As autoras Elena Malíssova e Katerina Silvánova (Ira Guzova/Divulgação; Diana Kokhna/Divulgação)

Livros e Livres,

Amor libertador

Banido na Rússia, romance toca com delicadeza em feridas sociais ao retratar o encontro de dois homens num acampamento soviético

15out2024

Iúri Kóniev visita o acampamento que frequentou durante sua juventude vinte anos depois de sua última temporada ali, em busca de respostas sobre um passado — e sobre um certo monitor, Vladímir Davýdov — que não conseguiu esquecer completamente. Sinais da importância do monitor na vida do protagonista são apresentados desde as primeiras páginas de Verão de lenço vermelho, romance russo lançado pela Seguinte, selo de literatura jovem da Companhia das Letras.

A edição brasileira recebe o leitor com cuidado, abrindo com uma nota do tradutor, Yuri Martins de Oliveira, sobre o hábito russo de designar diversos apelidos a uma mesma pessoa a depender do grau de intimidade (algo que nós também fazemos por aqui). Em pouco tempo, mesmo quem se aventura em uma primeira viagem na literatura russa, estranhando os nomes dos personagens, já estará em convivência harmoniosa com Iura, Volódia, Sacha, Mitka, Vanka. Com seus lenços vermelhos, típico uniforme do acampamento, logo parecem antigos conhecidos.

O Acampamento de Pioneiros Andorinha, ao longo da narrativa, também se apresenta como um personagem por meio de suas duas facetas. Em 1986, em pleno vigor, um complexo pulsante e mantido por toda uma rede de diretores, monitores e os pioneiros da juventude soviética, cujos momentos de brilho ganham vida à medida que Iúri se recorda de sua última temporada. E em 2006, ano em que o mesmo acampamento, abandonado e destinado a se tornar terreno de construção para novos prédios, está reduzido a destroços, rastros do que foi seu auge, deixando para o protagonista as peças que irão ajudá-lo a recompor suas lembranças.

É possível que o leitor brasileiro demore um pouco para visualizar as paisagens e os recortes descritos aqui — tanto os naturais como os sociais. Podem ser uma novidade para muitos as descrições de como funcionavam os acampamentos soviéticos, quais eram os seus objetivos e o que eles significavam para a vida de cada criança e adolescente — que sentiam uma espécie de dívida com os jovens que haviam sacrificado suas vidas pelo regime. Isso vai ficando claro à medida que Iura e Volódia expõem suas preocupações mais íntimas, enquanto vivem um regime que já havia deixado para trás a sua fase mais ditatorial, mas no qual ainda existia um certo medo da livre expressão. 

As autoras sofreram ameaças de morte após a publicação, o que as levou a deixar o país em 2022

Não se nota nenhuma tentativa de idealizar o passado socialista; tampouco uma crítica inflexível ao período. O leitor se vê, a todo momento, diante de uma visão plural do passado soviético, por meio da presença dupla do acampamento, vivo e abandonado, assim como pelos diferentes posicionamentos políticos dos personagens.

A partir desse pano de fundo histórico-político, constrói-se uma leveza: quando menos nos damos conta, nos encontramos, no meio dessas 464 páginas, envolvidos numa nostalgia específica, que só uma história de acampamento pode proporcionar. Em meio à inocência alegre dos mais novos e toda uma gama de angústias e expectativas dos adolescentes, somos levados ao Andorinha como se também estivéssemos de férias. 

Há obrigações, cerimônias e trabalho comunitário, mas nos deliciamos com os jogos, as idas ao rio, as contações de histórias de terror nos dormitórios, as noites de discoteca (e a ansiedade de chamar o par para dançar), os ensaios de teatro. Teatro este do qual Iura, considerado uma peste pela diretoria do acampamento pelo mau comportamento, é obrigado a participar. Apesar de odiar a obrigação, é graças a ela que irá conhecer Volódia, monitor responsável pela direção da peça, e aprenderá a admirar sua personalidade “nerd” e o respeito às regras.

Construção do afeto

As autoras descrevem graciosamente, pouco a pouco, a construção do afeto entre Iura e Volódia, que passa por leves atritos adolescentes, percorre uma amizade delicada e atinge um amor que consegue reunir honestidade, medo e curiosidade — vivenciado no contexto do fim dos anos 80 na União Soviética, em que ser uma pessoa LGBTQIA+ era especialmente complicado. 

É encantador, no entanto, observar como Iúri ama a si mesmo como é, mesmo que não consiga entender completamente o que se passa com ele à medida que vai descobrindo sua orientação sexual. Seu comportamento “revoltado” o ajuda a se libertar de qualquer preconceito que pudesse ter contra si, em uma época em que pessoas como ele ainda eram vistas como aberrações. Volódia representa o outro lado dessa triste realidade, ao não conseguir se aceitar, sentindo medo de se tornar um pária social, em um momento em que encontrar sua própria comunidade e se sentir seguro nela parecia impossível.

Um dos pontos altos do romance é a construção do relacionamento dos dois se basear na elaboração que cada um tem da própria sexualidade — e como decidem vivê-la. Esse contexto se torna mais tocante quando nos damos conta de que, apesar de seu grande sucesso no TikTok, Verão de lenço vermelho foi banido na Rússia e as autoras sofreram perseguição e ameaças de morte depois da publicação de graça na internet em 2020, o que as levou a deixar o país em 2022 — sinal devastador de que pouca coisa mudou desde o medo típico dos anos 80 que assombrou Volódia.

À medida que a narrativa avança e alcança o fim dos anos 80, a trama se complica. Com a chegada da aids, novos estigmas e desafios surgem para os personagens que, depois da temporada, não sabem se um reencontro será possível. Apesar de doloroso, o contexto histórico enriquece a história e traz mais honestidade à experiência de um primeiro amor vivido entre dois homens. Um ótimo exemplo de como a literatura jovem tem um imenso potencial para tratar de questões consideradas sérias com responsabilidade e delicadeza, retratando feridas sociais que ainda precisam de solução ao mesmo tempo que reforça, sem clichês, o poder libertador que o amor tem.

Quem escreveu esse texto

Aline Zouvi

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