Política,

Revolucionário (mas sem a palavra revolução)

O romance "O que fazer?" formou a essência do caráter bolchevique e influenciou Lênin, que publicou livro com o mesmo título

01jun2020 - 01h00 | Edição #34 jun.2020

É possível dizer que o romance de Nikolai Tchernychevskii (1828-89) O que fazer? é o segredo mais bem guardado da literatura russa do século 19. Como afirma o pesquisador Joseph Frank — biógrafo de Dostoiévski —, “nenhuma obra na literatura moderna” pode competir com o romance de Tchernychevskii “em seu efeito sobre vidas humanas e em seu poder de fazer história”, tendo também fornecido “a dinâmica emocional que posteriormente veio a produzir a Revolução Russa”. Um livro revolucionário que, no entanto, jamais emprega a palavra “revolução”.

Encarcerado em julho de 1862 sob a acusação de subversão, Tchernychevskii escreve seu romance na prisão em quatro meses, na passagem de 1862 a 1863. É preciso registrar que o ano de seu encarceramento marca uma data fundamental para a literatura ocidental, com a publicação de quatro obras-primas: Os miseráveis, de Victor Hugo; Salammbô, de Gustave Flaubert; Pais e filhos, de Ivan Turguêniev; e Memórias da casa dos mortos, de Dostoiévski. Surpreendentemente, o romance passou a censura, chegando até as mãos do editor da popular revista O contemporâneo – ele perdeu o manuscrito em um táxi. Diante disso, o editor publicou um anúncio no jornal oficial da polícia de São Petersburgo para tentar reaver o manuscrito: “Foram os próprios policiais russos que conscienciosamente salvaram do esquecimento o romance mais subversivo da literatura russa”, comenta Joseph Frank. 

O romance ‘O que fazer?’ é o segredo mais bem guardado da literatura russa do século 19

O que fazer? conta a história de Vera, jovem de classe média que foge e se casa com Lopukhov, estudante de medicina, para evitar um arranjo matrimonial prévio organizado por sua mãe, Maria Aleksevna, uma viúva tirana. “Os arranjos para o casamento não foram muito elaborados nem exatamente convencionais”, escreve Tchernychevskii. “Dois dias depois da conversa em que se anunciaram como noivo e noiva, Verinha estava contente com a libertação próxima.”

Depois da libertação, a vida de Vera deslancha. O leitor acompanha a progressiva expansão de sua personalidade em direção a marcas sociais de distinção, numa clara e didática aplicação de sua educação socialista: Vera monta uma cooperativa para fabricação de vestidos, um ateliê que reúne um grupo de garotas talentosas a quem explica o valor da responsabilidade compartilhada e da divisão igualitária dos lucros. “O caráter do ateliê, seu espírito, seu sistema se baseia no consenso de todos.” Vera não é apenas uma trabalhadora entre trabalhadoras, e logo se torna uma professora: “Vera Pavlova viu a possibilidade de introduzir o ensino propriamente dito. As moças revelaram-se tão curiosas e o trabalho corria tão bem que decidiram criar, no meio do dia de trabalho, um pouco antes do almoço, uma hora específica para ter aulas”. 

Reviravoltas

A situação sentimental de Vera, contudo, se complica — e não poderia ser diferente. Afinal de contas, estamos diante de um romance russo do século 19, enorme, complexo e cheio de reviravoltas. Depois de um período de atividades e realizações em comum, o leitor acompanha o desenvolvimento de Vera para além dos limites estabelecidos por seu casamento. Lopukhov, com seu passado de acadêmico ainda vivo dentro de si, aprecia seus momentos de solidão e de recolhimento; Vera, por sua vez, estimulada pela convivência permanente com outros olhares e outras vozes na cooperativa, tem uma natureza mais expansiva e uma tendência à socialização que o marido não acompanha. “Lopukhov não a atrapalhava em nada, e nem ela o atrapalhava, mas isso era tudo”, escreve Tchernychevskii. 

O que podemos aprender sobre a Revolução Russa em menos de 300 páginas?

Vera não demora a se apaixonar por um homem cujo caráter é mais condizente com a evolução da sua trajetória. Ele é um amigo de Lopukhov, um jovem médico de muito talento chamado Kirsanov (“acham que estou reorganizando um ramo inteiro importante da medicina: a teoria da função do sistema nervoso”), e tão sociável quanto Vera. 

Nesse ponto, Tchernychevskii faz uma escolha que é, ao mesmo tempo, contraintuitiva e intrigante: Lopukhov decide deixar o caminho livre para Vera viver sua paixão por Kirsanov e opta, de forma surpreendente, por um falso suicídio — essa morte acompanha o leitor desde o primeiro capítulo, sendo pouco a pouco recontextualizada pela narrativa. “Eu tirei a calma de vocês”, diz o bilhete do suicida. “Não lastimem. Amo vocês dois tanto que estou muito feliz com a minha decisão”. 

O tradicional excesso emocional da literatura russa do século 19 se encontra também em O que fazer?. Tchernychevskii, contudo, se esforça para esvaziar um pouco a pressão desse excesso a partir de um constante contato dialógico com o leitor. “Você, público leitor, tem boa vontade, muita boa vontade, e, por isso, não tem nem esperteza nem discernimento”, escreve o autor já nas primeiras páginas. O procedimento se repete ao longo de todo o romance, oscilando entre o registro didático, irônico e magnânimo, por vezes com a intenção de levar o leitor a uma percepção diversa da narrativa, por vezes com a intenção de condenar a previsibilidade das reações do leitor. O destino de Vera, seus dois maridos e sua cooperativa servem a Tchernychevskii como plataformas de reflexão acerca das regras do contrato social: cada experiência deve prover aos envolvidos suas próprias regras de atuação — é preciso deixar de lado aquilo que em diz a tradição, o costume, o hábito familiar. 

Influências

Nas palavras de Joseph Frank, Tchernychevskii foi o primeiro a elaborar a “decisiva fusão” do “modelo hagiográfico” da religiosidade russa (baseado na renúncia e na abnegação) com “o calculismo friamente desapaixonado do utilitarismo inglês”. Essa fusão formará a “essência do caráter bolchevique” e será Vladímir Lênin o responsável pela adaptação, propagação e atualização das ideias de Tchernychevskii no século 20. Lênin escreveu seu panfleto O que fazer? em 1901 e o publicou em 1902. Sua relação com o romance, contudo, remonta a 1887, quando seu irmão mais velho, Aleksandr, é enforcado em São Petersburgo por planejar o assassinato do tsar. Em homenagem ao irmão, Lênin começa a ler metodicamente o romance de Tchernychevskii, um dos livros favoritos de Aleksandr. 

O panfleto de Vladímir Lênin, no entanto, não oferece a leitura fluida e dinâmica do romance de Nikolai Tchernychevskii, embora seja interessante refletir sobre a reutilização do título. A argumentação densa de Lênin busca dissecar as múltiplas camadas — políticas, econômicas e jurídicas — da relação histórica entre burguesia, marxismo e organização partidária, oscilando entre proposições teóricas e indicações práticas visando à ação coletiva. 

Com relação a esse último ponto, é possível reconhecer alguns ecos de Tchernychevskii em Lênin em frases como: “As organizações operárias para a luta econômica devem ser organizações sindicais. Todo operário social-democrata deve, na medida do possível, apoiar essas organizações e nelas trabalhar ativamente”. Mas a principal razão para a reutilização do título parece ser o desejo de Lênin de alcançar, desde o início e mesmo antes da leitura do panfleto, uma sorte de terreno compartilhado pelas gerações. Dado o sucesso ininterrupto do romance, Lênin podia ter a certeza de que a mera visão de seu título chamaria a atenção de seu público.

De resto, a força propositiva da questão faz boa parte do trabalho: o que fazer? Quando um texto escrito se posiciona diante do leitor com uma pergunta, a primeira expectativa que se forma no lado da recepção é a de uma resposta. Trata-se daquilo que o senso comum se apropriou com a expressão “pergunta retórica”. Com seu título, Lênin mata dois coelhos com um único golpe: atrai seu público com uma fórmula familiar e, ao mesmo tempo, promete a exposição de uma resposta (e um conjunto de diretrizes de ação) para o leitor. Em paralelo, Lênin faz uso de outra estratégia discursiva, aquela da “falsa modéstia”: “ao pedido de desculpa pelo atraso”, escreve ele no prefácio à primeira edição, “devo ainda acrescentar as desculpas pelos enormes defeitos literários desta brochura: tive de trabalhar com extrema pressa, sendo, além do mais, interrompido por diversos outros trabalhos”. Conhecendo o intelecto prodigioso do autor, sabemos mesmo antes de encarar o panfleto que a advertência é só uma estratégia. Além disso, fica claro que as “desculpas” funcionam como um dos modos de Lênin conjurar o espectro de Marx — aquele que sempre trabalhava com “extrema pressa”, homem de ação e de pensamento, sempre envolvido com “diversos outros trabalhos”. 

Lênin será responsável pela propagação das ideias de Tchernychevskii no século 20

Mas Tchernychevskii não é o único escritor a compor o raciocínio de Lênin em O que fazer? Ao lado de nomes incontornáveis para seus propósitos, como Marx, Engels, Dühring, Sidney e Beatrice Webb, Lênin também cita escritores como Górki, Aleksandr 
Herzen e Nikolai Gógol. O último tem uma posição privilegiada no sistema de exposição de Lênin: ao fazer referência à “luta de classes do proletariado” como “experiência histórica”, tomando o exemplo da França, Lênin escreve que “fazer referência à ‘intransigência’ dos franceses — além do seu significado ‘histórico’ (no sentido de Nozdriov) — é apenas uma tentativa de dissimular, sob palavras fortes, fatos muito desagradáveis”. Uma nota de rodapé do editor informa que “Nozdriov” é um personagem de Almas mortas, de Gógol, que personifica o tipo de indivíduo presunçoso, sem cerimônia e falso. Além disso, ficamos sabendo que Gógol chamava Nozdriov de “homem histórico” porque, onde quer que aparecesse, surgiam escândalos e “histórias”. Lênin, portanto, usa não apenas o personagem de Gógol, mas também sua concepção da polêmica como cortina de fumaça, que impede o acesso à discussão verdadeiramente útil. 

Como conclusão, é possível perguntar: quais elementos do romance de Tchernychevskii são levados adiante pelo panfleto de Lênin? Em linhas gerais, a ideia de que a revolução social é necessária porque a infelicidade de uma multidão indistinta forma a base para a felicidade egoísta de uma minoria. Agora que já sabemos “o que fazer”, só falta resolver o “como fazer”. “Ergam-se de seus esgotos subterrâneos, meus amigos”, escreve Tchernychevskii. “Experimentem: desenvolvam-se, desenvolvam-se!”

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #34 jun.2020 em maio de 2020.