Oswald de Andrade em Piracicaba (sp), aos 50 anos (Divulgação)

Biografia, Literatura brasileira,

Um gênio mundano

Em nova biografia de Oswald de Andrade, Lira Neto se dedica menos à obra e expõe detalhes ignorados da conturbada vida do modernista

11jul2025 • Atualizado em: 29jul2025

Ao dizer que no Brasil, infelizmente, “não se consegue estudar alguém sem o colocar num trono ou num patíbulo”, Oswald de Andrade parecia estar também orientando os seus futuros biógrafos no trato da sua vida. Afinal, poucos escritores brasileiros tiveram uma vida tão repleta de contradições quanto a sua, com altos e baixos repentinos, conturbações permanentes, cindida entre obras e atos notáveis e outros da mais singular cafajestagem — o que, justiça seja feita, ele quase sempre foi o primeiro a reconhecer, em diários, entrevistas e no seu livro de memórias, Um homem sem profissão, escrito com franqueza incomum.

O jornalista Lira Neto usou a citação como epígrafe de Oswald de Andrade: mau selvagem, nova biografia do escritor lançada pela Companhia das Letras, como se fosse uma espécie de aviso prévio aos seus leitores. Em mais de quinhentas páginas, se Lira Neto identifica Oswald como “um dos mais importantes nomes do pensamento brasileiro do século 20”, conforme diz no epílogo, também não deixa de iluminar e detalhar episódios e comportamentos controversos da obra e da vida do escritor, que causaram grande escândalo em sua época — e talvez possam continuar causando.

Caso escandaloso

O caso provavelmente mais escandaloso, e que Lira Neto revira por todos os ângulos ao longo de três capítulos da biografia, diz respeito ao namoro que Oswald nutriu com a bailarina Carmen Lídia, a Landa, garota de treze anos que o escritor, com o dobro da idade dela e no ápice de uma obsessão, planejou aliás sequestrar. Mistura de padrinho, empresário e amante de Landa, Oswald entrou em batalha moral e jurídica com quase toda a província de São Paulo e metade da capital federal, inclusive com o próprio pai, para poder se casar com ela.

A história se complica após a garota, saindo de uma apresentação no Theatro Municipal de São Paulo, se dirigir até o juizado do Fórum Cível para denunciar supostos abusos e explorações que ela vinha sofrendo, pedindo proteção das autoridades — mas não contra Oswald, e sim em relação aos avós, Arthur e Rosa Schindler, que a essa altura ainda se passavam por seus pais. O caso logo toma conta da imprensa, das páginas policiais às colunas de fofoca: “Um grande escândalo!”, “Torpe exploração!”, “O escândalo da dançarina”, “Carmen Lídia estará grávida?”. Em meio ao sensacionalismo, até um charlatão turco é convocado com o intuito de hipnotizar a garota para que ela revelasse toda a verdade dos fatos.

O biógrafo ilumina episódios controversos do escritor, que causaram escândalo em sua época

Lira Neto reconstrói o episódio com detalhes inéditos e no melhor estilo investigativo, ao vasculhar grande variedade de fontes disponíveis, como cartas de diferentes procedências, memórias e dezenas de páginas de jornais e revistas de 1916 a 1917. Ao mesmo tempo, perscruta os efeitos do escândalo na vida privada do escritor, que viveu seu próprio “inferno familiar”, já que àquela altura da vida ainda residia com a namorada francesa, Kamiá, mãe do seu primeiro filho, Nonê, e com o próprio pai, o viúvo José Oswald — que, com a ampla repercussão do caso, ameaçava cometer suicídio.

Recordo o caso, além do mais, porque ele é exemplar do tipo de interesse e abordagem de Lira Neto na biografia, que se dedica, em larga medida, mais ao relato da vida pessoal de Oswald: da origem de sua fortuna, esmiuçando os negócios imobiliários do pai, aos encontros e desencontros amorosos, que não foram poucos e nem muito comuns, até as recorrentes polêmicas que o escritor protagonizou com amigos e inimigos, em âmbito público e privado.

Se o biógrafo dedica poucas páginas à participação do escritor na Semana de Arte Moderna e na viagem da “caravana modernista” às cidades históricas mineiras em 1924, episódios geralmente de maior interesse cultural e acadêmico, não se furta, por outro lado, em dedicar capítulos inteiros às intrigas amorosas de Oswald. O poeta francês Blaise Cendrars, que exerceu enorme influência na obra poética oswaldiana ao longo dos anos 20, por exemplo, é menos mencionado no livro do que a própria Carmen Lídia.

Já as tensões com Mário de Andrade, assim como as tentativas frustradas de reconciliação por parte de Oswald, também são recontadas com pormenores de bastidores que esclarecem a relação — desde sempre conturbada, eivada de piadas e preconceitos — entre os dois amigos da primeira hora modernista.

Mitos pessoais

Oswald não foi um personagem fácil de biografar, como se sua vida resistisse ao próprio gênero biográfico. Seja por conta de uma existência repleta de situações desarrazoadas, que exige do intérprete avaliação ponderada; seja porque sua vida, muitas vezes, é associada à sua obra literária, e o biógrafo precisa lidar com um conjunto de mitos pessoais do escritor a respeito dele próprio. Ou ainda porque a trajetória de Oswald se confundiu com momentos marcantes da história da cultura brasileira.

Nesse sentido, em meio ao desafio, Lira Neto escreveu um livro que já nasce como leitura obrigatória na bibliografia oswaldiana, o que não é pouco. Sob esse aspecto, Oswald de Andrade: mau selvagem parece se distinguir das duas biografias já disponíveis sobre o escritor, feitas por autoras ligadas à pesquisa universitária: O salão e a selva (1995), de Maria Eugênia Boaventura, e Oswald de Andrade: biografia, de Maria Augusta Fonseca (originalmente de 1990, com edição ampliada em 2007). Além do estilo narrativo mais próximo ao gênero biográfico, e com novas pesquisas oriundas de diferentes fontes primárias, sobretudo de revistas e jornais do período, Lira Neto vai mais fundo em certas situações da vida do escritor.

A rigor, se o autor não apresenta nenhuma descoberta relevante sobre a vida de Oswald ou mesmo novas interpretações de sua obra — que passa longe de ser seu objetivo —, o livro expõe, por outro lado, detalhes ignorados e versões mais amplas e complexas de situações já conhecidas, vistas agora de ângulos variados.

Talvez os últimos anos da vida de Oswald merecessem mais um ou dois capítulos. O grupo concretista, decisivo para o futuro da obra do escritor modernista, com quem Oswald chegou a conviver, por exemplo, é pouco mencionado. O livro também não apresenta pesquisa iconográfica nova, e a citação do famoso “poema concreto avant la lettre” que o escritor compõe em Perfeito cozinheiro das almas deste mundo, com o carimbo de uma firma comercial, merecia, ao menos, uma reprodução fac-similar.

Por outro lado, o trabalho de Lira Neto deve grande parte do seu roteiro aos relatos anteriores da vida do escritor modernista. As principais linhas da sua biografia não se diferenciam tanto das demais: a origem abastada, as viagens transatlânticas, os encontros e desencontros amorosos, os anos modernistas, a guinada ideológica ao comunismo, a derrocada financeira e o relativo ostracismo nos anos finais. Mas agora ficamos sabendo que Oswald chegou a ter o nome sujo em treze diferentes bancos e o seu Cadillac era o único da cidade com porta-cinzeiros, entre outros detalhes que tornam a narrativa mais rica e prazerosa.

E de tédio o leitor não morre. Da fortuna que herdou à penúria no fim da vida, das grandes contribuições intelectuais à recepção fria ou negativa de alguns dos seus livros, principalmente os tardios, o percurso de Oswald foi de tudo um pouco, de acordo com a biografia: inquieto, irritante, torpe, genial, cômico, melancólico, ordinário, em suma, mundano e “selvagem”, como diz o título — não se ajustando nem à imagem da glória eterna, associada ao gênio modernista, nem à condenação definitiva, do machista sem escrúpulo, para citar duas colunas máximas da opinião.

Se não apresenta descoberta relevante, o autor expõe versões amplas de situações já conhecidas

De resto, ninguém sabia ofender tão bem quanto o escritor, capítulo importante de sua vida. Ao se referir a Brecheret durante um período de desavença, dizia que o artista estava “fazendo um autorretrato, um cavalo em tamanho natural”. Blaise Cendrars, mutilado de guerra, após os dois se desentenderam, passou a ser chamado de “Blaise Sans Bras”. E quando Lêdo Ivo, durante uma conferência, acusou Oswald de ser “o calcanhar de Aquiles do modernismo”, o escritor se levantou e chamou o palestrante de “chulé de Apolo”, levando a plateia aos risos.

Em carta enviada a Mário de Andrade, citada por Lira Neto, Manuel Bandeira descreveu o tipo de atração que Oswald exercia naqueles que estavam à sua volta, e que poderia resumir também os efeitos de leitura de sua biografia. Bandeira argumentava com Mário que só há dois meios de se defender de Oswald: ou fazendo mais blague e intriga do que ele ou então se afastando. No entanto, concluiu o poeta: “Ambas as coisas são muito difíceis, porque: que sujeito engraçado! que sujeito cínico! que filho da puta gostoso!”

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

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