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O gênio de outro mundo

Benjamín Labatut escreve sobre matemático que teve papel central na gênese da bomba atômica

12dez2023

As fronteiras entre loucura e razão e as consequências desse embate para a ciência foram apresentadas com maestria por Benjamin Labatut em Quando deixamos de entender o mundo e em A pedra da loucura, lançados pela Todavia em 2022. Agora, em MANIAC, o autor chileno tem como centro a vida e o legado de Jonh Von Neumann, o matemático húngaro que teve papel central na gênese da bomba atômica, da corrida armamentista no pós-guerra e da criação do computador moderno. Labatut é reconhecido por explorar os limites da não-ficção na literatura, e em maniac ele segue inventando — e impressionando o leitor com sua criatividade. 


Em MANIAC, Benjamin Labatut mergulha na biografia do matemático húngaro John Von Neumann

O livro é dividido em três atos: começa com a história do físico austríaco Paul Ehrenfest, que tinha uma visão melancólica do futuro: para ele, o avanço da física teórica e da matemática poderiam se transformar em ferramentas hostis à vida. Frente à escalada nazista, sucumbiu à depressão e optou pelo suicídio. Sua tragédia pessoal é o prólogo para o mergulho biográfico em Jonh Von Neumann.

Em uma entrevista à web-TV Lousiana Channel, o autor chileno explica a escolha de Von Neuman como protagonista: “Há esses outliers. Homens e mulheres que parecem ter vindo de outro mundo. Eles não são gênios conscientes, são impulsionados por algo que não entendem, o que é fascinante”. Talvez assustado com a possibilidade de delinear o “ser humano mais inteligente do século 21”, Labatut opta, na segunda parte do livro, pelo relato das pessoas que orbitavam o matemático. A vida de Von Neumann é apresentada por familiares, colegas e rivais, traçando um perfil com nuances: gênio, machista e ególatra.

Fatos e lendas

“Tudo o que sai de um escritor é ficção. Ela é a ferramenta que desenvolvemos para dar à realidade uma forma humana”, diz Labatut na mesma entrevista. A afirmação é corroborada pela destreza com que o autor dá vida a esses personagens-narradores como Richard Feynman, de modo que é praticamente impossível diferenciar o “Feynman de Labatut” do “Feynman real”. Tem-se a sensação de ler passagens inéditas de Só pode ser brincadeira, Sr. Feynman (Intrínseca, 2019), série de ensaios do célebre físico durante sua estada em Los Alamos enquanto participava do projeto Manhattan, que produziu as primeiras bombas atômicas.

Quando se trata de Von Neumann, separar fatos e lendas pode ser enlouquecedor: o gênio tinha uma memória prodigiosa. A “verdadeira” memória eidética, capacidade de lembrar com alto nível de precisão uma imagem ou texto, é raríssima. Os colegas de Von Neumann afirmavam que ele era capaz de lembrar capítulos inteiros de Declínio e queda do império romano, a obra monumental de Edward Gibbons.


O matemático húngaro John Von Neumann [Departamento de Energia dos EUA/Reprodução]

Esse dom de Von Neumann está aludido no título do livro, que remete ao computador idealizado pelo matemático, mas também às consequências de sua personalidade por vezes irresponsável: MANIAC, ou Mathematical Analyzer Numerical Integrator and Automatic Computer. 

No zeitgeist do início do século passado, ciência e tecnologia deveriam ser “neutras”. Mas a primeira tarefa do computador foi calcular com precisão a extensão dos processos termonucleares, informação fundamental para criar uma explosão atômica. A bomba de hidrogênio, a “Super”, não seria possível sem MANIAC. É igualmente possível afirmar que a gênese da inteligência artificial está intimamente ligada à criatura de Von Neuman.

Inteligência artificial

Em Matrix, o clássico dirigido pelas irmãs Wachowski, Morpheus (Lawrence Fishburne) explica a Neo (Keanu Reeves) o que é a Matrix e como as máquinas escravizaram a humanidade: “Temos apenas fragmentos de informação, mas o que sabemos com certeza é que em algum momento do início do século 21 toda a humanidade estava unida em celebração. Ficamos maravilhados com nossa própria grandeza ao darmos origem à ia”.

É impossível não traçar um paralelo com o lançamento do ChatGPT e o frenesi provocado pelas maravilhas que a ferramenta da Openai parece oferecer. Um olhar mais cuidadoso, no entanto, nos leva ao 10 de março de 2016, relatado por Labatut no última ato de MANIAC, no qual o leitor testemunha o derradeiro embate entre humano e máquina no tabuleiro de um jogo.

O título do livro é referência ao computador idealizado pelo húngaro John von Neumann

Naquele dia, a humanidade teve o primeiro vislumbre da verdadeira inteligência artificial no lance 37 na partida de Go — um jogo de estratégia inventado há mais de quatro mil anos — disputada entre o campeão mundial, o sul-coreano Lee Seedol, e AlphaGo, o computador criado pela DeepMind Technologies. Labutut escreve:

Foi totalmente diferente de qualquer coisa que um computador já havia feito. Também foi diferente de qualquer coisa que se saiba que um ser humano já tivesse cogitado. Foi algo novo, uma ruptura completa com a tradição, um distanciamento radical de milhares de anos de sabedoria acumulada.

De acordo com a lenda, o imperador chinês Yao desenhou o tabuleiro de Go para ensinar disciplina e concentração ao filho Danzhu. São 19×19 interseções, contendo 361 pontos que deverão ser preenchidos com as pedras brancas e pretas. O objetivo é dominar o máximo de territórios. O número total de jogos possíveis desafia a compreensão: 10(10^100).

Costuma-se dizer que, mais que um jogo, Go é uma forma de arte. Labatut também é um artista que transmite toda a emoção da batalha entre humanos e inteligência artificial. O inequívoco triunfo da máquina é retratado com a devida tristeza. Ainda que o único (e elusivo) lance vitorioso do humano no jogo seja uma fresta de esperança para aqueles que acreditam na superioridade da intuição humana frente aos computadores, o epilogo de MANIAC pode ser encarado como um alerta da realidade que está por vir.

Von Neumann afirmava que a sobrevivência da humanidade depende da nossa capacidade em promover melhores formas de cooperação. É irônico perceber que um dos criadores das bombas “destruidoras de mundos” ofereça o melhor conselho para lidarmos com os desafios  e riscos da ascensão da inteligência artificial. É preciso lidar, mais uma vez, com um dos legados da trajetória de John Von Neumann. 

Quem escreveu esse texto

Arthur Mello

É sócio da Livraria Megafauna — Livros no Centro, em São Paulo