Psicologia,

O divã indiscreto

Jornalista francesa convida psicanalistas a falar sobre seus pacientes preferidos

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

Didier chega ao consultório de Gérard Bonnet escoltado por dois enfermeiros. Quando era adolescente, matou a facadas uma idosa, sua vizinha. Apesar de tudo, o psicanalista decide escutá-lo com o que chama de “neutralidade benevolente”. Os anos passam e, ao ouvir um dia sobre a história encoberta da avó paterna de Didier, Gérard percebe que está chegando a hora em que o analisando precisará falar sobre a sua “passagem ao ato” e Bonnet, por sua vez, terá de ouvir, sem demonstrar medo ou incômodo, os pormenores repulsivos de um assassinato.

O escritor e psicanalista Philippe Grimbert observa Georges, pediatra aposentado em tratamento contra um câncer de intestino, e se pergunta qual a vantagem de fazer terapia a essa altura (e ainda com os dias contados). O paciente relata que passou a vida sem sentir nem demonstrar emoções, causando profunda frustração na família, e quer tentar ser um homem diferente. Philippe conclui que insensível, de fato e a priori, foi a sua indagação.

Laure sofre de vulvite, uma inflamação na genitália. Chega ao consultório de Jacqueline Schaeffer recusando-se a se sentar, e a analista já vai logo avisando: “Não é o mal que a faz sofrer que me interessa, é você”. 

Uma das primeiras pacientes do jovem Serge Hefez é Elena, atriz “bela, esbelta e cheia de charme”. Durante as supervisões de Serge, ele se excita ao falar dela e dos progressos da análise. Conclui que, assim como a atriz vinha desempenhando o papel de “paciente perfeita”, ela, muito ardilosa, ainda lhe concedia o prêmio coadjuvante de “analista do ano”.

Aimée, muito culta e aparentemente organizada, é também psicótica: escuta vozes que a maltratam e insultam. Ela procura Nicole Anquetil e diz que não está doente. Precisa apenas de uma profissional que a escute ler tudo o que vem colocando no papel há meses, tudo o que as tais vozes lhe dizem. Juntas, elas vão escrever um livro bastante premiado na França chamado As vozes. Aimée (nome obviamente fictício, como todos os expostos nesse livro) nos faz lembrar Schreber (O caso Schreber, Freud, 1911), outro célebre escritor psicótico, autor de Memórias de um doente dos nervos, justamente para provar que não estava insalubre.

Lembranças

Essas são algumas das histórias preciosas que dezessete dos melhores psicanalistas e psiquiatras da França contaram para a jornalista Violaine de Montclos. A pergunta “qual o seu paciente preferido?” trouxe para esses profissionais lembranças doces (uma garotinha com ciúme da irmãzinha mais nova), emocionantes (uma avó que precisa reaver a história da família para que sua neta parasse de carregar nas costas um peso tremendo), tristes (um jovem extremamente talentoso com potencial suicida) e, sobretudo, fundadoras para os especialistas. Muitos dos psicanalistas relatam como inesquecíveis os casos em que fenômenos descritos nos manuais como a transferência e o famoso efeito espelho se deram de forma tormentosa, trazendo para o enredo o próprio passado deles, ainda precisando ser digerido. 

Parece um pouco perdido o desejo de Violaine de agradar a psis e não psis, de produzir um material ao mesmo tempo literário e jornalístico

A sensação de estar dentro de variados consultórios, em diferentes décadas, tendo a oportunidade de saber, ao mesmo tempo, sobre pacientes labirínticos e profissionais apaixonados, é arrebatadora. Saber das inseguranças e sofrimentos literalmente por trás do divã, na pele dos analistas, é sempre um material inestimável.

A maioria dos casos é fascinante e vai despertar nos leitores o ímpeto de devorar suas páginas. Contudo, fica a sensação de que a festa acaba muito rápido, que a complexidade apresentada é solucionada com a simplicidade de um resumão. Talvez a ideia fosse mesmo transformar em apuração jornalística o trabalho lento, demorado e intrincado produzido em um divã, mas, ao menos para mim, a condensação decepciona um pouco.

Para leigos do mundo psi, como afirma ser a autora, os capítulos funcionam como um inquietante drama psicológico, mas cada história se desenrola mais rapidamente do que nosso desejo de se deixar seduzir por elas — e sempre com um último parágrafo meio de autoajuda, ao estilo “a psicanálise o libertou”, ou ainda lembrando o final do desenho do He-Man, com Violaine explicando o que cada personagem aprendeu no desenho de hoje. 

Para psicanalistas ou estudantes de psicanálise (meu caso) imagino que o livro interesse profundamente (li tudinho em um dia), mas frases como “a quintessência do que é ou pode ser a psicanálise” ou “ele vai salvá-la com uma simples frase” ou ainda “médico das almas” podem incomodar. A autora, no texto “Uma criança sobre a viga”, escuta o professor Roland Gori narrar sobre Allan, homem “com grande receio de ser desapossado”, que põe o analista na posição do “Outro”. E escreve assim, com letra maiúscula, sem se aprofundar na teoria supercomplexa da constituição do sujeito em Lacan.

Repórter

Parece um pouco perdido o desejo de Violaine de agradar a psis e não psis, de produzir um material ao mesmo tempo literário e jornalístico. De apresentar um livro com tema psicanalítico sem nos contar, na abertura, que vem estudando Freud ou Lacan, que faz ela própria terapia há anos e que se interessa pelo tema para além dos olhos curiosos de repórter.

Mas, feitas essas críticas (e eu ainda diria que a tradução merece uma revisão mais apurada), o que me resta é concluir que eu leria muito mais páginas sobre cada caso apontado, e que, para uma não entendida em psicanálise, o resultado do trabalho de De Montclos instiga, informa, diverte e emociona bastante. Ser uma obra mais acessível do que boa parte da literatura psi tem seus méritos (e não são poucos), e este livro pode ser tão bom quanto foi a ideia de entrevistar esses renomados nomes da psicanálise francesa. 

Quem escreveu esse texto

Tati Bernardi

Escritora e roteirista, é autora de Homem-objeto e outras coisas sobre ser mulher (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.