O ilustrador, quadrinista e professor paulista Marcelo D’Salete, vencedor do Prêmio Jabuti pelas HQs Angola Janga: uma história de Palmares (2018) e Mukanda Tiodora (2022), e premiado com o Eisner Awards por Cumbe (2018), todos publicados pela Veneta (Renato Parada)

Literatura infantojuvenil,

Deixa a gira girar

Primeira HQ infantojuvenil de Marcelo D’Salete espelha a vivência de crianças nos terreiros e a importância de debater a intolerância e o preconceito contra religiões de matriz africana ainda na infância

18jul2025 • Atualizado em: 08set2025

Para entender o erê, diz uma música, tem que conquistar alguém que a consciência leve. É preciso parar, pensar no que já se viu e sentir o que já se fez como um mundo visto de uma janela, mas agora pelos olhos de uma criança. Em Luanda no terreiro (Companhia das Letrinhas), primeira HQ infantojuvenil de Marcelo D’Salete, a protagonista dá cabo dessa façanha ao convidar outra criança — que no início vê o seu redor com os olhos preconceituosos dos adultos — para uma festa que celebra a harmonia, a união, a proteção e orientação espiritual de uma comunidade. Nada muito diferente do que as outras religiões também desejam.

É por meio da experiência no universo da religião afro-brasileira dentro dos terreiros que o ilustrador e quadrinista — um dos convidados do Espaço Rebentos n’A Feira do Livro 2025, em um bate-papo que acontece ainda hoje, 21, ao lado da escritora Cidinha da Silva — discute a intolerância religiosa, percorrendo caminhos guiados pela consciência leve da pequena (grande) Luanda para que ações fatais não impactem, nem materialmente nem simbolicamente, a forma como os rebentos se reconhecem no dia a dia, sejam elas crianças de terreiro ou não. Nesta entrevista para a Quatro Cinco Um, D’Salete conta sobre o seu percurso criativo e de vida e os trajetos para libertar as novas gerações do preconceito, intolerância e racismo.

Quadrinho de Marcelo D’Salete (Divulgação)

O que inspirou a criação de Luanda no terreiro?
Partiu de um maravilhamento inicial em relação à estética do candomblé e de outras religiões de matriz africana, como a dimensão das danças, cores, histórias, canto, narrativas de cada entidade, além da relação com o tempo.

As histórias dos orixás foram um canto inicial. Por outro lado, algo que sempre me chamou a atenção é que há uma história a ser contada sobre os terreiros no Brasil e sobre essa experiência negra afrodiaspórica. O terreiro em si é um espaço altamente educativo e integrativo, onde há várias gerações de pessoas circulando: jovens, adultos, idosos, crianças e bebês.

Sabemos que infelizmente as religiões de matriz afro foram e ainda são muito discriminadas. O livro é uma forma de pensar um pouco sobre essas questões e em formas de tecer novas possibilidades de compreensão dessa experiência de integração entre esses indivíduos, de dentro e de fora do espaço religioso do candomblé e das religiões de matriz africana.

Você já vivenciou a mesma situação que a protagonista Luanda, ao ser confrontada por suas crenças?
Não cheguei a presenciar uma situação direcionada a mim, mas sempre me incomodava e despertava a indignação ouvir os diversos relatos envolvendo crianças e adultos de terreiro, que às vezes eram agredidos com pedradas e xingamentos. Acho que também por infelizmente não termos uma longa história de terreiros e espaços de culto afro-brasileiro no Brasil. Muitos foram queimados e destruídos. Isso está relacionado diretamente a uma experiência negra no Brasil. Faz parte de todo um conjunto de ações de discriminação contra as pessoas, contra a religião, contra a cultura e contra toda a história afrodiaspórica.

Depois do sucesso de Angola Janga,Cumbe e Mukanda Tiodora, como foi mergulhar nas histórias em quadrinhos voltadas para o público infantil?
Já tinha trabalhado com histórias infantis, mas apenas como ilustrador. Essa é a primeira vez que lanço um livro onde desenvolvo tanto a história quanto as ilustrações. É muito interessante observar a leitura das crianças sobre essas histórias, que é algo que passa pelo texto, mas também pelas imagens. Mas é uma experiência de leitura diferente do livro infantil convencional, porque tem muitas sequências de imagens que engajam e fazem com que crianças e adultos também gastem um tempo tentando lê-las.

Quadrinho de Marcelo D’Salete (Divulgação)

Luanda no terreiro aborda ancestralidade, memória e resistência. Qual a importância de também trazer esses temas para a literatura infantojuvenil?
Esses conceitos de ancestralidade, memória e resistência são nevrálgicos quando pensamos em história e literatura negra no Brasil, mas aliado a isso há todo um sentido e uma dimensão lúdica de como trazê-las para o público infantil. Talvez esse tenha sido o grande desafio para esse livro: trazer essas questões e ao mesmo tempo abordá-las com uma certa leveza e ludicidade, ainda que você trate de um assunto mais espinhoso como a discriminação religiosa.

Esses temas nos tocam como sociedade e ainda mais nos dias atuais. A literatura infantojuvenil é o mundo e acho que pode trazer, com as devidas mediações e ponderações, temas muito complexos para a discussão e para criar uma experiência ética de leitura que seja interessante e instigante.

O livro traz palavras do iorubá e, ao final, as crianças têm acesso a um glossário. Como você vê a presença cada vez maior dessas palavras nos livros infantojuvenis e como elas podem contribuir para o aprendizado dos pequenos em relação à cultura africana?  
O livro traz algumas poucas palavras que fazem parte do universo do candomblé, que é muito vasto. Era importante ter esse glossário, porque é uma forma de introduzir a criançada sem precisar ficar explicando exatamente o que é cada termo durante a história. Tem a ver com o modo como a história é conduzida e ritmada, até para evitar pausas. Meus outros livros se assemelham nisso.

Palavras como xirê, ialorixá, ogan, ekedis e outras, são parte essencial do culto, da organização entre as pessoas. Além de ser muito importante para que os pequenos também adiquiram um conhecimento mínimo, é legal que vejam como todo o contexto é muito rico.

Quadrinho de Marcelo D’Salete (Divulgação)

Quais desafios encontrou ao escrever para crianças não só sobre intolerância religiosa, mas também sobre a subjetividade dos personagens, que lidam com o preconceito de uma maneira diferente?
Tratar da intolerância e da violência com os pequenos de fato não é algo simples, mas ao mesmo tempo as crianças são muito mais diretas e transparentes ao mostrarem suas emoções nessas situações. Já dei aula para muitas turmas do ensino fundamental e do ensino médio e é muito curioso quando contamos uma história de um orixá e a criança vêm comentar que a mãe, o pai, a avó, é dessa religião. E de repente são elas que começam a contar histórias sobre quem é Iansã, Xangô, Oxóssi.

Quando você faz uma contação de história sobre o candomblé e os orixás com alunos que já estão no ensino médio, é comum acontecer de que, caso não conheçam muito bem o professor, eles se calem. Dificilmente vão abordar isso ou até mesmo dizer “eu sou dessa religião”, como os pequenos fazem com mais naturalidade. Infelizmente, isso está ligado à experiência de sobrevivência desses estudantes no final do ensino médio, quando já estão se tornando adultos.

Fazer parte de uma dessas religiões ainda te expõe a um possível ataque — ainda que simbólico —, de racismo recreativo, além de outras formas de menosprezo e de diferenciação. Infelizmente, isso faz parte de toda uma cultura de segregação e de discriminação em relação às religiões de matriz africana no Brasil.

Mas uma pesquisa recente mostrou que o número de pessoas que se declaram adeptas do candomblé e outras religiões de matriz africana tem aumentado. Ainda bem. Não sou um pesquisador dessa área, mas a minha percepção é de que esses números vêm aumentando não necessariamente porque há mais pessoas participando dessas religiões, mas sim porque muitos dos adeptos estão finalmente se sentindo um pouquinho mais confortáveis para dizer que seguem as religiões.

Quais livros você gostaria de ter lido na infância?  
A Eva Furnari é uma referência enorme para mim hoje em dia. Ela é uma artista que descobri depois de adulto. O trabalho dela é fenomenal, assim como o da Suzy Lee. Mas também o Otávio Júnior, que tem feito obras maravilhosas sobre a Carolina Maria de Jesus, sobre o morro, como o Da minha janela (Companhia das Letrinhas, 2019).

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.