Poesia,

Reduzir o homem a pó

Coletânea de poemas mostra que Primo Levi, além de autor de um dos maiores testemunhos sobre o Holocausto, era também grande poeta

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

Primo Levi é o corvo que rasga o céu da noite mais escura da civilização europeia com um canto incômodo, certeiro e cristalino. Diante do ocaso supremo, quando o mundo testemunha, envergonhado, os destroços do maior perigo possível à humanidade — deixar de reconhecer no outro o que é, no limite, humano —, seu estertor reverbera a inadiável verdade
de forma paradoxalmente serena. Mesmo na narrativa implacável sobre o horror da máquina nazista de aniquilar o sujeito, o poeta traz a possibilidade de “mil sóis”. Cada vez que se concede a outro homem o direito à existência, surge, enfim, uma pequena aurora — e ele viu mostras de empatia até em quem já não cabia na definição de homem.

Ao fim de É isto um homem?, célebre relato sobre a experiência concentracionária, Levi narra uma cena de extrema bondade. Na iminência da libertação, quando Auschwitz está já sem soldados, e seus presos, após meses ou anos no campo, descobrem a ansiada comida escondida, eles lhe oferecem uma ração extra de pão — afinal, ele havia instalado uma estufa que evitara que morressem de frio. “Foi o primeiro gesto humano entre nós”, afirma. “Acho que poderíamos marcar naquele instante”, diz, “o começo do processo pelo qual nós, que não morremos, de Haftlinge [prisioneiros] voltamos lentamente a ser homens.”

Seus relatos são dotados de uma economia da palavra que só quem conjuga imanência e transcendência sem julgamentos e esteticismos alcança. Sua fala sobre o bem é tão ou mais pungente que os relatos sobre o mal. Há mais do que morte, assim, na escrita calculada de Primo Levi. Há também vida — e em versos: foi na linguagem poética, inclusive, que o italiano rascunhou os primeiros esboços da monumental tarefa de descrever o Holocausto.

“Buna Lager” apareceu em 1946 no semanário comunista L’ Amico del Popolo, que mais tarde abrigaria os capítulos de É isto um homem?. “Buna” é a goma que a fábrica que escravizou judeus como ele em Auschwitz deveria produzir, mas nunca o fez — os alemães perderam a guerra pouco antes, o que permitiu aos que sobreviveram a chance de contar o que viveram. Levi narrou seu primeiro quinhão meses depois de voltar para casa — não em prosa, mas em versos. O poema, curiosamente, não faz parte da coletânea Mil sóis, que a Todavia lança no Brasil. Mas existe muito do Lager, do campo de aprisionamento, nos versos escolhidos de Levi.

A banalidade do mal

Vide os dois “cantos do corvo” que emergem, dilacerantes, na coleção. No primeiro, de janeiro de 1946, um ano após ser libertado, ele escreve: “Eu cheguei de muito longe/ Para trazer a má notícia./ Passei por cima da montanha,/ Atravessei a nuvem baixa,/ Espelhei no pântano meu ventre./ Voei sem descanso,/ Para encontrar sua janela,/ Para encontrar seu ouvido,/ Para trazer-lhe a terrível nova/ Que lhe tire a alegria do sono,/ Que lhe corrompa o pão e o vinho,/ Que se assente à noite em seu coração”.

Quem leu a prosa que até hoje convida o leitor a um mergulho nas profundezas da banalidade do mal não deixará de procurar, com lupa, os reflexos da experiência do campo em cada poema. “A má notícia” que o corvo vem dar, assim, parece versar sobre a crueza da verdade obscena do nazismo — até hoje negada por muitos em sua dimensão de catástrofe. Sim, o homem é capaz do mal absoluto. E é isso que ele vai gritar na sua janela, leitor — essa verdade impreterível, urgente, sem data, mesmo que atrapalhe seu sono burguês, o sabor da comida farta que quem o lê tem à mesa sem perceber o valor.

Levi levou quase três anos entre sua libertação de Auschwitz, em janeiro de 1945, e a publicação de É isto um homem?, em 1947. Mas já no fim de 1945 começou a escrever poemas, que classificou como “precisos e sangrentos”. Era ainda uma produção “errática e sem método”, explica Maurício Santana Dias, crítico literário, professor da Universidade de São Paulo (usp) e responsável por traduzir Mil sóis. Mas já detinha uma força ímpar, cuja “voz lírica oscila entre o desespero, a notação da realidade dura e algumas tentativas, ainda bastante incipientes, de buscar uma luz em meio às trevas”.

O autor seguiu escrevendo poemas, cerca de um por ano, nos anos 1960 e 1970. Alguns foram publicados em revistas literárias e, mais tarde, num volume apócrifo. Em 1975, uma coletânea devidamente assinada viu a luz do dia — Em hora incerta, primeiro compêndio editado como um corpus lírico, detinha 63 poemas. Parte deles está em Mil sóis, em italiano e em português, na ordem cronológica e diarística original, o que ajuda o leitor nessa trajetória que conjuga memória e abertura poética. Um trunfo a quem deseja encontrar a sonoridade original e a genética temporal da poesia de Levi.

A esmagadora maioria do público conhece Levi por seu relato sobre os onze meses passados no horror cotidiano de Auschwitz. Ler Mil sóis sem ter lido É isto um homem? seria um exercício curioso. Afinal, tudo o que Levi narra em detalhes com crueza quase obscena em sua prosa, na poesia ganha a força do lirismo (quiçá) inerente ao gênero. Uma exegese mais profunda dos versos passa, assim, pela comparação dos gêneros.

 O que é, afinal, um homem?

“A capacidade humana de cavar-se uma toca, de criar uma casca, de erguer ao redor de si uma tênue barreira defensiva, ainda que em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e merecia um estudo profundo”, escreveu Levi. É isto um homem? é esse estudo — retrato do embate em torno da humanidade e dos paroxismos do homem. De um lado, mostra o esforço, que o projeto nazista previu nos mínimos detalhes por meio do maquinário perverso do campo, para exterminar a humanidade do povo judeu — violência que ultrapassa o assassinato em massa visando à aniquilação completa do sujeito. De outro, mostra como o homem se aferra a qualquer resquício de subjetividade que lhe permita resistir ao açoite do absurdo e sobreviver, um dia, só mais um.

É isto um homem? é um documento sobre a experiência do horror a ser guardado como material indelével de uma experiência que jamais deve ser esquecida. É também o bastião do que se convencionou chamar de “literatura do testemunho”, marco do reconhecimento da experiência narrada como objeto de valor nas ciências humanas e na literatura. Mas mesmo esse livro é aberto por um poema. “Shemà”, presente também em Mil sóis, volta-se ao leitor que não viveu o horror e nunca conseguirá imaginá-lo sem sua ajuda.

“Vós que viveis seguros/ Em vossas casas aquecidas/ Vós que achais voltando à noite/ Comida quente e rostos amigos:// Considerais se isto é um homem,/ Que trabalha na lama/ Que não conhece paz/ Que luta por um naco de pão/ Que morre por um sim ou por um não.”

Pois “a convicção de que a vida tem um objetivo está enraizada em cada fibra do homem”, escreve Levi. Para o homem do Lager, onde o sono suplanta a fome e esta espanta a dor, onde as noções de “certo” e “errado” se moldam ao sabor da luta por sobreviver mais um dia, onde “não há nada vivo, a não ser as máquinas e os escravos; mais vivas aquelas do que estes”, é preciso ter um horizonte além da cerca eletrificada. O dele era contar o que viu.

Levi descreve a luta diuturna por manter um fiapo de humanidade ao qual se apegar, aquele símbolo que permite que o homem se reconheça como humano no limite — além do qual está o muçulmano, figura esta que desistiu de resistir, que já não luta pela vida, que apenas segue à espera da morte, sendo este o sucesso da empreitada nazista de reduzir o homem a um animal sem alma.

Além do trabalho forçado e do frio, da “fome crônica”, das doenças e castigos sem aviso ou razão, a maior luta no campo era para seguir humano. Por isso ele se banhava, engraxava os sapatos, caminhava ereto — tudo era “essencial à dignidade moral” sem a qual viraria alguém “interiormente oco, nada mais que um invólucro, como certos despojos de insetos que encontramos na beira dos pântanos, ligados por um fio às pedras e balançados pelo vento”. Esse fio era o desejo inadiável de narrar sua experiência.

Ao se ver em meio a milhares de homens nus, sem sapato, cabelo ou nome, Levi percebeu que “nossa língua não tem palavras para expressar essa ofensa, a aniquilação de um homem”. O que reverbera uma crítica comum na academia a respeito do “indizível” — para alguns, narrar a experiência do Holocausto é empreitada vã: um horror tamanho, que inexiste fora da experiência subjetiva do aniquilamento, jamais encontraria palavras. Mas, como pontuou Giorgio Agambem, dizer que Auschwitz é “indizível” equivale a adorá-lo em silêncio. Melhor “manter fixo o olhar no inenarrável”.

É o que faz Levi quando conta o sonho recorrente em que se via no calor do lar, saciado e confortável, narrando sua história. De repente, porém, percebe que ninguém o ouve. “Por que o sofrimento de cada dia se traduz, constantemente, em nossos sonhos, na cena sempre repetida da narração que os outros não escutam?” Porque o desejo supremo do homem é ser escutado. Por isso, nos poemas de Mil sóis, o corvo canta seu canto lúgubre a destroçar a paz de quem vive a anos-luz da “zona cinzenta”. E por isso os poemas dão a quem leu seu relato em prosa um bilhete de retorno ao mundo às avessas de Auschwitz.

A beleza da repetição

Levi é poeta da repetição. Sua escrita revolve os mesmos temas ao extremo, extraindo sempre uma nova verdade. Como escreve o ensaísta Ernesto Ferrero: “Não só ele não esquece, mas quer que o leitor realize com ele reiteradamente o mesmo trajeto, as operações de uma mesma verificação”. Sua lírica, escreve Dias, é modular, formada de temas que vão e voltam ao longo da vida e da escrita. Os poemas dos anos 1940, por exemplo, versam sobre o horror da deportação e o esforço de restauração da humanidade quase perdida no lager. Mas “O sobrevivente”, de 1984, escrito quase quatro décadas depois, traz a “mesma energia ambivalente entre destruição e restauração”.

Mas ele sabe que sua vida não é culpa de um erro seu. “Ninguém morreu em meu lugar/ Ninguém./ Retornem ao seu nevoeiro./ Não tenho culpa se vivo e respiro/ E como e bebo e durmo e visto roupas.” Há aqui, como lá, a mesma “busca da claridade, um trabalho contínuo contra as sombras”.

O efeito da repetição sobre a compreensão do indizível que ele consegue dizer é fundamental para ler Levi. Em “Levantar”, de 11 de janeiro de 1946, por exemplo, o autor desenha uma síntese da vida no campo: “Sonhávamos nas noites ferozes/ Sonhos densos e violentos/ Sonhados com corpo e alma: Voltar; comer; contar/ Até que soava breve e abafado/ O comando da autora ‘Wstawac’;/ E no peito o coração partia.// Agora reencontramos a casa,/ Nosso ventre está saciado,/ Terminamos de contar./ É o tempo. Logo ouviremos de novo/ O comando estrangeiro: ‘Wstawac’.”

Em 22 de agosto de 1953, mais de sete anos depois, “O canto do corvo (2)” traz o mesmo canto, a mesma “mensagem”, a mesma “nova” que precisa ser ouvida.

“Quantos são os seus dias? Eu os contei:/ Poucos e breves, todos de tormentos;/ Dessa angústia da noite inevitável,/ Quando a sós nada serve de anteparo;/ Do temor da alvorada seguinte,/ Da espera por mim, que o aguardo,/ De mim, que (inútil, inútil fugir!) […]// Até que se cumpra o que foi dito/ Até que sua força se desfaça,/ Até que você mesmo se acabe / Não com um baque, mas com um silêncio,/ Como em novembro as árvores se despem,/ Como se encontra parado um relógio.”

A fome, o cansaço, o sono e a ânsia de liberdade se sucedem, como versos que “zumbem ao redor como falenas bêbadas”, que “você só tem que esperar, com a caneta pronta” para agarrá-las e verter em escrita — é o que escreve em “Um ofício”, de 1984. Afinal, como diz em “Autobiografia”, de 1980, seu “velho corpo está marcado por estranhos sinais”. E eles o assombram, fantasmas que só a escrita pode tentar (em vão) extirpar.

Daí outro tema recorrente em sua tabela periódica de vocábulos ser a escrita inacabada ou inalcançável. Em “No princípio”, ele insta os “irmãos humanos” a pensar nos “milhares e milhares de sóis,/ e esta mão que escreve”. Em “Medidas não despachadas”, de 1981, confessa que deixa “muito trabalho incompleto”; quem tiver a força de procurar, porém, “encontrará restos dele em minha gaveta”. Ele não teve “tempo de desenvolvê-lo./ Uma pena,/ Teria sido uma obra fundamental”.

Em “Encargos pendentes”, de 1984, Levi diz que “gostaria, se possível,/ De me afastar em silêncio” — por meio da “obra ainda inacabada”: afinal, “(Toda vida é inacabada)”. Por fim, em “A obra”, de 1983, escreve:

“Pronto, agora acabou: nem mais um toque./ Como me pesa a caneta na mão!/ Era tão leve pouco tempo atrás,/ Viva como a prata viva:/ Eu só precisava segui-la,/ Ela me guiava a mão/ O que fazer agora? Como separar-se dela?/ A cada obra que nasce você morre um pouco.”

Afinal, “tornar-se normal novamente — depois do mundo às avessas de Auschwitz — significava escrever sobre as preocupações centrais aos poetas de qualquer época”, escreve a professora de inglês da Stonehill College e especialista na poesia de Levi, Barbara Estrin.  Levi teceu poemas sobre animais, reais e mitológicos; sobre a inspiração de homens de ciência como Galileu Galilei; fala de Plínio, de Catulo, poetas latinos que ama; e escreve sobre a guerra, como em “Canto dos mortos em vão”. É o horror que reduz o homem a pó, sobretudo, seu Leitmotif fundamental.

Em busca do silêncio perdido

Levi deixou Auschwitz para mergulhar numa vida absurdamente comum. Por trinta anos trabalhou como químico numa fábrica de tintas, enquanto escrevia poemas, contos e ensaios no tempo livre. Não ficou famoso até décadas depois de publicar É isto um homem?. Mesmo assim, em cada entrevista, dizia-se não poeta, não escritor, mas químico. É o que afirmava em sua autobiografia de 1975, A tabela periódica, na qual cada capítulo de sua vida tinha como título um elemento químico.

Seu objetivo maior talvez fosse narrar tantas vezes o horror da espera da aurora de mais um dia de tormentos sem fim até que nele finalmente se fizesse o silêncio. Em “Um vale”, de 1984, ele escreve sobre essa árvore vigorosa encontrada num vale aonde chegou sozinho e a que não se deu nome. “Não tem iguais: fecunda a si mesma./ Seu tronco carrega velhas feridas/ Das quais destila uma resina/ Amarga e doce, fonte de esquecimento.”

Interpretar a poesia é reduzir uma arte novamente à palavra. Mas como não ver na resina amarga o relato poético do horror nazista? Primo Levi a trabalhou, como um químico insistindo num experimento infundado, até os últimos dias. Ou até que o abraçasse o descanso da morte. Levi morreu após cair de uma escada em 1987 — para a polícia e os biógrafos, ele se suicidou, vítima de uma depressão sem fim. Enfim o corvo se calou, enfim o silêncio.

Quem escreveu esse texto

Willian Vieira

É jornalista e fez doutorado em letras francesas pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.