O sociólogo paulistano Mário Augusto Medeiros da Silva (Mauro Figa/Divulgação)

Crítica Literária, Literatura Negra,

Modernidade periférica

Sociólogo apresenta um amplo percurso histórico sobre autorias negras em São Paulo e questiona o que precisa ser lembrado

01nov2026 • Atualizado em: 29out2026 | Edição #111

Intelectuais negros tiveram de imaginar e concretizar uma realidade social na qual pudessem se reconhecer como protagonistas: essa é uma das principais hipóteses de Estrela do novo rumo: literatura negra e os sentidos da modernidade periférica, de Mário Augusto Medeiros da Silva. O compêndio apresenta um amplo percurso histórico e literário sobre a autoria negra em São Paulo. Carregado de referências e notas, traz apontamentos que vão do século 18 ao começo do século 21, mas que se dedicam, quase década a década, a análises de ações culturais e autorais do século 20.

Reconhecendo e enfrentando os limites impostos à presença negra e periférica na historiografia literária hegemônica no Brasil, o livro mostra como intelectuais, artistas e coletivos negros construíram espaços de criação de uma modernidade na qual coubessem seus desejos e reivindicações.

O autor escreve que “a história da modernidade capitalista burguesa ocidental é a de destruições em intensa aliança com racismo, sexismo e colonialismos variados”. Essa afirmação desloca a compreensão tradicional da modernidade: aquilo que costuma ser apresentado como progresso, racionalidade, urbanização e transformação social também foi produzido por processos de violência, exclusão e hierarquização.

Nesse sentido, a modernidade periférica e negra apresentada por Medeiros da Silva não aparece apenas como reação às condições impostas pelo mundo branco e burguês, mas também como capacidade criadora, que inspira coletivamente inclusive o “centro”. A modernidade negra é, assim, inventiva e cria outros usos e sentidos para objetos e espaços.

A disputa permanente da luta por direitos e pela memória social da cidade é o núcleo de ação teórica e mobilização de pesquisa que o autor desenvolve, quando recupera trajetórias de escritoras e escritores, associações, grupos teatrais e territórios.

Autores como Raul Joviano do Amaral, Cumba Júnior, Correia Leite, Lino Guedes, Ruth Guimarães, Solano Trindade, Carolina Maria de Jesus, Oswaldo de Camargo e Sérgio Vaz são as principais das tantas referências dos rumos fundamentais para a compreensão dessa modernidade negra.

O autor revisita a história cultural da cidade e amplia a historiografia literária do Brasil

Estrela do novo rumo inscreve esses autores das páginas de jornais, periódicos e arquivos na historiografia da literatura brasileira. No entanto, a trajetória de Ruth Guimarães, por exemplo, que no começo do século 20 alcança espaço na crítica literária branca com o romance Água funda, revela que ocupar esses lugares não significou deixar de enfrentar as estruturas raciais que organizam o campo literário. Sua presença é importante justamente porque mostra as complexidades das relações entre autoria negra, mercado editorial e crítica.

Medeiros da Silva chama atenção para a experiência teatral entre 1945 e 66 em São Paulo, com o Teatro Experimental do Negro e o Teatro Popular Brasileiro. Na sequência, apresenta uma leitura fundamental sobre Carolina Maria de Jesus, trecho especialmente importante porque restitui à escritora uma dimensão que muitas vezes foi apagada pelas leituras de Quarto de despejo: Carolina não era apenas uma mulher negra pobre que registrava a própria miséria. Ela era uma autora que buscava construir uma carreira literária, que tinha intenções estéticas e que disputava espaços no mercado editorial.

A exploração do fetiche em torno da figura da “negra escritora”, bem como o racismo presente na imprensa e em parte da crítica literária, mostra como sua obra também foi consumida a partir de uma imagem específica da pobreza negra.

A análise do autor sobre Oswaldo de Camargo é uma das contribuições mais significativas, sobretudo porque recupera uma trajetória intelectual que atravessa literatura, memória e militância cultural. A aproximação de Zózimo Bulbul, cineasta negro que participou de produções do Cinema Novo como Ganga Zumba, de Cacá Diegues, e Terra em transe, de Glauber Rocha, também ajuda a perceber a amplitude das redes culturais negras naquele período.

Nas décadas de 1980 e 90, Estrela do novo rumo destaca a importância das antologias literárias Cadernos Negros e do coletivo Quilombhoje. Nomes como Conceição Evaristo, Cuti e Miriam Alves aparecem ao lado de uma geração que fortaleceu a literatura negra como projeto coletivo.

Encruzilhada

O hip-hop, com os Racionais MC’s, é uma grande encruzilhada dessa história de disputa pela palavra e pela representação que atravessou os séculos. A partir das décadas de 90 e 2000, Ferréz, Sérgio Vaz e a Cooperifa assumem o protagonismo da narrativa. “Nóis é ponte e atravessa qualquer rio” é a voz da Cooperifa anunciada por Vaz e sintetiza uma concepção de cidade na qual os limites territoriais podem ser atravessados pela literatura e pela organização cultural.

O livro revisita a história cultural da cidade e amplia a historiografia literária do Brasil, construindo uma cartografia literária da presença negra em São Paulo, feita não apenas de ruas, bairros, teatros, jornais, livros e espaços culturais, mas também de apagamentos e permanências. A presença negra sempre fez parte da modernidade paulistana.

Estrela do novo mundo traz um amplo levantamento de autorias e obras, mas sua força está no questionamento do que merece ser lembrado. A disputa por uma memória negra que registre teoricamente a estética de uma modernidade periférica é também uma disputa pelo direito de existir na história.

Quem escreveu esse texto

Luciany Aparecida

É autora de Mata doce (Alfaguara).

Matéria publicada na edição impressa #111 em novembro de 2026.

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