Poesia,

Assobios lunares

Ledusha Spinardi encara o tempo sem perder o ritmo

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

O som é marcante na poesia de Ledusha Spinardi. Está presente nas referências — a bossa nova, Billie Holiday, Cole Porter — e na musicalidade das palavras. É ele que se torna responsável pelas imagens inusitadas que aparecem, como nos títulos de seus livros: Risco no disco (1981), Finesse e fissura (1984) e, o mais recente, Lua na jaula (2018), volume de poemas inéditos publicado pela editora Todavia. 

“Aos vinte um acinte/ aos trinta um açoite/ aos quarenta — é noite?/ aos cinquenta o requinte/ aos sessenta arrebenta:/ que só vero ouro tilinte”: os versos desse poema de abertura dão o tom da seleção. O tempo é um dos temas do livro e também parte de seu processo de composição. Em um dos ensaios de O poeta e o tempo, a russa Marina Tsvetáeva (1892-1941) trata da necessidade de considerar os efeitos do tempo sobre os versos da mesma forma como são observadas as mudanças no rosto da mulher que os escreve: “O que se passa com os traços se passa com os versos. Eles não se tornam mais bonitos com o tempo. O frescor, o caráter imediato, a acessibilidade, a beauté du diable do rosto poético ocupam o lugar dos traços”. 

Ledusha Spinardi, nascida em 1953, reconhece o envelhecimento — na contramão de uma sociedade em que mulheres são estimuladas a parecerem jovens em qualquer idade. No entanto, também observa “o enigma do tempo/ o preço do tempo: ilusão”. Nem tudo é transformado pelo passar dos anos. 

Mas os efeitos do tempo se revelam na necessidade de despir a alma de tralhas, no reconhecimento tardio da própria timidez, na clareza de poemas curtos e diretos, formados por dois ou três versos que se aproximam de constatações sobre o presente. A experiência faz com que a poeta esteja pronta (“para apagar/ o que escreve”) e estabeleça limites, como “de riso/ e festa besta/ basta”.

Pitangas nas calçadas

O olhar de Ledusha para a poesia dos momentos corriqueiros continua afiado. As pitangas nas calçadas, a chuva estalando no asfalto. Suas leituras e afinidades com Wislawa Szymborska, Emily Dickinson, Hilda Hilst, Manuel Bandeira e Torquato Neto surgem entre um agradecimento e um exercício de imaginação. Há críticas irônicas à cafonice de gurus, falas fálicas e desejos de morte (dos outros) que dialogam com o noticiário. Lua na jaula é perpassado pelo humor e capacidade de observação da vida urbana que fizeram da autora uma influência para poetas contemporâneas como Angélica Freitas, Bruna Beber e Marília Garcia. 

Associada à poesia marginal carioca dos anos 1980, de nomes como Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal e Francisco Alvim, a produção de Ledusha ainda é bastante lida a partir da confluência entre a natureza e o asfalto da cidade do Rio de Janeiro, embora a poeta viva há anos em São Paulo. Os poemas mais recentes captam a vertigem do dia a dia nas metrópoles e podem se referir ao caos e à beleza inesperada em qualquer um dos extremos da ponte aérea. A paisagem carioca surge entre morros e conchas, mas “Margens do rio” expõe como a relação com uma cidade conhecida por suas belezas e pelo cotidiano violento é dolorosa. 

Levitar e assobiar são ações muito mais comuns do que os traços de perda ou tristeza nessas páginas

Há um “desconforto isento de recato” nos poemas que contemplam, sem nostalgia, o passado — um deles, de título “Minha infância”, diz apenas “foi um nó/ na garganta” e acaba. E há um reconhecimento da dor, como em “Iniciação” — “meninas atrevidas geram vidas breves/ disse a obstetra de batom borrado/ fálica como um rifle/ na eternidade em que fiquei ali/ torcendo os punhos do pulôver”. 

Mas se o tempo “aflora tal percepção do ocaso”, também abre espaço para que o incômodo coexista com uma poesia repleta de termos que aludem à leveza. Levitar e assobiar são ações muito mais comuns do que os traços de perda ou tristeza nessas páginas. A imagem da Lua na jaula é tão impossível quanto evocativa; podemos usá-la para nos aproximarmos desse livro em que as diferentes fases da vida, os elementos noturnos, a luminosidade, as restrições e as contradições se misturam.

Quem escreveu esse texto

Stephanie Borges

Jornalista, ganhou o prêmio Cepe de poesia com Talvez precisemos de um nome pra isso (no prelo).

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.