Quadrinhos,

Libertem Angela Davis

A vida da filósofa e ativista norte-americana ganha uma adaptação em formato de quadrinho

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

De ícone da luta dos direitos civis nos Estados Unidos a uma das principais referências acadêmicas do movimento feminista, além de filósofa respeitada, Angela Davis se destaca não só como participante do grupo dos Panteras Negras e militante do Partido Comunista, mas também por articular uma visão de mundo que abraça raça, classe e gênero, como se vê no livro Mulheres, raça e classe (Boitempo, 2016).

Sua autobiografia foi lançada no Brasil no ano passado, embora tenha sido publicada em 1974. Como um bom complemento a esse livro, chega o quadrinho Miss Davis (Agir), que conta ainda com um texto da filósofa Djamila Ribeiro. De autoria da francesa Sybille Titeux de la Croix e ilustrada por Amazing Ameziane, que já haviam adaptado a biografia de Muhammad Ali para os quadrinhos, a obra traz um panorama da vida da ativista, resgatando figuras importantes do movimento negro dos anos 1960 e 1970, como Martin Luther King e Huey Newton, e mostrando os Estados Unidos a partir de uma perspectiva que desconstrói o sonho americano. 

Militância

A apresentação do programa do Partido dos Panteras Negras abre o quadrinho, reivindicando bandeiras até hoje urgentes para o povo negro americano e de outras sociedades racistas. A hq mostra como episódios de racismo se repetem na vida de Angela Davis: na infância, quando presencia casas sendo incendiadas pela Klu Klux Klan no Alabama, no Sul segregacionista; na vida adulta, com os ataques à sede dos Panteras Negras em 1969. 

Filha de militantes da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas Negras (NAACP, na sigla em inglês), desde criança ela compreendeu que a dignidade era negada para nós, pessoas negras, ao perceber, por exemplo, a estrutura precária da escola reservada à população negra. Seu contato com o Manifesto comunista também ampliou essa visão de mundo, levando-a à militância política e a ser perseguida pelas autoridades, o que acabou com sua carreira como professora de filosofia da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e a fez ser presa em 1972, episódio que toma parte considerável do quadrinho. 

O traço de Amazing Ameziane faz referência aos cartazes dos próprios Panteras Negras

São abordados momentos dolorosos, como o sumiço do pai, a memória social da escravidão, o trabalho da mãe pouco valorizado e a segregação entre brancos e negros — nem mesmo os bebedouros podiam ser compartilhados. Já adulta, faz uma viagem para a Europa, onde encontra as aulas de Herbert Marcuse e Theodor Adorno e se aprofunda nas ideias de Marx, Kant e Hegel. Ao ver as notícias acerca das movimentações dos Panteras Negras, decide voltar para os Estados Unidos e construir o grupo revolucionário em meio às manifestações pela libertação de Huey Newton, um dos líderes do grupo.

Em 1969, ela viaja para Cuba, onde vivencia o processo revolucionário e emancipador perante a colonização. O quadrinho também traz à tona as diferenças dentro das organizações negras e os dilemas quanto ao uso de armas e o desejo de maior interação com os países africanos. A filiação ao Partido Comunista, suas atividades como professora universitária e as ameaças à sua vida fizeram com que adotasse um novo modo de vida. A suspeita de ter se envolvido em atentados foi o início para uma campanha de perseguição nacional e que pôs à prova uma rede de apoio muito forte. O FBI a classificou como a criminosa mais perigosa do país. Por isso, todo mundo parecia ser “ameaçador”, diz um dos trechos da HQ. Assim, ela foi morar em hotéis e usou disfarces para poder circular. Houve temporadas em que vivia completamente sozinha, tendo por companhia apenas os livros e a TV. 

Em meio a essas tentativas de fuga, que duraram dois meses, ela acabou sendo detida em 13 de outubro de 1970 na prisão feminina de Nova York. Nesse local superlotado e em mau estado, Davis ficou isolada no setor psiquiátrico do presídio e fez até mesmo greve de fome para sair do isolamento da solitária. Nada de cigarro, nem sabão, nem livro, nem lápis. Uma das páginas que ilustram a sua prisão tem listras verticais e horizontais, como na bandeira dos Estados Unidos, e a cela de Davis ficou representada no quadrado menor.  

O traço de Amazing Ameziane é repleto de referências a cartazes e ilustrações dos próprios Panteras Negras nos anos 1970. Já De la Croix por vezes se utiliza de recursos realistas na escrita, como quando segue a repórter Seymour June acompanhando o processo judicial. Após um julgamento marcado pelo machismo, Angela Davis consegue sair da prisão. O que não foi suficiente, pois até hoje segue lutando contra o sistema carcerário e a lógica punitivista e racista do Judiciário. Ela inclusive chegou a ser candidata a vice-presidente em 1980 e 1984.

Davis também garantiu a sua própria liberdade por meio do domínio das ideias: seu pensamento nunca foi aprisionado pela estrutura da sociedade. E ela segue indo contra a máquina de moer pobre que é o encarceramento em massa, como se vê em seus escritos, falas públicas e entrevistas, como a concedida no documentário A 13ª Emenda, dirigido por Ava DuVernay e que aborda a situação prisional nos Estados Unidos. A mesma Ava dirigiu o filme Selma, que traz Luther King no período da luta pelos direitos civis. Isso mostra como as ideias da ativista seguem indispensáveis para o pensamento progressista contemporâneo. Já quase no final da hq um gráfico apresenta como os números da população carcerária nos Estados Unidos só aumentaram nos últimos anos — assim como no Brasil. Em meio à selvageria do consumismo e do liberalismo, Miss Davis segue incomodando o sono dos injustos que mantêm as desigualdades.

Quem escreveu esse texto

Jefferson Barbosa

Jornalista, membro da Coalizão Negra por Direitos, Global Fellow da Fundação Ford, foi fundador dos coletivos PerifaConnection e Voz da Baixada e autor de Mãe do mundo: vida e lutas de Mãe Beata de Yemanjá (Malê, 2023).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.