Literatura,

Reumatismo e infinito

Personagens dementes de Hoffmann ocupam os contos como se os assombrassem de dentro

08nov2018 - 15h25 | Edição #2 jun.2017

Foi boa ideia dar o título de O reflexo perdido e outros contos insensatos a esta coleção das histórias de E. T. A. Hoffmann (1776-1822), organizada, traduzida e anotada por Maria Aparecida Barbosa, professora da Universidade Federal de Santa Catarina.

O usual seria dizer que as sete narrativas do livro pertencem ao gênero da literatura fantástica, que tem em Hoffmann seu maior precursor nos tempos modernos. Mas algumas das convenções que costumamos associar ao conto fantástico não parecem ser obedecidas aqui.

Não encontramos, a bem dizer, um ou mais personagens “normais” às voltas com circunstâncias insólitas, fantasmagóricas ou alheias à razão cotidiana. Eles próprios são, em geral, dementes, e destituem o narrador de sua autoridade originária; ocupam o conto — como se o assombrassem a partir de dentro.

As histórias são descosturadas e cheias de acidentes. Surgem ao correr da pena, sem plano preconcebido; dão origem a novos personagens e narrativas no meio do caminho, e chegam ao fim como Deus manda ou como o diabo gosta.

Por isso não é fácil, uma vez terminado o livro, lembrar direito do enredo de cada um destes “contos insensatos”. Tome-se “O Violino de Cremona”, por exemplo. Sobre o que era mesmo? Um jurista excêntrico, o conselheiro Krespel, compra violinos raros com o objetivo de desmontá-los, de modo a conhecer os segredos de sua fabricação. Sua filha canta como um anjo; ele a proíbe de cantar, por uma razão que só será revelada no final da história.

O leitor fica sem saber, entretanto, por que motivos o jurista manda que lhe construam um palácio constando apenas de quatro paredes altíssimas, sem prever portas nem janelas. Uma vez prontas as paredes, determina que se façam aberturas encostando o nariz nos pontos onde deve se dar a demolição.

Seria de esperar alguma relação entre o tal palácio e o resto da história. A expectativa se dissipa em vapor; seria apenas um traço humorístico? Os limites entre humor e delírio nunca são claros em Hoffmann, e conforme vamos passando de uma coisa para outra esquecemos do ponto de partida.

As paredes que o conselheiro destruía serviriam de metáfora para o método do autor: mal começa a estruturar sua história, surgem buracos por onde a ideia se perde

Talvez as paredes do palácio fossem prenúncio dos violinos, também ocos, que o conselheiro Krespel destruía sistematicamente. Serviriam também como metáfora do próprio “método” do autor: mal começa a estruturar sua história, surgem buracos, aberturas e pontos de fuga por onde a ideia inicial se perde.

Outro caso de “construção-destruição” é o da belíssima e graciosa Olímpia, por quem se apaixona o jovem Natanael, personagem de “O Homem-Areia”. No conto, que Freud analisou sob o prisma do complexo da castração, revela-se que a jovem não passava de um autômato construído por um personagem misterioso. A paixão de Natanael pela boneca pode ser um meio de Hoffmann ironizar o culto romântico da mulher perfeita e inatingível, mas é um sinal para que um tipo demoníaco, o vendedor de barômetros Coppola, tome conta dos acontecimentos, sem que seja possível concluir se tudo é alucinação do personagem ou se algo de terrível de fato existe.

Completamente louco é o “Anacoreta Serapião”, na verdade um rapaz de alta nobreza que, certo dia, convenceu-se de ser um santo martirizado no século 3 da Era Cristã. “É possível que o senhor ache isso inacreditável”, diz o personagem. “Mas é isso mesmo, a onipotência divina me fez sair ileso do meu martírio… uma forte dor de cabeça e também um violento reumatismo nos membros, só isso, me recordam de vez em quando das torturas padecidas.” 

“Se eu for realmente louco”, completa o eremita, “só mesmo alguém ainda mais louco pode presumir estar em condições de dissuadir-me…”. De modo que não há como sair do círculo, perfeitamente lógico mas insensato, que o falso mártir criou em torno de si.

Com essa pirueta argumentativa, o eremita terá conseguido, ironicamente, alcançar uma espécie de beatitude, algo como um acesso ao infinito, à vida eterna. Nada pode arrancá-lo de sua construção mental: ou ele é de fato um santo martirizado há séculos, ou está louco — mas nesse caso será mais louco quem tentar convencê-lo disso.

A certeza demente de Serapião talvez não seja uma simples paródia das tendências idealistas da filosofia alemã nos começos do século 19, como por exemplo a de Schelling (1775-1854), confiante num “ato absoluto da autoconsciência” para estabelecer tudo o que vemos.

Hoffmann parece simpatizar com seu personagem; quando um simples reumatismo se transforma em lembrança miraculosa de um martírio cristão, estaria em jogo o princípio romântico defendido por outro contemporâneo, Novalis (1772-1801), citado por Sabine Rossbach em “Romantic Aesthetics: Mirroring, Abymization, Potentiation”.

Romantizar, dizia Novalis, “é identificar o eu inferior com um eu melhor… Quando atribuo um senso elevado ao que é comum, um aspecto misterioso ao que é trivial, a dignidade do desconhecido ao que é familiar, a aparência de infinitude ao que é finito, estou romantizando todas essas coisas”.

As relações de Hoffmann com a filosofia idealista alemã são exploradas com brilho por Márcio Suzuki no posfácio para uma outra obra curta do autor, disponível apenas em e-book. Trata-se de O melófobo, ao qual se acrescenta um exemplo da atividade de Hoffmann como crítico musical — uma análise bastante técnica da Quinta Sinfonia de Beethoven, precedida de considerações mais gerais sobre a música do mestre.

Ainda aqui, a busca pelo infinito orienta as preocupações de Hoffmann. Enquanto em Haydn tudo se equivale à felicidade de um dia de sol, sombreado apenas pela nostalgia da “imagem amada suspensa ao longe”, em Mozart chegamos ao “âmago do reino espiritual”, momento em que “o temor nos envolve, mas sem martírio algum — ele é apenas uma noção do infinito”. Com Beethoven, contudo, abre-se o campo do desmedido, em que as sombras nos envolvem “cada vez mais, e nos destroem”. Ao mesmo tempo, continuamos vivos. O medo nos transporta, assim, para além da morte: para o infinito.

Reflexos que desaparecem e retornam fazem dos contos um palácio de espelhos em que Hoffmann se reflete

Poucos escritores foram tão sugestivos para a música quanto Hoffmann, cuja história “O Quebra-Nozes e o rei dos camundongos” (também traduzida em O reflexo perdido) inspirou o célebre ballet de Tchaikovski. Misto de conto de fadas e pesadelo, também aqui um criador de autômatos e brinquedos que ganham vida intervém para encenar o jogo entre o mecânico e o orgânico, o falsificado e o verdadeiro, o quebradiço e o infinito.

Personagens que se duplicam, reflexos que desaparecem e retornam, temas que se repetem e variam, tudo faz desses contos um palácio de ecos e de espelhos em que o próprio Hoffmann — que era também compositor, e um bocado louco — se reflete. Seu rosto é bem estranho, mas é preciso dizer que, para a sensibilidade contemporânea, não assusta tanto assim.

Quem escreveu esse texto

Marcelo Coelho

Sociólogo e jornalista, é autor de Tempo medido (Publifolha) e Patópolis (Iluminuras).

Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.