Literatura em língua francesa,
Em ‘Por Britney’, escritora francesa usa biografia da cantora para refletir sobre opressão e autonomia feminina
Louise Chennevière escreve ensaio em que a estrela pop e outras personagens são exemplares do que acontece com mulheres em uma sociedade controladora; leia trecho
15abr2026 • Atualizado em: 27abr2026Por Britney, ensaio autobiográfico da escritora francesa Louise Chennevière, chega às livrarias brasileiras pela Ercolano, com tradução de Debora Fleck. Publicado originalmente em 2024, o livro explora o controle exercido sobre figuras femininas e as escolhas em relação ao que fazem com seus corpos.
A partir da trajetória de Britney Spears, estrela pop norte-americana marcada pelo abuso tutelar que sofreu durante anos, e de Nelly Arcan, autora de Puta (Crocodilo, 2021), livro acerca da experiência de uma prostituta de luxo no Canadá, Chennevière mostra os efeitos de um sistema opressor com as mulheres, além de mergulhar nas próprias memórias e reflexões sobre a sociedade e a cultura. Leia um trecho:
Trecho de Por Britney
Britney está com dez anos no palco de um programa de TV, e o apresentador se inclina na direção dela e diz, eu reparei, na semana passada, você tem os olhos mais lindos, mais encantadores que existem, você tem um namoradinho? Ela responde não, porque eles são malvados, e o apresentador fica surpreso, como assim, os namoradinhos, os meninos, e eu, então, o que você acha de mim? e ela, constrangida como vai ficar várias vezes depois, pelo tanto de perguntas mais que descabidas, ééé, bom, depende, mas sempre profissional, educada, como ela se mostra ao agradecer a esse apresentador francês que não vou nomear, não, afinal, será que não são todos iguais, e de que adiantaria lhes dar essa honra, a ele ou a outro qualquer, o mesmo, ele ou o que humilharia a Nelly, que acha que a está humilhando e, no entanto, ela os ofusca, ofusca todo mundo com sua graça e sua coragem, a coragem necessária para se manter firme entre eles, que ficam à espreita e que gostariam de a encurralar, e ela fica vermelha, mas só na ponta das orelhas, graças à base sob a qual todo o seu rosto deve estar queimando, eu vejo quando ela toca na orelha para avaliar o calor que lhe chega da vergonha e que, sei bem, que não conseguimos mais esconder quando o vermelho chega às bochechas, e a gente sabe muito bem o que vermelho significa, sim, claro, a Nelly está com as bochechas pegando fogo, eu conheço essa sensação de sentir apenas isso, a de querer se esconder, mas acabar aparecendo ainda mais, só que ela não pode ir embora, não, ela está ali, encurralada entre os olhares mesquinhos daqueles caras e a raiva daquela mulher que queria pi-cá-la em pedacinhos por ser tão linda e inteligente, a mulher que não fica feliz de ver outras mulheres falando da própria sexualidade desse jeito em público, mas não é disso que se trata, minha senhora, nada disso, ter uma sexualidade não é o que pedem de mulheres como ela, e sim só ter esse ar de, representar isso, o sexo, e ela responde educada, a Britney, depois que o apresentador lhe diz, simulando um olhar cada vez mais lascivo, mas tem uma conotação sexy no jeito como você se mexe, no jeito como você se veste, na sua constituição física, Britney, eu te agradeço, sim, ele agradece por ela ser daquele jeito, como se isso se destinasse a ele, como se fosse algo destinado a todos os homens como ele, como se ela só existisse para eles, a Britney, e, em outra situação, de novo — ela está com dezessete anos e, no entanto, ele diz,você parece ainda mais nova, e depois, no seu clipe…, “Baby One More Time”, você é a mais sapeca das estudantes, mas você não é assim na vida real, né?, porque ele quer mesmo se certificar de que, o apresentador, que é outro e, no entanto, o mesmo, que aquela que o mundo inteiro decidiu, e talvez antes mesmo que ela tivesse plena consciência disso, que ela era um objeto sexual perfeito, ele está preocupado, ele quer se certificar de que, na verdade, ela não tem sexualidade, que ela se mantém direitinho no seu papel de simples superfície de projeção dos desejos de todos os homens do mundo, mas ela que não se atreva a ir em busca do próprio desejo, a se tornar um sujeito sexual, e ela que, depois de ter excitado todos os homens do planeta, vá se recolher bem comportadinha em casa naquele quarto de menina onde fica entediada e sonha com o príncipe encantado.
Porque você leu Literatura em língua francesa
Fanoniando
Ensaios sobre a atualidade do pensamento do teórico martinicano são reunidos em coletânea que chega às livrarias em agosto
JULHO, 2025
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