Editora 451,

Apocalipse: modo de usar

Filósofo italiano diz que a sociedade contemporânea caminha para a extinção e ter a catástrofe como inevitável é a condição para evitá-la

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Imagine qualquer alegoria audiovisual para a sociedade digital. A cascata de códigos verdes dos créditos de Matrix. Os corredores de data centers nas partes dramatizadas de Dilema das redes. As nuvens de telas e emojis que emanam das pessoas na abertura de Privacidade hackeada.

Na literatura, dificilmente há algum escritor contemporâneo que tenha conseguido organizar tão bem essa transformação de humanos em dados quanto o italiano Franco “Bifo” Berardi, híbrido de ativista, filósofo e comunicólogo, na ativa desde maio de 1968.

Lançado no início do ano pela editora Ubu, Asfixia: capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem é o resultado da reunião de dois ensaios, um escrito a quente na esteira do movimento Occupy Wall Street no começo na década, e outro a respeito do sofrimento psíquico causado pela virtualização das interações sociais.

Ao contrário de outros autores ou de roteiristas de cinema, Berardi não recorre a metáforas. Suas longas digressões são escrupulosas, concatenadas e, como bem define Daniel Galera na contracapa, “dão ordem a ideias difusas que já moram de forma menos articulada em algum lugar da consciência coletiva”.

Leia-se, por exemplo, sobre a precarização do trabalho: “O capitalismo não consegue mais semiotizar e organizar a potência social da produtividade cognitiva, e isso porque o valor já não pode mais ser definido em termos de tempo médio necessário de trabalho”. Ou o trecho de Asfixia em que o autor discorre sobre o exercício do poder hoje em dia: “É soberano quem dispõe do shitstorm da rede […].

O poder moderno tinha como fundamento a capacidade de impor a própria voz à força sobre as vozes dos outros. ‘Sem o alto-falante, nunca teríamos conquistado a Alemanha’, diz Hitler. Hoje, o poder surge de uma tempestade de vozes inaudíveis. Estimula a expressão e traça regras de controle a partir da elaboração estatística de dados extraídos do barulho e da multidão”.

A premissa de Berardi é catastrofista. Para ele, o sistema social e produtivo globalizado e hiperconectado exauriu os nossos cérebros e exaurirá, inexoravelmente, os recursos naturais do planeta. Isso posto, sem mudança de rota, o caminho é o da extinção da civilização. É forte, mas faz parte de um movimento discursivo maior. Não é diferente do que faz Eduardo Viveiros de Castro quando diz que os indígenas, acostumados ao fim do mundo desde o século 15, são os detentores dos saberes necessários para a sobrevivência da humanidade. Nem do que escreve Jonathan Franzen quando aconselha, para a manutenção da nossa saúde mental, que tomemos café da manhã sabendo que o apocalipse climático é irreversível.

São chaves diferentes. Viveiros de Castro direciona seu olhar ao pós-fim do mundo, e Franzen sugere uma postura conformista em face do irreversível — algumas páginas de Asfixia são, inclusive, dedicadas à obra do escritor americano: seu universo ficcional, avalia Berardi, é “o reflexo amargo de uma sociedade que perdeu o prazer de compartilhar”.

A internet gera conexão, mas não conjunção, e agrava o esgarçamento do tecido social  

Também assertivo, o italiano segue um terceiro caminho. O cataclismo final permeia sua prosa não porque não exista o que se possa fazer, mas porque tê-lo como inevitável, sob o modelo capitalista atual, é condição para evitá-lo. Assim, Asfixia é um livro sobretudo orientado para a ação.

Ação cujo campo não está dado. “Quando os problemas assumem essa dimensão, a política se torna inútil”, afirmou o autor em entrevista ao Nexo Jornal sobre o livro Extremo, seu diário da quarentena lançado pela mesma Ubu. “Ela já foi útil na modernidade, mas agora deve dar lugar à psicanálise, ao teatro, à educação… E para um novo tipo de técnica de concatenação social que ainda não foi inventado.”

Em Asfixia, ele tateia essa técnica, de forma bem subjetiva: mantras, exercícios de respiração coletiva, a imagem de uma praça em um poema de Rilke. Um porvir que se assemelha à leitura que Jonathan Crary faz de Os vasos comunicantes, de André Breton, no trecho em que o surrealista imagina Paris vista ao amanhecer do alto da Sacré-Coeur: “Ele capta, no limiar entre escuridão e luz, entre a restauração do sono e do dia de trabalho, uma colaboração ainda por vir entre trabalho e sonho que animará ‘a eliminação do mundo capitalista’”, escreve o crítico americano em 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono (Ubu).

Torpor contemporâneo

O torpor da sociedade digital, à qual Berardi se refere como manada de zumbis (os arrependidos do Vale do Silício gostam da metáfora do feitiço), é fruto assim de um ensimesmamento incontornável pelos meios disponíveis. Pois a internet é capaz de gerar conexão, mas não conjunção. E a conexão não só é incapaz de reverter o esgarçamento do tecido social como é fator de seu agravamento.

“Estávamos totalmente tomados pelo tempo das coisas”, escreve Annie Ernaux nas páginas finais de Os anos (Três Estrelas), mescla de relato autobiográfico com memória coletiva francesa. “Os outros não tinham corpo nem voz nem cheiro nem gestos, não podiam nos alcançar”, continua, ao rememorar a virada dos anos 1990 para os anos 2000, quando a internet começava a se tornar nossa extensão.

A conexão, discorre Berardi, pressupõe a inserção do eletrônico no orgânico. Ela é condicionada por um intermediário maquínico (o computador) que reformata nossos cérebros às suas unidades linguísticas: o tuíte, a caixa de comentários, o vídeo no YouTube. É uma interação eminentemente sintática, sujeita a escrutínio contínuo e interpretações polarizantes. 

Já a conjunção, a forma de reativar o corpo social, é o “devir outro”. Captar sinais, o não dito, o contexto. Na sintaxe de enxame das redes sociais, impossível. Justamente porque a infinidade de subjetividades forma o tal “ruído branco” ao qual Berardi se refere ao falar dos senhores do shitstorm. Num dia ruim, quem nunca se sentiu Caronte no mar do inferno do Twitter, rolando com o mouse pelo feed enquanto indivíduos desesperados imploram por migalhas de atenção para seus diálogos unidirecionais? Quem nunca foi o morto que puxou o remo? 

Reativar o corpo social por meio de outra linguagem é, portanto, o diagnóstico de Berardi. “As pessoas adentram o domínio histórico quando a música que chega ao ouvido de todos é mais ou menos a mesma”, escreve, ao discorrer sobre as condições que permitiram a Revolução Russa. A saída é descobrir qual música concatenará nossas singularidades ao caos.    

Quem escreveu esse texto

Antonio Mammi

É editor do Nexo Jornal.

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.