente como desviantes. A psiquiatria aqui ascende como tecnologia do patriarcado racializado, como instrumento do arquivo colonial que, para manter sua ordem, precisa classificar e eliminar as que não se dobram.
Alegoria
Em estudos de Michel Foucault, podemos depreender que a loucura moderna não é um fenômeno natural, mas uma construção político-social. Para compreender a protagonista e o enredo, é salutar buscar estudos como os de Neusa Santos Souza, Virginia Leone Bicudo e Sueli Carneiro, cujas reflexões sobre subjetividade negra, racismo estrutural e epistemicídio são fundamentais para desentranhar as camadas de Noenka.
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De Tornar-se negro (Zahar, 2021), de Neusa Santos, extraímos a ideia de que a subjetividade da mulher negra é constituída num processo de negação sistemática, sendo a loucura o resultado psíquico de uma estrutura que a impede de se reconhecer como sujeito. Virginia Leone Bicudo permite compreender como as relações de dominação não dependem da explicitação do preconceito para operar, nos levando a considerar o diagnóstico psiquiátrico da protagonista uma atualização técnica de uma desautorização prévia de seu corpo e de sua autonomia.
Por fim, com Sueli Carneiro compreendemos como a interseção entre gênero e raça forja uma condição de precariedade política e simbólica para mulheres negras, na qual seus corpos, discursos e dores são interpretados sob a ótica da disfunção. Ao expor os mecanismos sutis e violentos que compõem a lógica do racismo patriarcal, as autoras iluminam o que Sobre a loucura de uma mulher narra com delicadeza e fúria: a impossibilidade de sanidade numa sociedade cuja normalidade, de fato, inexiste ou se limita a padrões de ser e socializar.
A internação de Noenka é uma das formas pelas quais a colonialidade segue operando. Roemer não descreve esse mundo com objetividade. As cenas se justapõem como delírio. O tempo não é cronológico; os sentimentos, contraditórios; há recusa da concisão. Tudo isso cria um efeito mais do que estético, epistemológico — uma escrita contra a razão. Roemer compromete-se a expelir tudo o que a protagonista deseja, já que não há superação.
Louis, o marido, não é apenas opressor, mas também moldado por uma masculinidade negra que aprendeu a sobreviver por meio do controle. Seu amor pela protagonista almeja a proteção, mas com forte sentido de posse. Um amor que carrega, como dito no romance, um medo do escravo com a fome do amo. Roemer não o transforma em monstro, antes o revela como também atravessado pela colonialidade que tomou a percepção do afeto.
Noenka é também alegoria. Em seu corpo e sua voz estão todas aquelas interditadas. Roemer responde a isso com forma e conteúdo. A dor de Noenka não é evento, mas estrutura; e sua loucura não é diagnóstico, mas consequência. Sobre a loucura de uma mulher não é um livro de lamento.
Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025. Com o título “Desejo e delírio com nome próprio”
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