Quadrinhos,

A verdade em um mundo de mentiras

Quadrinho reflete sobre o funcionamento das ‘fake news’ ao narrar o desaparecimento de uma jovem

27ago2020 - 02h45

Em 2016, a Universidade de Oxford elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano. O momento foi marcado por um ápice no debate público sobre as fake news, advindo especialmente da eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, aconteceu o Brexit, em meio a diversas denúncias de notícias falsas sendo veiculadas nas mídias sociais. Em 2018, o Brasil enfrentou o mesmo fenômeno na disputa presidencial, que elegeu Jair Bolsonaro. Dentro desse turbilhão de informações — e desinformações, Nick Drnaso lançou a HQ Sabrina no mesmo ano da eleição brasileira. Ela retrata o desaparecimento da menina que dá título ao volume e como esse caso gera uma onda de teorias da conspiração e de notícias falsas. A obra foi o primeiro quadrinho indicado ao Man Booker Prize, um dos principais prêmios literários de língua inglesa.

Esse reconhecimento já mostra como Drnaso construiu seu livro como uma espécie de fascículo do nosso tempo. A HQ deixa isso claro logo nas primeiras páginas, quando vemos Sabrina e sua irmã Sandra em um diálogo envolvendo desaparecimento, a verdade e a mentira. O embate sobre o que “é” verdadeiro e o que “não é” é representado de forma metalinguística quando Sandra fala sobre uma maçã: “Esqueci que isto aqui era falso”. Em seguida, Sabrina responde: “Pintei todas de novo. Parecem de verdade, né?”. Parece ser apresentado até uma referência ao artista belga René Magritte e sua obra “Isto não é um cachimbo”, de 1929. O cachimbo não passa de uma representação, uma imagem, e não o objeto em si, assim como a maçã no diálogo. Onde se encontra, portanto, a verdade dentro das pequenas coisas do mundo contemporâneo?

Os protagonistas

Apesar da relevância da personagem-título para a trama, os verdadeiros protagonistas são Teddy e Calvin. O primeiro é o namorado de Sabrina e, após seu sumiço, acaba indo para uma cidade distante passar um tempo na casa de um antigo amigo do colégio, Calvin. A relação dos dois é representada de modo bastante frio. A relação insípida entre ambos coloca um olhar desconfiado sobre o namorado da mulher desaparecida. Ele poderia estar envolvido de uma alguma forma com o desaparecimento? Por que sua reação nunca é verdadeiramente emotiva no início? Drnaso levanta esses pontos como necessários para o questionamento do próprio leitor, trazendo espécies de sementes de como a “pós-verdade” pode ser plantada. A própria ideia de o leitor desconfiar do personagem já o torna um ser ativo dentro desse ciclo — o que é desenvolvido na segunda parte da obra.

Já Calvin trabalha no setor de vigilância no Exército americano e vive uma rotina própria dentro de sua bolha. É possível, inclusive, traçar um paralelo do mundo do personagem ao das “bolhas” da internet. Sua interação com Smith, um colega de quartel, se torna fundamental para o entendimento de como a desinformação de um possível envolvimento de Calvin no desaparecimento adentra grupos nas redes sociais. Ele será vítima da situação, enquanto alguns indícios  apontam Smith como um agente gerador das mentiras. Um ciclo da fake news, então, se inicia.

O autor faz esses paralelos com o objetivo de alertar o leitor sobre o que está por vir e mostrar como essa rede funciona a partir de pequenos elementos até se tornar algo gigantesco. O desaparecimento de Sabrina é, inicialmente, ignorado por boa parte da mídia. No entanto, uma fita é revelada, levantando possíveis respostas, e é nesse momento que a teia começa a se entrelaçar.

A mídia e a internet

O caso começa a ganhar repercussão midiática através de duas vias na narrativa de Nick Drnaso: a especulação e espetacularização de crimes pela mídia e a formação de fóruns de debate na internet. Teddy, sozinho em casa enquanto seu amigo vai para o trabalho, ouve na rádio um comentarista que vê o funcionamento do mundo permeado por teorias da conspiração. Sua primeira fala ao ligar na transmissão é: “Vamos aos fatos. A sociedade entrou em um estado de anomia e não tem volta”. O fatalismo da situação e um olhar sempre relacionado à morte geram comparativos claros com programas de televisão que espetacularizam crimes, na linha de Cidade Alerta, além de veículos menores, que propagam desinformação como realidade — algo corriqueiro entre alguns admiradores do presidente Bolsonaro.

Há também o desenvolvimento de teorias inventadas na internet, que buscam já criar culpados, mesmo sem nenhum respaldo judicial. Calvin se envolve demais com a história toda e — de modo irônico — vive com medo constante de estar sendo vigiado. A todo instante recebe e-mails que o colocam como culpado da situação, e ele se sente vigiado mesmo andando por uma praça.

É interessante perceber como a construção por uma coerência que prescinde de provas toma conta não só do pensamento social da trama, mas também do mundo real. Durante as eleições no Brasil, enquanto setores da direita propagavam diversas informações falsas sobre o candidato da esquerda, Fernando Haddad, setores da esquerda tratavam a facada de Bolsonaro como sendo falsa. O mesmo caso acontece durante a pandemia do novo coronavírus. As teorias da conspiração ganham força em meio à falta de informação, como traz o quadrinho.

Após todos os embates e essa busca pelo real, o caso de Sabrina perde força na mídia impressa e na internet, porém deixa marcas profundas em quem se viu envolvido na história. Perto do fim, Nick Drnaso deixa claro o clima de terror social, presente em todas as esferas da sociedade, criado pela “pós-verdade”.

Assim como o questionamento trazido por Alan Moore em Watchmen é “quem vigia os vigilantes?”, a questão final de Sabrina poderia ser “o que poderia ser verdade em um mundo de mentiras?”. A resposta ainda está em aberto.

Quem escreveu esse texto

Cláudio Gabriel

É jornalista.