História,

Como nascem os monstros

Em cartas a filho de um dos mentores do Holocausto, filósofo judeu investiga raízes do genocídio

18set2023

No banco dos réus, protegido por uma jaula de vidro, o homem magro e de óculos alega em sua defesa: “Essas eram as instruções, se elas [as pessoas] seriam mortas ou não, as ordens tinham que ser executadas”, sem esboçar nenhuma emoção. Um ano depois, Adolf Eichmann, nazista responsável pela logística de deportação de milhares de pessoas que seriam assassinadas em massa, foi condenado em Jerusalém e, por fim, enforcado.

Todo o julgamento foi amplamente divulgado e gerou diversos desdobramentos e formulações importantes. A mais famosa talvez seja a da “banalidade do mal”, cunhada por Hannah Arendt, cuja cobertura do julgamento foi publicada em livro no ano seguinte. Acompanhando o contexto, Günther Anders, filósofo judeu alemão, resolveu escrever uma carta para Klaus Eichmann, filho mais velho do conhecido nazista.

Destinatário e remetente com trajetórias importunamente cruzadas: o filho de um nazista e um judeu alemão, que sobreviveu por ter escapado aos planos do pai do primeiro. Apesar disso, Anders se dirige ao destinatário com respeito, negando que a desumanidade do pai seja hereditariamente responsabilidade do filho, ao mesmo tempo em que lhe cobra uma atitude: “O fato de descender do seu pai não lhe dá o direito de se solidarizar com ele ­— ao contrário, você é obrigado a se desligar de sua origem, e renegá-lo”.

Somos ‘filhos de Eichmann’ por não questionarmos a destruição que se origina na ação de cada um

O tom cordial só vai se transformar no post scriptum da carta, quando Anders, um tempo depois de tê-la escrito, conta ter se deparado com uma declaração de Klaus Eichmann a favor do pai, quando então resolveu enviar a carta. Ao longo do texto, Anders denomina a eliminação industrial de milhões de seres humanos como “monstruosa” e diz recorrer ao passado para “transformá-lo em outra coisa”. Argumenta que os pressupostos que permitiram o extermínio não foram transformados e, portanto, o “monstruoso” não foi uma exceção, logo há um dever de lutar contra possíveis — e prováveis — repetições. Tal dever é o que endereça a argumentação para o público amplo da carta aberta, para além de Klaus Eichmann.

A partir do apontamento de que o “monstruoso” foi possível pelas mãos de vários “Eichmanns”, Anders desenvolve dois pontos que considera as raízes do genocídio. O primeiro é o de que “nós nos tornamos criaturas de um mundo técnico”, o que leva ao grau máximo de mediação dos processos de trabalho e impede as pessoas de perceberem e sequer imaginarem os efeitos de cada ação tomada. O sentimento de responsabilidade por tais consequências se anula, na medida em que o efeito da ação é elevado demais para tal grandeza ser compreendida. Tornamo-nos “analfabetos emocionais”.

O autor deixa claro que este não era o caso de Eichmann, que participou da elaboração da estratégia da “Solução Final” e, portanto, seria absurdo supor que agia sem saber das consequências de suas ações. Anders afirma que não estamos submetidos a essa dinâmica de forma servil: ao tentar imaginar o resultado de uma ação e fracassar nesta tentativa, acende-se um alerta, uma chance de que tal ato seja revisado por seu autor.

A segunda raiz do monstruoso — intimamente ligada à primeira — reside “no caráter maquinal do nosso mundo atual”. Para que o “fracasso” seja frutífero e usado como alerta, a tentativa de imaginar deve ser feita de maneira real, ação que é geralmente impedida ou dificultada pela corrente moral do trabalho, dividido e especializado, cujo princípio é o desempenho e a fome de acumulação máximos.

Ameaça atômica 

Günther Anders é um pessimista convicto. Tenta nos convencer de que a ameaça monstruosa do “reino por vir” é muito pior do que o Reich do passado — o que se explica pelo contexto em que escreve a primeira carta, marcado pela Guerra Fria e a ameaça do armamento atômico, para a qual muitos trabalham sem questionar, como peças da máquina. “Tanto faz se ainda ou outra vez”, observa. Nisso se baseia o título do livro: somos todos “filhos de Eichmann” por não questionarmos a destruição que se origina na ação de cada um. Por outro lado, o autor acredita na agência humana contra o destino monstruoso, e este é o objetivo final da primeira carta: “Em quase todos os países da Terra há um movimento de pessoas que lutam contra o princípio de Eichmann em nosso mundo”, diz, referindo-se aos grupos contrários ao armamento nuclear. Aderir a esse movimento seria a grande chance de redenção possível a Klaus Eichmann.

Vinte e cinco anos depois, outras questões o levam a escrever novamente a Klaus, em tom bem diferente do da primeira carta. Há em 1988, segundo Anders, uma intensificação da “situação Eichmaniana”. Mas não é só isso que o motiva a escrever, mesmo diante da não resposta da primeira. Sua preocupação agora seria a mudança na mentalidade político-moral percebida na Alemanha e na Áustria, que teria regredido nesse intervalo de tempo, com o fortalecimento não dos “velhos nazistas” mas de “novos nazistas”, que minimizam, relativizam e negam Auschwitz, e instrumentalizam as discussões acerca da culpa coletiva. Nesse segundo momento, ele se nutre de discursos contemporâneos, como a crescente problemática em torno da comparação entre Hitler e Stálin. E mais uma vez argumenta que Klaus tem a chance de deixar de ser filho de seu pai — na medida em que se posicione.

A leitura das duas cartas, separadas por mais de duas décadas, é complementada pelo posfácio “De onde vêm os monstros”, escrito pelo tradutor Felipe Catalani, pesquisador da obra de Anders. O texto contextualiza as duas mensagens em relação à trajetória do autor e de outros autores que desenvolveram ideias relacionadas, como a já citada Arendt e Adorno. Assim, potencializa a atualidade da mensagem contida nos escritos de Anders, de que há um alerta trazido pela reflexão a partir do passado. Para este debate, o público do Brasil de 2023 tem mais esse ponto de partida.

Quem escreveu esse texto

Michel Gherman

É historiador e colaborador do Instituto Brasil-Israel.

Júlia Amaral