Psicologia,

O retorno do recalcado

Coletânea resgata textos do revolucionário psicanalista Otto Gross, cuja obra foi infantilizada e diminuída em seu alcance e potencial

01fev2021 - 01h00 | Edição #42

Em tempos sombrios como os que vivemos, nos quais a força da democracia é colocada em xeque, é muito profícua a reedição de um livro de psicanálise que libera dos escombros do recalcamento um pensamento e uma ação tão livres quanto foram aqueles protagonizados pelo psicanalista Otto Gross (1877-1920), tanto em sua vida como em sua obra. Apresentado à posteridade como um enfant terrible que não pôde ser domado, reconhecido até mesmo por Freud como um intelectual promissor que sucumbiu às drogas e à loucura, Otto Gross foi retirado dos anais da historiografia oficial da psicanálise e sua obra, questionadora e disruptiva, foi infantilizada e diminuída em seu alcance e potencial.

Assim, tanto pelo aspecto ideológico como pela contribuição teórico-clínica, é louvável a iniciativa de Marcelo Checchia, Paulo Sérgio de Souza Jr. e Rafael Alves Lima, organizadores dessa reedição da editora Annablume, de publicar a mais completa coletânea de escritos de Otto Gross sobre ética, política e psicanálise. Importante salientar que esse livro se constitui, também, em uma ação reparadora e terapêutica, pois reintroduz no centro da cena psicanalítica aquilo que dela foi expurgado, tornando-se assim veículo para o retorno do recalcado, uma oportunidade concreta para que aquilo que foi excluído possa reassumir seu lugar, confrontando e desmontando a narrativa historiográfica oficial e permitindo, enfim, que possamos construir novas versões para aquilo que queremos de nossa história. E é este mesmo o papel do psicanalista: abrir e sustentar as brechas para que aquilo que foi proscrito possa se fazer presente novamente.

Não há neutralidade na narrativa histórica, não há nenhum método que capacite o historiador a se colocar do lado de fora de seu relato e a formular uma história geral e universal inatacável, que o resguarde dos conflitos entre as diferentes forças político-econômicas que atuam no contexto que o configura e de que participa. Portanto, é sempre importante saber quem é aquele que narra a história e para quem é narrada essa história que foi construída. A narrativa historiográfica responde, assim, a desígnios ideológicos conjunturais e é escrita para garantir que certas perspectivas sejam validadas como verdadeiras e para escamotear as lacunas dessas narrativas, ou seja, para esconder as brechas do discurso pelas quais outros tantos pontos de vista e entendimentos poderiam ser assumidos. 

O processo de montagem da história da psicanálise não difere daquele que orienta o método de produção historiográfica, e a memória concebida nesse processo certamente convém a intenções ideológicas confessadas ou inconfessáveis. Nesse sentido, Por uma psicanálise revolucionária possibilita que identifiquemos as motivações políticas e científicas intrínsecas à construção da historiografia psicanalítica, o que amplia nosso interesse em saber quem foi Otto Gross, imaginar por que suas contribuições e sua figura teriam sofrido um processo de exclusão da história oficial da psicanálise e recuperar sua relevância para o momento atual. 

Trajetória

Nascido em 17 de março de 1877, filho único de uma típica família austríaca burguesa tradicional, de colorido patriarcal e autoritário, Otto pareceria, de início, acompanhar bem de perto os passos de seu pai, médico mundialmente reconhecido como o “pai da criminologia científica moderna”, um dos principais defensores, assim como Cesare Lombroso, da teoria da degenerescência. Para Hans Gross, criminosos, vagabundos, psicopatas, perversos, assim como homossexuais, conformavam a escória da humanidade e, como tal, deveriam ser excluídos da convivência em sociedade. Dedicando-se exclusivamente aos estudos, apartado do convívio social com outras crianças, Otto cresce no interior da redoma familiar, formando-se médico aos 22 anos e tornando-se doutor ao defender uma tese sobre os efeitos de diferentes drogas sobre o psiquismo.

A virada em sua vida se dará nos seis meses seguintes, quando, como médico de navios mercantes, faz uma série de viagens que o trazem à América do Sul. Distanciado da vigilância paterna, Otto abre-se para a experiência com drogas, estabelecendo uma relação de dependência de ópio, cocaína e morfina de que não se livrará até o final da vida. Em seu retorno à Europa, trabalha como neurologista e se dedica a pesquisas científicas nas quais conjuga o conhecimento adquirido em fisiologia, anatomia e psiquiatria a uma visão mais ampla das determinações do sofrimento psíquico, na qual as injunções ético-políticas são também decisivas. 

Longe do pai, Otto abre-se para a experiência com drogas, como ópio, cocaína e morfina

É em 1902, quando busca voluntariamente por reabilitação, internando-se no Hospital Psiquiátrico da Universidade de Zurique — o famoso Burghölzi —, que conhece Carl Gustav Jung, com quem inicia um processo de análise. Foi provavelmente nesse mesmo ano que teve seu primeiro contato com a obra de Sigmund Freud, a quem conheceu pessoalmente em 1904.

A partir desse momento assume posições que contrastam abertamente com aquelas defendidas por seu pai, e não só no campo teórico-clínico: casa-se e, com sua mulher, Frieda Schloffer, junta-se a uma comunidade em Ascona na qual a vida se dava sob valores anarquistas e comunistas, com a defesa da liberdade sexual e da independência com relação às leis do Estado imperialista, colonialista e capitalista — uma ordem reiterada e mantida pela família patriarcal. Tal experiência, aliada aos conhecimentos da disciplina psicanalítica, resulta num projeto vivencial de revolução sexual anarquista, avesso à heterossexualidade normativa e à monogamia, que contesta a repressão das manifestações da sexualidade e se opõe à dominação das mulheres pelos homens.

São esses os ingredientes para a construção de uma obra potente que se contrapõe à autoridade instituída e que tem na psicanálise um dos alicerces para a promoção de um espírito revolucionário e libertário. Sua vida segue os ditames de sua obra, que reflete o que experimenta em vida. Aquilo que poderia ser compreendido num viés patologizante como uma revolta edipiana contra a autoridade paterna é revolta contra o autoritarismo. Autoritarismo que se revela na prepotência tirânica e totalitária de Hans Gross, que se reapresenta na figura autoritária de psicanalistas que não compreenderam as proposições de Otto Gross e que, não sendo capazes de domesticá-lo, acabam por excluí-lo do movimento psicanalítico; autoritarismo que retorna na força arbitrária do Estado, que procurou aliená-lo de seus direitos, que o perseguiu, ameaçando-o com prisão ou internação em instituições psiquiátricas. 

Essa história se encerra em circunstâncias dramáticas. Inquieto e questionador, Otto Gross excede o espaço do instituído. O mundo em que pode viver ainda não existe; é o mundo que Otto concebe em seus textos e que propõe como sua vida, um mundo a ser inventado. Tal como um herói trágico, Otto Gross morre de frio e de fome em suas deambulações pelas ruas de Munique. Intelectuais reconhecidos em toda a Europa ocidental, amigos e seus pacientes lastimaram seu destino, testemunhando o potencial transfigurador de sua presença. 

Para nós, surge a oportunidade de retomar suas proposições, aproximando-as de uma série de novas experiências que vão tomando corpo em São Paulo, para também enriquecê-las. São as clínicas cidadãs, clínicas públicas e democráticas, ações que vêm conquistando o mundo, espalhando-se por outras cidades brasileiras. Práticas que revelam uma psicanálise capaz de se manter atual, sempre em movimento, atenta e receptiva a todos que podem ganhar com seu potencial. Clínicas que se orientam pela ética psicanalítica, ética da liberdade e do desejo, ética da abertura e respeito ao outro, ética que sustenta também o legado que Otto Gross deixou para todos nós.

Quem escreveu esse texto

Noemi Moritz Kon

Co-organizou O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise (Perspectiva).

Matéria publicada na edição impressa #42 em janeiro de 2021.