Política,

Fim de um ciclo?

Paolo Gerbaudo sustenta que uma era de neoestatismo se aproxima, mas a ideologia neoliberal não parece abalada

09ago2023 - 15h18 | Edição #72

Eis dois grandes desafios para o pensamento social: de um lado, entender a roupagem amalucada das democracias representativas ocidentais; de outro, aclarar o melê discursivo que confunde movimentos sociais e grupos ideológicos tão distintos. Paolo Gerbaudo aceitou essas tarefas e deu a elas sua contribuição a quente.

O autor é atento a muitas coisas e estimula o pensamento por meio de bons insights. Seu ponto de partida são as tendências políticas do pós-pandemia. Gerbaudo identifica, no presente, um ciclo de neoestatismo com vários componentes. Acredita que a longa hegemomia do neoliberalismo (iniciada com a eleição de Thatcher) esteja chegando ao fim. “A globalização neoliberal pode ter tido sucesso em sujeitar o planeta inteiro ao imperativo do lucro. Mas seu sucesso teve que capitular a choques econômicos, à penumbra do vírus e à catástrofe ecológica”, diz o autor numa passagem sintética do que seria esse “grande recuo”.

Esse fim de época, acredita Gerbaudo, vem dando lugar a algumas tendências que disputam os corações e as mentes do eleitorado global. Assim, no ciclo que agora se encerra, o grande adversário do neoliberalismo foi um genérico “populismo”, que segue vivo, porém se desdobrou em duas frentes: a) uma nova esquerda socialista que ainda está se definindo; b) uma nova direita nacionalista, cuja face tem já mais contorno. No pós-pandemia, entretanto, o ideário e as práticas neoliberais ganharam um novo oponente, que Gerbaudo nomeia como “neoestatismo protetor”. Essa nova oposição tem também duas vertentes: a) à esquerda, um “protecionismo social”; b) à direita, um “protecionismo do proprietariado”.

O livro expõe a substância e as principais características de cada uma dessas matrizes tipológicas, assumindo que o léxico de todos esses grupos muitas vezes se confunde, porque todos acabam trabalhando com categorias e conceitos comuns. Todos falam em soberania e retomada de algum tipo de controle sobre os capitais desregrados. Todos denunciam os limites da agenda liberal e seus efeitos deletérios na agenda das empresas, no crescimento industrial, na geração de empregos, na organização do trabalho, na seguridade social. Muitos falam da questão ambiental. A tentativa de mapear e diferenciar analiticamente esses discursos é um empreendimento de coragem — e muito bem-vindo.

Jogo camaleônico

O principal enrosco enfrentado por Gerbaudo está na indefinição do objeto ao qual se dedica. Quem poderia lidar sem deslizes com o jogo camaleônico de posições e discursos que caracteriza o contemporâneo? Um exemplo: a pandemia obrigou parte da esquerda radical a correr para uma defesa da institucionalidade médica que arrepiaria Foucault. “Somos a favor da ciência! — aquela mesma que por décadas denunciamos como tirania do jaleco branco.” No auge da mortandade pandêmica, quem à esquerda seguisse na denúncia da ordem tecnocientífica como ordem ideológica produtora de controle social resvalaria em posições contrárias à vacina e ao confinamento, aproximando-se das visões deletérias e necrofílicas da pior direita (foi mais ou menos o que sucedeu com Agamben).

Em nosso presente, poucas vezes foi tão clara a boutade atribuída a Mao Tsé-Tung: “Muito para leste já é oeste”. Os espectros políticos e ideológicos não devem ser representados em linha, mas em círculo: os extremos de qualquer questão dão-se as mãos pelas costas. Muitas vezes tivemos de distinguir, em conversas informais, quem eram os antivax de direita e os antivax de esquerda. Agora, tomando-se as equações de Gerbaudo, temos um problema semelhante: todos os players da política contemporânea disputam os despojos do ciclo neoliberal e se aproveitam de sua moral baixa.

Parece indiscutível que existam inúmeros projetos “pós-liberais, assemelhados no diagnóstico, mas diferentes na proposta de cura”. O neoliberalismo, diz Gerbaudo com razão, não ofereceu respostas eficientes à insegurança sanitária da pandemia e não evitou a derrapagem econômica global.

Aí, entretanto, está talvez um ponto fulcral a ser debatido. Será mesmo plausível falarmos em fim do neoliberalismo? Em que medida as derrotas eleitorais do neoliberalismo significam um colapso? Bolsonaro, no Brasil, perdeu as eleições presidenciais para Lula, mas teve 56 milhões de votos. Trump perdeu para Biden, mas por um triz. A ideologia neoliberal (trasmutada no ideário neoempreendedor, tão bem descrito por Rodrigo Nunes em Do transe à vertigem), não parece efetivamente abalada. Ao contrário, está colonizando o imaginário da esquerda pós-sindical, e veio para ficar.

Trump perdeu para Biden, mas por um triz. A ideologia neoliberal não parece efetivamente abalada

Outra questão: o ciclo de neoestatismo identificado por Gerbaudo parece às vezes muito esquemático. O neoliberalismo por acaso dispensou a intervenção estatal para sanar seus deslizes e demências em excessos catastróficos? Quem salvou o sistema financeiro global em 2008? O Estado. O Estado entrou na cena do crime e refinanciou a continuidade “liberal” do jogo (“liberal” entre mil aspas). Dal dire al fare c’è di mezzo il mare, dizem as velhas gerações italianas. Traduzindo: entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos existe por vezes um hiato oceânico. A própria noção marxista de ideologia falava disso no século 19. Uma coisa é o discurso liberal sobre Estado mínimo, ativado para desmobilizar direitos e recursos destinados ao combate da desigualdade. Outra coisa é o frigir dos ovos: o neoliberalismo nunca existiu faticamente como conceito realizado. O neoestatismo é uma novidade como discurso porque representa uma parcela das populações globais que “perderam a vergonha” de defender um Estado maior e mais ativo. Mas o estatismo, em si, segue sendo a marca oculta de um capitalismo que é liberal da boca para fora e subsidiário da porta para dentro.

Talvez as questões que um brasileiro possa apresentar a Gerbaudo sejam filhas da diacronia do mundo. Como o próprio autor alerta no livro, seus olhos estão mirando a situação europeia e norte-americana. Nesses países, as formas do capitalismo avançado e os discursos políticos que elas engendram não são quiçá tão loucamente misturados como aqui. Pode um europeu compreender globalmente as coisas? Pode alguém ainda fazê-lo? Sem incidir no ranço transcendental do terceiro-mundismo, há momentos (talvez este seja um deles) em que vige a impressão de que só da periferia do sistema pode surgir uma teoria mais abrangente do one world system. Diz o próprio Gerbaudo: “A insatisfação com o neoliberalismo […] se sente de modo mais agudo na periferia”. Razão pela qual o pensamento de horizonte mais amplo precisa levar em consideração as manifestações dessincrônicas e a violência da engrenagem, que só se manifesta cruamente “ao sul do Equador” ou “para lá de Bagdá”. Bolsonaro foi isso: nas palavras de Chomsky, uma espécie despudorada e insana de ultraliberalismo armado. 

Quem escreveu esse texto

José Guilherme Pereira Leite

Ensaísta, crítico e professor de sociologia, organizou os dois volumes de As malhas da cultura (Ateliê Editorial).

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.