Literatura Negra,

Profecia de tempos novos

Romance retrata o amor de dois jovens escravizados como uma forma de procurar a liberdade em meio ao horror escravista

01nov2023 - 00h00 | Edição #75

Tudo aconteceu em uma terra e um tempo aparentemente distantes. O Vazio era um lugar assombroso no meio do bafo quente do Mississippi, Estados Unidos. Por lá, tudo testemunhava um horror que se mesclava com a claridade de longas plantações de algodão. O Vazio — um apelido para a fictícia colônia Halifax — era posse da família homônima, formada por Paul, Ruth e Timothy. Proprietários de uma casa-grande “construída sobre ossos”, esses personagens não guiam os acontecimentos de Os profetas, e sim aqueles que eram tratados com mais desdém do que os animais.


Lírico e repleto de aforismos, Os profetas denuncia e expõe os terrores da escravidão nas Américas

Romance de estreia de Robert Jones Jr., Os profetas é uma história criada sob a adversidade durante o cenário escravista norte-americano do século 19. O núcleo da história pulsa em torno do amor de Isaiah e Samuel, dois meninos negros que trabalham em um celeiro um pouco distante da casa-grande e das cabanas onde dormem outros escravizados. Sob paredes brancas, à luz de um candeeiro e ao lado de cavalos e porcos, circundados pelo feno que limpavam todos os dias, eles habitam uma espécie de zona segura que os protege dos olhares oblíquos e, sobretudo, da ameaçadora fé moralizante dos senhores. 

O celeiro serve como um refúgio em meio ao caos. À meia-luz, eles expressam seu desejo com um erotismo envolvente, recebem visitas de pessoas amadas e questionam a própria identidade: de onde teriam vindo? Quem seriam seus pais? Quais eram seus verdadeiros nomes, antes de serem chamados de Isaiah e Samuel, alcunhas impostas por Paul?

Os afetos da narrativa revelam a humanidade dos escravizados, detalhando sonhos e subjetividades

O amor de Isaiah e Samuel, contudo, não é romantizado de forma pueril —, é uma representação de uma busca por liberdade em meio ao horror escravista. A complexidade com que a relação dos protagonistas se desenvolve e a firmeza com que resguardam o relacionamento se difundem para toda a comunidade, criando conexões que legitimam experiências. 

Sarah, que viveu o trauma da travessia do Atlântico em um navio negreiro, ao observar Samuel e Isaiah, lembra-se de Mary, a mulher por quem se apaixonou, mas de quem foi separada. Já a jovem Puah percebe o cuidado e respeito de Samuel, por quem acaba se apaixonando. Como a narrativa se passa num momento em que negros e escravizados são vistos como sinônimos, o amor de Isaiah e Samuel oferece um tipo de revelação que possibilita a solidariedade e uma nova posição diante dos algozes brancos.

Em outras palavras, se ainda hoje resiste um senso comum de que os sujeitos escravizados eram coisas limitadas ao trabalho braçal, os afetos desdobrados da narrativa revelam sua humanidade, detalhando sonhos e subjetividades. Assim, são os obstáculos ao amor de Samuel e Isaiah, de modo particular, e a vida negra, de modo geral, que movem o romance de Robert Jones Jr.

Violência

Proprietários do Vazio e donos de uma moralidade seletiva, Ruth e Paul Halifax corporificam uma ordem histórica que destila violência e aduba a terra com o trauma negro. Nesse cenário opressivo, resta aos subalternizados abaixar a cabeça e não olhar no olho dos senhores, sob o risco de torturas indiscriminadas. Ainda que lírico e repleto de aforismos, Os profetas não deixa de denunciar e expor os terrores da escravidão nas Américas. Não à toa, acompanhamos descrições de chibatadas, cicatrizes, raptos, estupros e humilhações públicas perpetradas pelos Halifax.

Nessa panela de atos indigestos e sádicos, Paul busca usar Isaiah e Samuel para a reprodução de escravizados. Decide expor os dois protagonistas a uma choupana conhecida como “A Porra de Lugar”, onde seriam obrigados a estuprar mulheres para gerar filhos. Impedidos de sustentar uma recusa direta ao desejo do senhor, resta criar uma estratégia para enganar Paul.

O que há em ‘Os profetas’ é a ruptura com o espaço e a linearidade do tempo da escravidão

O arranjo delicado é amarrado com confiança junto à comunidade, até que esta sofre uma cisão quando Amos, um dos escravizados mais velhos do Vazio, converte-se ao cristianismo e se alinha aos interesses dos Halifax. Movido pela vaidade e pelo desejo de proteger a esposa, Essie, das violências perpetradas n’a “Porra de Lugar” e do furor sádico de Paul, Amos estabelece uma aproximação com o proprietário através da fé em um deus único e uma religião alheia à sua história. Assim, Amos inicia um movimento que condena o amor de Isaiah e Samuel.

A leitura pouco atenta de Os profetas talvez possa colocar os antagonistas num mesmo patamar. No entanto, se Paul e Ruth são a imposição da ordem pelo poder econômico, político e moral, Amos incorpora uma contradição radical pela conquista de proteção e segurança em um mundo de incertezas. Para não perder Essie e adquirir algum reconhecimento no grupo, ele é coagido a manter estáveis as paredes que seguram a casa-grande. Um cúmplice, talvez; o mandante do crime, jamais.

Não bastasse a posição de Amos e o autoritarismo de Paul e Ruth, o amor de Isaiah e Samuel sofre um novo abalo com o retorno de Timothy, após longa viagem pelo norte dos Estados Unidos. Herdeiro dos Halifax, ele volta à colônia com erudição envolvente e habilidade na pintura. Encarnando um típico homem ilustrado, Timothy se mostra envolvido com a causa abolicionista, que conheceu em terras afastadas e geladas. Com gestos entre a provocação, a admiração folclórica e o fetiche, o filho dos Halifax começa a pintar retratos de pessoas negras, obrigando Isaiah a servir de modelo-vivo, mesmo que isso fira as vontades do escravizado.

Trauma e desejo

Se em Os profetas o amor e o desamor regulam a vida e a morte negras, isso se dá como uma equação que aproxima o trauma e o desejo dos escravizados por liberdade. Os dramas vividos pelos personagens não envolvem apenas eventos individuais, mas uma experiência compartilhada coletivamente. Ainda que a limitação geográfica do romance seja o Mississippi, a narrativa extrapola fronteiras e liga a modernidade ocidental à escravidão. Os eventos espelham não só o florescer da resistência negra e da branquitude colonial nos Estados Unidos, como também em Cuba, na Jamaica, no Haiti e, com certeza, no Brasil.

Com vozes que se intercalam e capítulos que mudam o foco de observação, Jones Jr. cria um enredo polifônico que permite acessar uma multiplicidade de vidas interligadas. O papel das mulheres ilustra bem esse cenário, já que compartilham o passado e os saberes ancestrais, sofrem demasiado, ensinam formas de se proteger, curar-se e se rebelar, além de legitimar o vínculo de Isaiah e Samuel. Com a polifonia dos vivos, o romance também traz a memória e a sabedoria dos mortos, rompendo com a barreira que separa os dois planos.  

Com os pés fincados no que viveu, no que aprendeu com os antepassados e os tendo a seu lado, Maggie, escravizada que trabalha na casa-grande e domina os rituais de cura, orienta Samuel a “criar um lugar para encontrar o tempo a que você pertence”. É uma busca pela vida, uma tentativa de permitir o encanto para além do celeiro e da colônia Halifax. O que há na sentença de Maggie e em Os profetas, afinal, é a ruptura com o espaço e a linearidade do tempo da escravidão. Isaiah e Samuel são testemunhas negras da ojeriza escravista, e, apesar disso — ou melhor, ainda assim —, vivem o amor como salvação, como profecia de tempos novos. A emoção do romance não está no olhar para trás, e sim no encontro de uma esperança brilhante sobre os escombros daquilo que já foi, mas que ainda persiste.

Quem escreveu esse texto

Ronaldo Vitor da Silva

É curador, professor e pesquisador de relações raciais.

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.