Trechos,
A vida da atriz
Em ‘Tese sobre uma domesticação’, romance de Camila Sosa Villada adaptado ao cinema, artista travesti se submete às convenções sociais; leia trecho
10maio2024 • Atualizado em: 13ago2024Uma artista travesti que é rica, famosa e invejada, mas que se submete às convenções sociais, atendendo aos desejos do marido, um advogado gay, do filho e da família. Chamada apenas de “a atriz”, é assim a protagonista de Tese sobre uma domesticação, romance que a argentina Camila Sosa Villada define como uma ficção científica e que chega ao Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Silvia Massimini Felix. “Ainda não existe uma figura com a liberdade da atriz”, disse a autora em entrevista a Adriana Ferreira Silva na edição de maio da Quatro Cinco Um.
O palco foi o primeiro ambiente artístico de Sosa Villada, que em 2009 protagonizou o espetáculo Carnes tolendas, retrato escénico de un travesti, que teve enorme sucesso na Argentina e tornou-a conhecida no país. Uma estudante de comunicação social na Universidade de Córdoba que se prostituía para sobreviver, a escritora viu ali a chance de escapar da violência das ruas. Escrito depois do premiado O parque das irmãs magníficas (Planeta, 2021), que consagrou a autora no meio literário, Tese sobre uma domesticação foi adaptado ao cinema, em longa que traz Sosa Villada como protagonista.
O lançamento chega às livrarias junto com outras duas obras da autora: o livro de poemas A namorada de Sandro (Planeta) e o ensaio A viagem inútil: trans/escrita (Fósforo). Com as três publicações, a escritora argentina tem toda sua obra lançada no país e embala sua nova visita ao Brasil como uma das estrelas d’A Feira do Livro 2024.
Leia trecho de ‘Tese sobre uma domesticação’
Prelúdio
— Vá pela General Paz — pede ao motorista —, quero ir por onde tem trânsito e gente.
Não suporta as ruazinhas escuras e despovoadas por onde se evita o tráfego.
Mais Lidas
Chega a sua casa em Nueva Córdoba, na avenida Hipólito Irigoyen, muito perto do centro da cidade e a pouca distância do teatro. Os ipês-roxos estão perdendo as últimas flores, e isso reveste sua rua de tristeza. É uma das coisas de que ela mais gosta da sua casa, a fileira de ipês-roxos desde o início da avenida até a plaza España, e de como ela está perto do que mais precisa, dos cinemas, do trabalho, das farmácias de plantão, dos mercados abertos de madrugada em caso de necessidade. A outra coisa é o marido que a espera. Com certeza está cozinhando, talvez a massa que ele prometeu já esteja pronta. E a outra coisa é seu filho. Um menino brilhante e muito querido. Depois, as plantas. Seu estúdio, os livros, as lembranças de viagem que traz consigo e que deixa juntando pó nas prateleiras das estantes.
Abre a porta passando seu relógio num leitor de QR-code.
O piso do hall do edifício é de mármore rosa e as paredes são cobertas de cima a baixo com espelhos enormes, de uns três metros de altura. Nos espelhos dispostos à esquerda do hall há um desenho feito com batom. Em muitas cores. A atriz, assim que vê o desenho, sabe que são seus batons. Em outra ocasião, seu filho teve um arrebatamento de inspiração vandálica e desenhou nos espelhos. Como no apartamento tudo já está desenhado, como é impossível encontrar um lugar para desenhar naquela casa, ele o
faz no vestíbulo, no terraço, nas paredes do hall, embora isso lhe custe semanas sem internet. Onde há espaço, ele pinta, mancha, grafita. E se algum vizinho o desafia, ele responde que é um direito dele, que sua mãe lhe disse que é um direito das crianças se expressarem, e que isso não faz mal a ninguém.
Os vizinhos se queixam, escrevem bilhetes, pedem reuniões de condomínio, multam-na.
Dessa vez, o desenho é uma mulher dormindo, completamente nua, recostada em almofadas. Tem profundidade e sombreamento, o tamanho é real.
Não pode ser mais gay, pensa a atriz, e depois também pensa nos escândalos que os vizinhos vão fazer por causa daquele desenho obsceno. Há menos de uma semana, uma das vizinhas mais antigas do edifício armou o barraco do século porque o filho da atriz tinha desenhado com giz colorido no santíssimo mármore rosa trazido da Itália.
— Não quero me meter na criação do seu filho, mas pago o condomínio, jamais me atraso, sou uma boa vizinha. Não tenho por que ver esses desenhos na entrada da minha casa.
— Sim, eu entendo. Não se preocupe, vou limpar agora mesmo.
— É que agora mesmo com você e seu marido não existe. Vocês dizem agora mesmo e os desenhos ficam aí dias e dias.
No mês passado, aquele horror pornográfico no espelho ficou lá por três dias e ninguém limpou. Minha faxineira foi quem teve que descer pra apagar.
— Sim, e eu te pedi desculpas por isso. A gente trabalha muito e acaba deixando passar, a gente esquece. Perdão.
— Não é possível que a entrada, que custou tanto dinheiro, agora apareça sempre cheia dessas porcarias. E quando a gente reclama com o menino, ele responde que é um direito dele. Isso foi você quem ensinou pra ele.
O bom é que agora a repreendem pessoalmente. Até poucos meses atrás, recebiam bilhetes embaixo da porta assinados por um grupo de vizinhos, os mais velhos, que diziam coisas como estas:
Senhores proprietários do 18-A:
Seu filho voltou a sujar a entrada com desenhos, dessa vez com giz de cera, material quase impossível de limpar, pois deixa qualquer superfície oleosa. Na semana passada, o mármore das escadas da entrada apareceu pintado com têmpera, dando uma aparência
assustadora ao hall, que é de todos nós. Por favor, estabeleçam um limite para o menino, ou seremos forçados a enviar uma carta documento por danos à propriedade.
A atriz leu o bilhete no banheiro e, depois de fazer tudo o que fez, limpou a bunda com ele.
Apesar da hostilidade por causa da febre artística do filho, ela conta com o apoio dos porteiros e vigias, com a proteção do síndico do condomínio e com sua fama e prestígio, que formam uma grande couraça em torno do garoto. Não podem mais cobrar multas. Ela falou na última reunião sobre seu filho, relatou o processo de adoção e alguns detalhes da vida pregressa dele, contou como ele era bom, o quanto havia aprendido em tão pouco tempo, como sua vida era diferente agora. E, quando eles já estavam em suas mãos, com a guarda baixa, concluiu que era uma crueldade proibir a única criança no prédio de cometer uma travessura tão inocente. Garantiu que limparia todas as vezes, mas que o deixassem fazê-lo.
Agora, o porteiro ri quando a vê olhando para o desenho do filho, carregando os presentes dos seus admiradores contra o peito.
— Tive que tirar uma foto disso e mandar pra minha esposa.
O porteiro é louco pela atriz. Desde que descobriu o quanto ela é famosa, não deixa de lhe demonstrar respeito para distingui-la dos habitantes do prédio. Ele perdoa qualquer falha dela, faz favores, recebe-a sempre com um sorriso e que dia lindo faz quando a senhora chega e o sol saiu porque a senhora apareceu na rua. Elogios melosos que ela aceita como água fresca. Elogios nunca são suficientes para a atriz. Ela, sempre cheia de coisas, sempre atolada pelas suas bolsas, carteiras e presentes, sempre para lá e para cá, como se sua corda nunca acabasse. Ela o cumprimenta por trás de um buquê de copos-de-leite e pede que ele a deixe descansar, que amanhã cedo ela limpará o espelho.
O porteiro lhe diz que não tem problema. Ele não quer tratar mal a mulher que vê de vez em quando na televisão ou em revistas, a mesma que sua filha adolescente admira. Diz: “Sim, como não, claro que sim, a senhora deve estar muito cansada”, enquanto ela espera o elevador. O porteiro acredita que o desenho do filho da atriz é uma lufada de ar fresco naquele prédio de velhos conservados no formol.
Antes que ela entre no elevador, o porteiro olha descaradamente para sua bunda.
Porque você leu Trechos
Movimentos da reconstrução
Nova coletânea da poeta Alexandra Maia acompanha uma mulher em reinvenção, do luto pelo fim de um amor ao renascimento do desejo
AGOSTO, 2026

