Moda,
Tecendo memórias
Hanayrá Negreiros convida a pensar a história brasileira a partir de imagens, heranças e práticas de vestir fora do olhar colonial
04nov2026Desde a infância, a caixa de fotografias da família Negreiros era um objeto de interesse de Hanayrá. Mexer em imagens e documentos antigos se tornou um ato cada vez mais consciente conforme ela se dedicava a conhecer melhor sua origem, ligada a uma das muitas famílias afro-brasileiras com lacunas em decorrência do processo escravista que marca a nossa sociedade.
Tatear acervos se tornou o seu ofício: após a graduação em moda, ela foi para o campo de pesquisa, estabelecendo diálogos entre a história, a arte e o vestir. No percurso, encontrou mais informações sobre os antepassados, encantou-se com as joias, os balangandãs e a beleza de mulheres negras brasileiras nas fotografias oitocentistas, inquietou-se com a ausência de nomes nesses registros, aprendeu sobre a moda no candomblé e estabeleceu conexões com o campo das artes visuais como curadora.
“Escrever este livro foi como secar um varal de roupas à sombra fresca”, conta Negreiros nas primeiras páginas da publicação, um projeto que começou em 2021, época em que assinava uma coluna na revista Elle. Estreia em livro da paulistana, Negras maneiras de vestir: moda, memória e arte afro-brasileira é um convite a olhar para a moda de outra forma: a partir de acervos familiares, de modos de fazer herdados, da valorização de diversas práticas que envolvem o vestir. Também é um chamado a pensar a história brasileira, elaborando imagens fora do olhar colonial.
A decisão de unir investigação acadêmica a uma escrita pessoal vem de autoras como Angela Davis
Negreiros abre a publicação analisando a trajetória de sua família, em São Paulo e no Maranhão, a partir de fotografias antigas, trazendo observações sobre as roupas e a ocasião dos retratos. Documentos pessoais ganham importância coletiva devido a processos vividos por muitas famílias negras, com registros permeados por afeto, como o do aniversário de quinze anos da tia Ana Luiza em São Luís, nos anos 80, ou o retrato do avô, em traje de baile, no Aristocrata Clube, importante local para a sociabilidade negra paulistana nos anos 60 e 70.
Ela conta que deixar a emoção transbordar, expressando isso na escrita, fez parte do processo. “Não queria romantizar, mas mostrar a beleza”, diz a pesquisadora, cuja família há gerações lida com moda: a avó Therezinha era costureira no bairro paulistano da Liberdade; o avô Alcindo era alfaiate no Maranhão, enquanto a esposa dele, a avó Janoka, lavava e engomava roupas como ofício.
No segundo capítulo, chegamos às imagens oitocentistas que fascinaram Negreiros em 2014, durante um curso sobre joalheria africana e afro-brasileira. São fotos de acervos como o de Marc Ferrez no Instituto Moreira Salles, que retratou mulheres negras no século 19. As roupas, os acessórios, a pose e o olhar chamaram a atenção da pesquisadora, assim como, novamente, as lacunas. Qual o nome, a profissão dessas mulheres?

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Uma delas foi marcante: a partir do título original do retrato, Mulher negra da Bahia, Negreiros passou a chamá-la de “A belíssima da Bahia”. A foto aparece emoldurada e exibida pela autora no registro da capa do livro, feito por Juh Almeida. A autora entendeu que era preciso “ouvir arquivos, escutar imagens”. E “imaginar para além do que lhe foi contado”, pensar entre o rigor documental e as possíveis subjetividades diante dos silêncios de histórias subjugadas — fabular criticamente, como ensina a estadunidense Saidiya Hartman.
Uma peça vestida pela “belíssima da Bahia” guiou a pesquisadora por acervos de jornais investigando o pano da costa, peça que é herança da Costa da África e foi popular no Brasil imperial, constituindo possivelmente um elemento de identidade da população negra à época.
Axé
Candomblecista, Hanayrá Negreiros estudou, em seu mestrado na PUC-SP, a relação entre moda e axé a partir do Redandá, terreiro fundado em 1970 em Embu-Guaçu, na Região Metropolitana de São Paulo, frequentado por ela desde 2012. A autora narra a ocasião de sua primeira ida ao templo e lembra de como se sentiu “totalmente fora de moda” usando jeans, tênis e jaqueta. Percebeu, ali, outra forma de vestir, de beleza. E também foi notando, aos poucos, como essas roupas guardavam “histórias, afetos e legados”.
No terceiro capítulo do livro, ela olha para fotografias de sacerdotes da casa, destacando as vestimentas, enxergando uma linguagem própria do candomblé na cultura visual brasileira, além de trazer um registro precioso de 1967: a capa da revista O Cruzeiro com o babalorixá Joãozinho da Goméia (1914–1971), avô de santo de Pai Guiamazy, liderança no Redandá.

Já o quarto e último capítulo dialoga com o percurso de Negreiros como curadora: nos últimos anos, esteve envolvida em diversas exposições e foi curadora-adjunta de moda no MASP. A autora faz aproximações entre trabalhos de nomes como Rosana Paulino, Aline Motta, Ângela Brito e Larissa de Souza, borrando as fronteiras entre moda e artes visuais a partir de temas (cotidiano, cura, memória) e processos (fotografias com costuras, impressas em tecidos, roupas com retratos estampados).
Para Negreiros, faz muito sentido encerrar o livro dessa forma, referenciando outras artistas negras, prática que perpassa toda a publicação, também com escritoras e pesquisadoras. “Tem um universo que faz este livro existir. O que eu acho incrível é poder me basear nessas mulheres, porque elas me permitiram pensar de outra forma”, conta.
Vem da influência de autoras como Angela Davis, Beatriz Nascimento, bell hooks, Carol Tulloch e Lélia Gonzalez a decisão por uma obra que unisse a investigação acadêmica e a escrita pessoal, narrando seus passos, estimulada também por Ana Paula Xongani, criadora e apresentadora que assina o prefácio do livro. “Fui entendendo como essas mulheres têm uma produção escrita grande, mas também uma oralidade muito forte”, explica a autora. Combinando acervo familiar, documentos históricos, religiosidade e arte, ela faz de Negras maneiras de vestir uma produção bonita e reparadora da memória brasileira.
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