As Cidades e As Coisas,
São Paulo pelas bordas
Ricardo da Paz reconstrói a metrópole da década de 1990 para narrar as subjetividades, contradições e conflitos de habitantes da periferia
12ago2025 • Atualizado em: 18ago2025O walkman amarelo preso na cintura toca Racionais MC’s, “Fim de semana no parque”, enquanto Raio, apelido do office-boy em um escritório na região dos Jardins, disfarça o choro e sente a revolta após ser revistado pela polícia a poucos metros do trabalho, suspeito de um furto. “Me senti ameaçado. Tudo era diferente, eles eram diferentes.”
Em outro ponto da cidade, um operário de uma transportadora sai para trabalhar no sentido Penha olhando a lua em um domingo à noite, na exaustão cotidiana de tentar equilibrar a faculdade e o emprego, onde gostar de estudar era aguentar as tirações dos colegas, ser “metido a besta”. Da janela do vagão do metrô lotado, o homem que não quer ceder seu lugar para ninguém observa a Radial Leste, “onde os malucos nos carros tão de boa”.
Essas são algumas das cenas que Ricardo da Paz, pseudônimo do geógrafo Ricardo Barbosa da Silva, narra em Notas infames na cidade, seu segundo livro e o primeiro de contos. A estreia foi na poesia, em 2023, com Gambiarra, quase poema: escritos pandêmicos.
Crescido nas décadas de 80 e 90 na Cohab 2, em Itaquera, na Zona Leste da capital paulista, doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Federal de São Paulo, ele sempre leu e escreveu, mas foi no contexto da Covid-19 que resolveu lançar suas palavras ao mundo. Recitou poesia em uma aula on-line, foi estimulado por colegas e estudantes, e daí em diante não parou mais.
A coletânea recém-lançada pela Patuá, com prefácio da escritora Lilia Guerra, foi organizada a partir de anotações e memórias, suas e de pessoas com quem conviveu, ficcionalizando a realidade, imaginando cenários e desfechos. As histórias são ambientadas na São Paulo da década de 90 e giram em torno de pessoas comuns das periferias, “nem heróis improváveis e nem vilões disfarçados”, descreve, em sua circulação por toda a cidade, em suas rotinas de emprego, estudo, busca por trabalho, volta para casa, relações familiares, de vizinhança, e socialização.
O olhar de geógrafo ajuda a situar ruas e avenidas (Sabbado D’Ângelo, Pamplona, Marginal Tietê, Jacu Pêssego, João Batista Conti), bairros (Guaianazes, Brasilândia, Tatuapé, Brás, Bixiga, República, Sé, Capão Redondo), lugares (a laje, o bar, a sala de casa, o quintal, a várzea, o escritório, o bufê, a fábrica), assim como outras cidades e estados (Mossoró, no Rio Grande do Norte; Crato, no Ceará), marcações importantes para entender de onde as pessoas vêm, por onde andam, quem são. O olhar de escritor ajuda a estar atento às subjetividades, a expor contradições e conflitos que se desdobram em situações do dia a dia. “A literatura é interessante porque permite adentrar nesse universo mínimo das relações”, diz o autor em entrevista à Quatro Cinco Um.
Paz conta histórias de pessoas comuns, ‘nem heróis improváveis e nem vilões disfarçados’
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São recorrentes nos contos assuntos do mundo do trabalho, das migrações internas e do transporte público (tema importante na trajetória acadêmica do geógrafo), assim como da violência policial. Cabe lembrar que a década de 90 foi especialmente violenta nas periferias paulistanas: o jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso aponta que em 1999 os homicídios tiveram um pico de 65 casos a cada 100 mil habitantes, contra a média de cinco a dez casos registrada entre 1960-75. Brutalidade que também se traduz em preconceitos: racismo, xenofobia, machismo, homofobia, classismo.
A abordagem temporal ajuda a refletir sobre as mudanças de lá para cá: do serviço de office-boy ao de entregador, do desejo pela carteira assinada ao sonho do empreendedorismo. Em “Clandestino”, Paz fala sobre um cenário conhecido na passagem dos anos 90 para os 2000, em que o transporte nas kombis era uma alternativa frente à privatização da Companhia Municipal dos Transportes Coletivos (CMTC), com a presença dos perueiros, a informalidade das relações de trabalho e cotidianas, a possibilidade de ascensão financeira dos motoristas e também a vulnerabilidade a que muitas vezes estavam sujeitos. O ritmo do texto é direto, sem firulas, com espaço para tomar algumas pancadas entre as linhas e também para rir ou se emocionar.
Sem autorização
Ricardo da Paz vê como exemplo das transformações sociais e políticas das últimas três décadas sua própria experiência de entrada relativamente tardia na literatura, tendo vivido uma adolescência pré-efervescência de saraus e slams, que hoje ajudam e estimulam jovens a escrever e expor sua criatividade. O autor fica feliz ao ver uma geração mais nova que sai fazendo “sem precisar de autorização”, com mais autoconfiança.
“Esse isolamento em que a periferia ficou, toda essa arte da sobrevivência, foi gerando essas gambiarras de organização social, política, cultural como forma de resistência do cotidiano”, diz ele. “E as pessoas foram organizando essa revolta. Tanto que os coletivos culturais aparecem justamente nos anos 2000 com mais força, mas eles só vêm a partir do recorte dessa juventude da década de 90.”
Todos os contos de Notas infames na cidade trazem reflexões e cenários importantes para entender o contexto paulistano em que a ideia de periferia começava a ser fortalecida e significada a partir das próprias pessoas periféricas. “Tentei manejar e passar por esses assuntos, apresentar estas perspectivas”, diz o autor, que conseguiu retratar um momento de transição, seja falando sobre trabalho, estudo, cultura, crime, mobilidade, relações humanas ou comportamento.
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