Ciências Sociais, Literatura,

Para ampliar horizontes

Romance e obra de filosofia de autoras nigerianas sobre cultura iorubá mostram o respeito à história particular de cada um

30jul2021 - 12h23 | Edição #47

O que as obras de Oyinkan Braithwaite e Oyeronke Oyewumi têm em comum? Mais do que compartilhar a origem nigeriana, cada uma em sua narrativa abre novas portas de leitura do mundo para nós, simples mortais. O bebê é meu é o segundo romance da jovem Oyinkan Braithwaite, cujo primeiro livro, Minha irmã, a serial killer, lançado em 2018, já havia nascido para o estrelato — recebeu em 2020 o Book British Book Award na categoria melhor livro de crime e ficção e, em 2021, o Women’s Prize for Fiction, tendo saído por aqui em 2019 pela editora Kapulana, que também publica agora O bebê é meu.

No novo romance, escrito e narrado em pleno confinamento em Lagos, durante o ano de 2020, Braithwaite conta a história de um homem que fica no meio de uma disputa de duas mulheres pela maternidade de uma criança. Os três vão dividir o mesmo espaço durante a quarentena sem ter previsão de saírem do confinamento. E ele, por outras razões, vai ter de se meter sem querer nessa briga. As 78 páginas de O bebê é meu valem ser lidas em uma só sentada — esse romance de mistério é também recheado de pitadas de humor. A narrativa é cheia de ação e construída em cenas, colocando o leitor no centro dos acontecimentos.

Poderíamos arriscar chamar a obra de novela ou mesmo de um longo conto, mas a autora responde, em inúmeras entrevistas que deu sobre Minha irmã, a serial killer, que não existe regra. Se no primeiro livro ela fez questão de escrever os capítulos como se fossem minicontos, ou seja, com começo, meio e fim, nessa nova aventura literária ela apostou no roteiro no qual o leitor vê e conhece exatamente o que o narrador principal vê e conhece. Nada a mais, nada a menos.

Braithwaite, aos 33 anos, adota em sua literatura uma postura que respeita o contexto e a história particulares de cada ser deste planeta. É isso que a une a Oyeronke Oyewumi. O livro de Oyewumi, A invenção das mulheres, resultado de sua premiada pesquisa acadêmica, também quer alargar nossos horizontes. Se O bebê é meu investe desde a primeira cena em engajar o leitor pelo desenrolar de uma história de mistério, Oyewumi escreve um prefácio em que nos coloca dentro da sua biografia para olharmos a “realidade” de outra forma.

Colonização

“Nasci em uma numerosa família; e as idas e vindas de minhas muitas relações constituíram uma importante introdução aos modos de vida iorubás. Em 1973, meu pai ascendeu ao trono e tornou-se o Sòún (monarca) de Ògbómòsó, uma importante unidade política Oyó-Iorubá, de certo significado histórico. Desde então, e até o  presente, ààfin Sòún (o palácio) tem sido o lugar que chamo de lar. Diariamente, escutei percussionistas de tambor e ouvi os orikis (poesias laudatórias) dos meus antepassados recitados enquanto as mães reais ofereciam os poemas a membros da família como saudações. […] Todos esses acontecimentos proporcionaram ampla oportunidade para que eu observasse e refletisse sobre os aspectos pessoais e públicos da cultura viva.”

Professora de sociologia na Universidade Stony Brook, em Nova York, teve sua pesquisa lançada em livro em 1997. A obra chega agora ao Brasil pela editora Bazar do Tempo, em um momento em que a discussão sobre feminismo e racismo se tornou mais pública e os lançamentos mais frequentes trazem à tona a questão da interseccionalidade a partir de reivindicações como as do feminismo negro.

Mas o livro de Oyewumi vai além: a professora coloca em xeque a epistemologia das categorias sociais, questiona a branquitude e a eurocentricidade do fazer das ciências sociais e disseca a cultura iorubá do presente para apontar como o gênero, como o conhecemos no senso comum, é mais uma invenção do Ocidente, calcado na história da colonização — de corpos e mentes. Como em Orientalismo, do americano-palestino Edward Said, o livro reinventa o olhar de quem o leu. A invenção das mulheres nos mostra um mundo de realidades muito distintas, com seus valores e suas lutas particulares. Ambos apontam como a colonização contribuiu para a construção de “realidades” uniformes e universais.

O livro de Oyewumi disseca a cultura iorubá para apontar como o gênero é uma invenção do Ocidente

“Embora, na origem, por definição — e pela prática para apontar como o gênero —, o feminismo seja um discurso universalizante, as preocupações e questões que o informaram são ocidentais. […] Assim sendo, o feminismo permanece enquadrado pela visão limitada e biológica de outros discursos ocidentais”, diz Oyewumi.

Na obra, a autora apresenta a cosmologia de Iorubalândia, as idiossincrasias de sua língua e linguagem, o universo dos nomes próprios, a posição das mulheres chefes, o sistema de senioridade e a divisão “sexual” do trabalho. Discute o que ela considera ser a “ideologia do gênero” (sem relação com o que temos ouvido no Brasil em tempos recentes!), o modus operandi da exportação da teoria feminista do Norte global para o Sul, a gênese da condição da mulher africana sob a colonização e a masculinização dos orixás nesse contexto.

“As pessoas dedicadas à pesquisa precisam interrogar seus próprios pontos de vista e vieses enquanto colocam questões, coletam dados e interpretam evidências. Para começar, quem pesquisa deve levar a sério a advertência de Linda Nicholson de que ‘é hora de nós [ocidentais] reconhecermos explicitamente que nossas reivindicações sobre mulheres não se baseiam em uma determinada realidade, mas emergem de nossos próprios lugares na história e na cultura; são atos políticos que refletem os contextos em que emergimos e os futuros que gostaríamos de ver’”, escreve nos capítulos finais.

Braithwaite, tanto no seu primeiro romance como em O bebê é meu, não deixa de discutir o lugar da mulher de classe média, jovem e contemporânea, em uma metrópole africana. Ela fala para quem quiser ouvir sobre a importância dessa voz que se coloca no contexto de Lagos. Oyewumi, de outra maneira, tenta recuperar as tradições vivas da cultura iorubá para, de novo, mostrar mais lugares e mais papéis que as mulheres podem, se quiserem, desempenhar.

Como nos advertiu outra autora nigeriana que alcançou a audiência global, Chimamanda Ngozi Adichie, no discurso que a tornou famosa: “A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que eles não sejam verdadeiros, mas que eles estão incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história. A consequência da história única é esta: ela rouba a dignidade das pessoas. Torna difícil  o reconhecimento da nossa mesma humanidade. Enfatiza como somos diferentes, e não como somos semelhantes”. Semelhantes, sendo diferentes.

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.