Ciências Sociais,

Para além do feminismo

Livros de Silvia Federici e de Patricia Hill Collins e Sirma Bilge mostram a importância de discutir gênero para a luta política

26mar2021 - 09h44 | Edição #44

Em um momento em que o governo federal está fazendo um cerco à discussão sobre gênero no Brasil, excluindo-o dos livros didáticos a ser usados nas escolas públicas e tirando-o da pauta das políticas de educação e dos direitos humanos, o lançamento de Interseccionalidade, de Patricia Hill Collins e Sirma Bilge, e O patriarcado do salário: notas sobre Marx, gênero e feminismo, de Silvia Federici, chegam em boa hora para ampliar o debate em torno do tema. Lançados pela Boitempo, como parte do ciclo de debates “Feminismo para os 99%”, organizado pela editora, viabilizado pela Lei Aldir Blanc e com apoio da Quatro Cinco Um, os livros se complementam e abrem caminhos para reflexões para além dos estudos feministas.

Interseccionalidade foi escrito a quatro mãos por Hill Collins, uma das principais teóricas do feminismo negro dos Estados Unidos e autora de Pensamento feminista negro (Boitempo, 2019), e Bilge, de origem turca e professora da Universidade de Montreal. As duas se conheceram durante um congresso em Durban, na África do Sul, em 2006, mas só em eventos acadêmicos subsequentes notaram que possuíam uma perspectiva similar sobre interseccionalidade. “Este livro é, portanto, o resultado de uma parceria verdadeira. Nenhuma de nós o teria escrito sozinha. Sentíamos a necessidade de escrever um volume que apresentasse as complexidades para além dos públicos com os quais ambas nos sentíamos à vontade”, escrevem as duas no prefácio. Essa observação é importante para entender a escrita como um processo colaborativo, uma vez que “a interseccionalidade demanda esse tipo de trabalho intelectual dialógico”.

Logo no começo da obra, elas mostram que interseccionalidade “é muito mais do que usualmente percebemos no contexto brasileiro, no qual a circulação acadêmica do termo o reduziu a um somatório de opressões”, conforme reflete no texto de orelha Winnie Bueno, escritora e pesquisadora do pensamento de Hill Collins. As autoras, assim, apresentam a interseccionalidade como uma ferramenta analítica importante para pensar a desigualdade global. O conceito “fornece a estrutura para explicar como categorias de raça, gênero, idade, estatuto de cidadania e outras posicionam as pessoas de maneira diferente no mundo”. Ao destacar essas categorias, a interseccionalidade altera o modo de pensar emprego, renda e riqueza. A relacionalidade é, portanto, um tema central da interseccionalidade, cuja abordagem destaca como acontece a interação simultânea da discriminação como resultado de múltiplas identidades. 

‘Marx negligenciou algumas das atividades mais importantes da reprodução da vida’, escreve Federici

As autoras recuperam a origem do termo, comumente traçado no artigo “Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color” (Mapeando as margens: interseccionalidade, política identitária e violência contra mulheres não brancas), de Kimberlé Crenshaw, de 1991, concebendo-o no ativismo do Combahee River Collective, no panfleto “A Black Feminist Statement”, de 1977. Assim, reconhecem a influência da interseccionalidade no movimento pelos direitos dos negros nos Estados Unidos.

Hill Collins e Bilge trazem casos concretos em que o conceito pode ser aplicado, destacando, inclusive, casos brasileiros, como os protestos ocorridos no país antes da Copa do Mundo da Fifa de 2014 e o movimento das mulheres negras do Brasil, que combateram a ideia da democracia racial. Já Paulo Freire domina o capítulo “Interseccionalidade e educação crítica”, com Pedagogia do oprimido. Elas analisam também o trabalho do economista Muhammad Yunus, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2006, que criou redes de microcrédito voltadas para mulheres pobres de Bangladesh — é curioso notar que o trabalho de Yunus é altamente criticado por Silvia Federici em Reencantar o mundo: o feminismo e a política dos comuns, que será publicado este ano pela editora Elefante.

Trabalho doméstico

Ao observarem que as relações de poder são interseccionais, assim como as desigualdades econômicas advindas do capitalismo, elas indicam que o capital é interseccional (citando a teórica feminista Zillah Eisenstein). Com isso, acabam conversando diretamente com as preocupações de Federici em O patriarcado do salário. Nesse livro, são retomados alguns dos assuntos mais caros à filósofa italiana, que já haviam sido desenvolvidos em O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista (Elefante, 2019). A saber: a defesa pela remuneração do trabalho doméstico e uma crítica a Marx e aos marxistas que ignoraram — consciente ou inconscientemente — gênero e raça ao elaborar reflexões sobre o desenvolvimento do capitalismo e a emancipação da classe proletária. Ela defende, assim, uma abordagem interseccional para essas teorias políticas. É uma busca, portanto, de unir “‘dois dos principais projetos emancipatórios, marxismo e o feminismo’, e propiciar o ‘grande salto’ que a política do nosso tempo exige”, escreve ela na introdução. 

Os sete textos reunidos no volume foram publicados em anos mais recentes, enquanto outros surgiram na década de 1970, quando ela participava ativamente da Wages for Housework (Salários pelo trabalho doméstico), que defendia que o Estado deveria remunerar as mulheres pelo invisibilizado trabalho doméstico que realizam de graça. Para ela, para ser feminista é preciso ser anticapitalista. No texto “Gênero em O capital, de Marx”, ela defende o ecossocialismo e explica de onde veio a ideia de inserir a caça às bruxas como parte da história da acumulação primitiva de capital teorizada pelo alemão em seu clássico, levando-a a escrever Calibã e a bruxa: mulheres, corpos e acumulação primitiva (Elefante, 2017).

Apesar das críticas a Marx, ela deixa claro desde o começo que “assumir uma postura crítica em relação a aspectos da teoria crítica de Marx não é rejeitar sua obra nem deixar de reconhecer sua importância única. Marx nos deu a linguagem e as categorias necessárias para pensar o sistema capitalista e compreender a lógica que impulsiona sua reprodução crescente. […] É hora de reconhecer que Marx subestimou a resiliência e a capacidade destrutiva do desenvolvimento capitalista e priorizou a análise da produção capitalista ao mesmo tempo que negligenciou algumas das atividades mais importantes por meio das quais a vida é reproduzida”.

Paulo Freire aos quadrados, por Paula Sibilia

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.