O escritor, psiquiatra e filósofo Frantz Fanon (Arquivo Frantz Fanon/Imec/Divulgação)

Literatura em língua francesa, Psicanálise,

O pensamento vivo de Frantz Fanon

Coletânea reúne nomes fundamentais do anticolonialismo para discutir o legado do psiquiatra e filósofo nascido há cem anos na Martinica

17jul2025

No mesmo dia em que nasceu Frantz Fanon, cem anos atrás, a coletânea Pensar Fanon chega às livrarias pela editora Ubu. Com textos de grandes autores do pensamentos negro e anticolonial, como Aimé Césaire, bell hooks, Françoise Vergès, Stuart Hall e Achille Mbembe, o livro debate a obra do escritor, psiquiatra, filósofo e combatente da Revolução Argelina, nascido na Martinica e morto aos 37 anos em decorrência de uma leucemia.

Em um intervalo de dez anos, Fanon publicou obras que discutiam linguagem, sexualidade, gênero, raça, religião, educação, socialismo, imperialismo, entre outros assuntos. A partir do imenso legado intelectual deixado pelo autor de Pele negra, máscaras brancas (Ubu, 2020) e Os condenados da terra (Zahar, 2022), os onze ensaios inéditos da coletânea refletem sobre temáticas canônicas e contemporâneas, como feminismo, negritude e a luta palestina. 

Um dos textos incluídos em Pensar Fanon é a homenagem feita pelo escritor, poeta e dramaturgo Aimé Césaire, na ocasião da morte de seu conterrâneo, no dia 6 de dezembro de 1961. Leia a seguir. 

Trecho de ‘Pensar Fanon’

Frantz Fanon morreu.

Nós sabíamos que ele estava condenado há longos meses, mas apesar de tudo, dado o seu caráter tão voluntarioso, nós o imaginávamos capaz de um milagre, de tão essencial ele parecia ao nosso horizonte humano. Mas eis que precisamos nos render à evidência. Frantz Fanon morreu aos 37 anos.

Vida curta, mas extraordinária. Breve, mas fulgurante, iluminando uma das tragédias mais atrozes do século XX e ilustrando de uma maneira exemplar a condição humana, a condição do homem moderno. Se a palavra engajamento tem um sentido, é com Frantz Fanon que ela o assume. Um violento, disseram sobre ele. E é bem verdade que Fanon se tornou um teórico da violência, a única arma do colonizado contra a barbárie colonialista.

Mas sua violência era, sem paradoxo, a do não violento, a violência da justiça, da pureza, da intransigência. É preciso que o compreendamos: sua revolta era ética, e sua démarche, generosa. Ele não aderia a uma causa. Ele se doava. Inteiramente. Sem reticência. Sem divisão. Existe nele o absoluto da paixão.

Médico, ele conhecia o sofrimento humano. Psiquiatra, ele estava habituado a seguir no psiquismo humano o choque dos traumatismos. E, sobretudo homem “colonial”, nascido e inserido em uma situação colonial, ele a sentia, ela a compreendia como ninguém, estudando-a cientificamente, a golpes de introspecção assim como a golpes de observação. E foi diante desta situação que ele se revoltou. Quando médico na Argélia, ele assistiu ao desenrolar de atrocidades colonialistas e se rebelou. Não lhe bastou lutar com o povo argelino, se solidarizar com o argelino oprimido, humilhado, torturado, morto. Ele escolheu tornar-se argelino. Viver, combater, morrer argelino.

Teórico da violência, talvez, mas ainda mais da ação. Por ódio da tagarelice. Por ódio de meios-termos. Por ódio da covardia. Ninguém era mais respeitoso do pensamento, mais responsável diante do próprio pensamento, mais exigente para com a vida, que não poderia, segundo imaginava, ser senão pensamento vivido.

E foi assim que ele se tornou um combatente. Assim, também, que se tornou um escritor, um dos mais brilhantes da sua geração.

Sobre o colonialismo, sobre as consequências humanas da colonização e do racismo, o livro essencial é um livro de Fanon: Pele negra, máscaras brancas. E sobre a descolonização, seus aspectos e seus problemas, o livro essencial é um livro de Fanon: Os condenados da terra.

Sempre, em toda parte, a mesma lucidez, a mesma força, a mesma intrepidez na análise, o mesmo espírito de “escândalo” desmistificador. Provavelmente, outros intelectuais de todas as cores haviam estudado o colonialismo, demonstrado suas engrenagens, explicado suas leis. Mas com Fanon, em um mundo de esquemas, recortes e diagramas, é a invasão da experiência. E a verdade do testemunho ainda palpitante do acontecimento do qual ele é arrancado, a irrupção da vida atroz, o surgimento de explosões iluminadoras de raiva. Frantz Fanon é aquele que te impede de fechar os olhos e de dormir embalado pela boa consciência.

Existe nele, é claro, injustiça, mas sempre em nome da justiça. E do parti pris, mas sem truísmo [lapalissade], por sua própria conta, ele tomou partido, e o certo. Ninguém, eu insisto, era menos niilista, menos gratuitamente violento que Fanon. Como este violento era amor, este revolucionário era humanismo! Que se leia Os condenados da terra: se no último capítulo do

livro ele lança um requisitório passional contra a Europa, não é por subestimá-la, por falta de admiração ao pensamento europeu.

Ao contrário, é por ter se mostrado “parcimoniosa com o homem, mesquinha, carniceira homicida só com o homem”. E não é por acaso que o capítulo consagrado precisamente à violência desemboque nessa frase insólita: “reabilitar o homem, a fazer triunfar o homem por toda parte, de uma vez por todas”.