Moda,

Pano pra manga

De Debret à era digital, livro conta história da moda brasileira a partir de seus grandes ilustradores

20nov2018 - 17h08 | Edição #12 jun.2018

É sempre com entusiasmo que se recebe uma nova edição sobre a moda brasileira. Neste Moda ilustrada, o entusiasmo é dobrado, por se tratar de uma obra dedicada à ilustração. O desenho, analógico e manual, vem perdendo destaque em publicações e como ferramenta de criação. O tempo de produção e o material empregado são identificados muitas vezes como práticas antigas e ultrapassadas, pouco eficientes na correria de editores e criadores, que precisam ser rápidos e produtivos para dar conta da ferocidade do consumo atual. 

Como salienta Ronaldo Fraga no prefácio, o desenho é, ainda, um instrumento importante para a criação, e constitui uma linguagem única, marcada pelo gesto, expressão pessoal do criador. A ilustração, porém, não se limita ao desenho à mão livre: o livro traz desenhistas que usam o computador sem perder sua assinatura.

Com concepção de Marcel Mariano e curadoria de Maria Rita Alonso, que assina os textos com Marília Kodic, Moda ilustrada é uma bela oportunidade de conhecer a história da moda a partir dos principais nomes da ilustração, que registraram e ajudaram a criar o estilo de vestir do brasileiro. 

Brasil gentil

A primeira das quatro partes, “Raízes”, registra a vestimenta colonial por meio de gravuras, pinturas e aquarelas que retratam personagens e cenas do cotidiano de um Brasil idealizado, que gostamos de pensar gentil, e que inclui índios e negros com harmonia na paisagem tropical. Impressiona a ampliação das imagens, que enche os olhos e permite que se observem em detalhes rendas, listrados, florais, barrados e amarrações que enfeitavam o corpo desses novos brasileiros. 

É o caso de Negras entrando na igreja para serem batizadas, de Jean-Baptiste Debret, em que mulheres vestem trajes brancos de algodão, com terminações em barrados de bico. Ou de uma outra imagem, já mais conhecida, que mostra a convivência dos escravos com a senhora fazendo renda. Essas aquarelas nos fornecem um bom material de estudo do cotidiano, pois permitem compreender a questão social, a atividade da renda, e como os materiais eram utilizados, como a palha do cesto e das esteiras.

Outro retrato de um Brasil de contrastes é uma gravura do álbum de Debret Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1839) em que uma senhora ricamente vestida, com rendas, babados e véu, encomenda uma missa, enquanto seus pés se mostram descalços, pisando as pedras da rua. Chama a atenção também o fabuloso retrato Baiana, de artista desconhecido. Lindo rosto, luvas brancas e busto coberto por colares de ouro.

A emancipação feminina e a moda de massa são os temas da segunda parte, “Ruptura”. Aqui, o foco recai principalmente sobre as revistas Fon-Fon!, Jornal das Moças e O Cruzeiro. Bem mais descritivas e técnicas, as ilustrações lembram catálogos. Um bom exemplo encontra-se na página 57, em que se pode apreciar a riqueza dos detalhes das blusas do ano de 1915: recortes, babadinhos, matingales e botões.

Simulacro

A moda brasileira ainda não apresentava características próprias: era antes um simulacro da moda europeia, principalmente a francesa. Nas páginas 108 e 109 podem-se ver a graça e a personalidade das ilustrações de Alceu Penna — talvez o melhor ilustrador do livro — de vestidos de Dior, Patou, Balmain e Lanvin, quando a alta-costura estava no auge e donas de casa e costureiras passavam um dobrado para desvendar as elaboradas modelagens dos “figurinos”, como eram chamadas as revistas de moda.

“Contracultura”, a terceira parte, abarca os anos de 1958 a 1994. “Autênticos, visionários e influentes” é como as autoras tratam as figuras que vão “esboçar uma estética autoral”. Talvez haja aí certo exagero, mas não foi pouco o que esses criadores fizeram pela moda brasileira. Zuzu Angel, com seus desfiles no Brasil e nos Estados Unidos, divulgou a cultura brasileira e deu notícias da ditadura que matou seu filho. Dener — representado pelos croquis, raramente expostos — criou a cultura da alta moda brasileira, vestindo grã-finas do eixo São Paulo-Rio-BH. 

Nas Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil), por sua vez, a Rhodia ostentou o caráter “colorido, estridente, solar, tropical” da moda brasileira em tecidos sintéticos, com trilha sonora das então novatas Rita Lee e Gal Costa. É divertido desvendar os processos de criação das coleções, como os desenhos decupados de Markito, que incluem as medidas e a descrição de cores e tecidos. Walter Rodrigues monta nos croquis a fila da passarela, com o nome das modelos. Dener anota coisas como: “Tudo pronto!”.

Não devemos deixar de sublinhar a presença de Conrado Segreto, Ronaldo Fraga e Felipe Jardim, que enchem as páginas do mais autêntico brilho criativo. Fazem falta, no entanto, nomes marcantes na moda brasileira recente: Fabia Bercsek, Rita Wainer e a marca Amonstro, que revalorizaram o desenho e a estamparia nos anos 2000.

“Era digital”, quarta e última parte, destaca os novos talentos. Os trabalhos de Eliana Cho, Monica Ruf e Camila do Rosário anunciam novos caminhos. Com ou sem identidade brasileira, evoé, jovens à vista!

Quem escreveu esse texto

Mariana Rocha

É consultora de moda e professora da Faculdade Santa Marcelina.

Matéria publicada na edição impressa #12 jun.2018 em junho de 2018.