Política,

Por dentro do islã

Crônicas do intelectual tunisiano Abdelwahab Meddeb desmontam estereótipos para descrever a modernidade árabe-islâmica

01jan2022 - 04h51 | Edição #53

Não faltam livros nas prateleiras sobre as diferenças entre o dito Ocidente e o islã. Tampouco faltam referências sobre a suposta inabilidade das regiões de cultura árabe de alcançar o tal mundo desenvolvido — ou seja, a Europa e os Estados Unidos. O que carecemos mesmo é da literatura de contramão, aquela que desmonta essas ideias orientalistas.

É o que as Edições Sesc trazem com o lançamento de O tempo dos inconciliáveis, do pensador tunisiano Abdelwahab Meddeb. No livro, Meddeb — morto em 2014 — contradiz esses estereótipos e descreve a modernidade árabe-islâmica com termos mais otimistas, com nuances.

O tempo dos inconciliáveis reúne crônicas do intelectual tunisiano veiculadas na França, onde ele morou. São pequenos ensaios sobre temas como islã político e secularismo. De leitura fácil, conveniente para deixar na cabeceira e ler um a um, para complicar as ideias que recebemos da imprensa e dos comentaristas políticos, obcecados no terrorismo.

Estereótipos

Um dos temas centrais dessa obra é a insistência de Meddeb em corrigir os estereótipos persistentes sobre o islã, aqueles que descrevem essa religião a partir de uma lente contemporânea que ignora sua rica história. O mundo que Meddeb descreve é o das “maravilhas do islã”, nas palavras dele, e não o dos atentados terroristas e da violência contra a mulher.

Com isso, Meddeb se posiciona no campo oposto ao do historiador belga Henri Pirenne (1862-1935), autor de uma tese que — apesar de desacreditada — ainda informa intelectuais. Segundo Pirenne, os impérios árabes fecharam o Mediterrâneo ao comércio europeu no início da Idade Média e, com isso, criaram uma linha intransponível entre muçulmanos e cristãos, separando o norte da África do sul da Europa. Foi esse isolamento europeu, para Pirenne, que permitiu que a dinastia carolíngia se desenvolvesse sob Carlos Magno e “inventasse” a Europa. Hoje sabemos que não foi bem assim. Impérios cristãos e muçulmanos estavam em disputa, sim, mas também por vezes se aliavam. É bem conhecida, nesse sentido, a história do elefante que o califa Harun al-Rashid teria enviado a Carlos Magno durante suas trocas diplomáticas. 

Passado intelectual

O mundo islâmico, ademais, contribuiu de maneira inegável para o desenvolvimento intelectual da Europa. Por exemplo, com as traduções de textos gregos para o árabe que, caso contrário, teriam sido perdidos. “Na origem da Europa, certamente temos Atenas e Jerusalém, mas também temos Roma, Bagdá e Córdoba”, nas palavras do pensador tunisiano. Não é o mundo de Pirenne, mas o de Meddeb.

A insistência de Meddeb nas contribuições das maravilhas do islã não é feita à toa, para cutucar os europeus. Os olhos dele estão, na verdade, no próprio mundo de cultura árabe e islâmica. Reconhecer esse passado intelectual rico é uma maneira, para ele, de lembrar aos próprios árabes e muçulmanos que sua história não é a de um fundamentalismo inescapável, de terrorismos. Há na história dessas regiões um exemplo de que o radicalismo não é a única opção disponível.

“Precisamos retornar ao islã como civilização e extrair de seu fundamento glorioso as formas de participar na reorientação de nosso tempo”, ele escreve. “Com isso, restauraremos a pertinência da referência islâmica. Dessa referência, abandonaremos justamente aquilo que é fetichizado pelos islamistas niilistas, ou seja, o político e o jurídico. Privilegiaremos a ética e a estética.”

Conversa direta

O diálogo com os árabes e muçulmanos é o eixo central do livro de Meddeb, que não pode ser entendido pelo egocentrismo europeu e americano, que acredita que todo o mundo dirige sua fala a eles. Meddeb conversa diretamente, afinal, com o mundo de cultura árabe e islâmica. Isso apesar, é claro, da especificidade dessa conversa. Meddeb morava na França e escrevia em francês, muitas vezes atingindo assim apenas as camadas mais abastadas e as diásporas.

Sua intervenção nesse campo se marca por um profundo conhecimento da história e dos textos sagrados do islã. Meddeb não fala de fora, mas de dentro. E usa os argumentos dos fanáticos religiosos contra eles mesmos. Por exemplo, ao criticar a perseguição de terroristas contra cristãos e muçulmanos, Meddeb recorda um versículo do Corão, o livro sagrado do islã. Na tradução — que consta do livro das Edições Sesc —, o trecho diz que “os fiéis, os judeus, os sabeus e os cristãos que creem em Deus e praticam o bem, no Dia do Juízo Final, não serão presas do temor”. Com isso, Meddeb lembra aos extremistas que o islã prega a tolerância religiosa.

O mundo que Meddeb descreve é o das ‘maravilhas do islã’, e não o dos atentados terroristas e da violência contra a mulher 

Um dos raros intelectuais que não se eximem de participar do debate público, Meddeb também trata de um dos temas centrais do mundo de cultura árabe e islâmica: o chamado islã político. Essa vertente, que remonta ao início do século 20, almeja chegar ao poder e reformar os Estados, tornando-os islâmicos.

Primavera Árabe

Muito se falou do islã político nesta última década. A onda de protestos que começou em 2011 e derrubou ditaduras na região, mais tarde apelidada de Primavera Árabe, possibilitou governos islamitas em países como o Egito e a Tunísia. O problema é que, apesar de terem chegado ao poder pelas urnas, esses não eram movimentos democráticos, diz Meddeb. Pelo contrário — para ele, a Irmandade Muçulmana, que governou o Egito, tinha muito em comum com o fascismo europeu dos anos 30, no seu projeto identitário, avesso à cultura e à história.

É um emaranhado difícil de desfazer, porque pensadores acabam presos nessas dicotomias que associam a democracia ao islã político e a ditadura aos governos seculares, como o de Bashar al-Assad na Síria. É o que Meddeb chama de “duplo totalitarismo”, e que descreve como armadilha. Para desamarrar o impasse, Meddeb coloca o foco na história intelectual moderna do islã, que contou com pensadores como Rifa’a al-Tahtawi, Jamal al-Din al-Afghani e Muhammad Abduh.

Para Meddeb, uma das soluções para esses embates — os “inconciliáveis” do título do livro — é abandonar a tese do choque de civilizações, propagada por Samuel Huntington, e pensar em uma ética de abertura. É necessário, de certa maneira, prestar mais atenção nas figuras como a do próprio Meddeb, que transitam nas fronteiras artificiais entre os ditos Ocidente e Oriente.

Mundos conciliáveis

É preciso também falar sobre os personagens da sociedade civil que têm desafiado tanto seculares quanto islamistas, propondo mundos conciliáveis. Meddeb cita o caso de Amina, a jovem tunisiana que escreveu no colo e nos seios: “Este corpo me pertence, não serve à honra de ninguém”. Amina foi perseguida e detida por sua suposta afronta aos valores religiosos, ao divulgar sua fotografia.
“O gesto de Amina está no cerne do momento histórico que o país vive”, escreve Meddeb. “Sua ambição é atacar a norma islâmica [da vergonha da nudez], que governa a proteção do corpo feminino por meio do véu.” 

Contra quem acredita que o nu feminino é nocivo à tradição islâmica — e uma importação do mundo ocidental —, Meddeb cita mais uma vez os referentes históricos. Ele fala da ilustração de Sultan Muhammad feita em Tabriz, no atual Irã, no século 16. No desenho, que acompanha um poema, uma mulher aparece com os seios parcialmente despidos. Mais um exemplo dos argumentos desse intelectual da contramão, que concilia os inconciliáveis

Quem escreveu esse texto

Diogo Bercito

É jornalista e autor de Vou sumir quando a vela se apagar (Intrínseca).

Matéria publicada na edição impressa #53 em outubro de 2021.